sábado, 2 de outubro de 2010

"O que é democracia" ?- Francis Fukuyama

O que é democracia? A ideia de um governo da maioria é frequentemente subvertida para se prestar aos mais variados interesses. Resgatá-la significa, por exemplo, o respeito às minorias, um sistema econômico justo e leis que garantam os direitos humanos.

Em O Fim da História, o pensador norteamericano Francis Fukuyama dizia que, com o colapso do comunismo, a democracia e o capitalismo se firmaram como os grandes vitoriosos entre todos os sistemas e ideologias existentes. Mas democracia é um conceito esquivo, como se tem visto muito recentemente.

O Ato Patriótico, assinado pelo ex-presidente norte-americano George W. Bush após os atentados de 11 de setembro de 2001, por exemplo, ia contra uma série de direitos civis.

Há dúvidas consideráveis a respeito de os atuais regimes da Venezuela e do Irã poderem ser considerados democracias. A historiadora indiana Thapar Romila, professora emérita da Universidade Jawaharlal Nehru, de Nova Délhi, analisa a seguir os vários aspectos que cercam a ideia de democracia.

Nas cidades gregas, os escravos eram a maioria.

O ideal democrático nunca foi totalmente traduzido na prática. Muitas das chamadas sociedades democráticas do passado foram sequestradas e tornaram-se oligarquias em que a retórica democrática era usada para preservar a ficção de que o grupo dominante representava a maioria.

As cidades-estado gregas, por exemplo, são frequentemente citadas como as primeiras democracias, mas é convenientemente esquecido que, nelas, o número de cidadãos livres era superado pelo de escravos e estes não eram representados nem tinham qualquer direito. À luz da experiência histórica, como a democracia pode ser adaptada às circunstâncias atuais?

Nos tempos modernos, a democracia tem sido frequentemente associada ao Estadonação. Mas talvez não devêssemos esquecer a experiência das unidades políticas e sociais menores que, no passado, foram governadas adotando programas semidemocráticos.

Aqueles que buscaram dotar o Estado-nação de uma identidade, associando-o à classe média ou a um grupo regional, linguístico, étnico ou mesmo religioso, afirmaram estar fazendo isso em nome da democracia. Às vezes, tem-se argumentado, essas comunidades eram fictícias e sua identidade ostensiva camuflava aspirações ocultas.

Ao equiparar-se a identidade do grupo ao nacionalismo, as causas democráticas e nacionais se uniram. Mas, nesses Estados-nações, o funcionamento da democracia era limitado pelo nacionalismo ao qual estavam ligados. Agora que o Estado-nação está sendo cada vez mais questionado, devemos também questionar a democracia - ou certos tipos de democracia?

Uma questão que poderia ser feita é se a democracia pressupõe o secularismo. Em muitas partes do mundo, a religião está sendo manipulada politicamente numa escala sem precedentes. Ao dizer isto, não estou contestando o direito de as pessoas praticarem sua fé, mas a maneira como vários políticos e fundamentalistas distorceram esse direito. Se questionar a função pública da religião leva necessariamente ao secularismo, então isso poderia incentivar a promoção de outra abordagem para a democracia, especialmente em sociedades nas quais várias religiões existem lado a lado.

As minorias já sabem que não podem ser excluídas

A democracia implica representação e decisões baseadas nas opiniões da maioria. Mas o que constitui uma maioria? Se é simplesmente uma questão de número de votos nas eleições, isso abre caminho para fraudes eleitorais ou para a mobilização de apoio da massa por ideologias que parecem abraçar uma variedade de causas, mas que, na realidade, não são mais do que um mecanismo para atrair e controlar um grande número de pessoas.

Penso aqui sobre o tipo de populismo reacionário baseado em raça ou religião que repetidamente causou tensões e violência em muitas partes do mundo. Nos interesses de uma verdadeira democracia, valeria a pena considerar como tais movimentos podem ser impedidos de impor sua definição de governo da maioria, especialmente quando as comunidades religiosas são exploradas politicamente, como parte de uma agenda supranacional oculta.

O moderno Estado-nação também enfrenta o problema de acomodar as culturas minoritárias, as quais estão cada vez mais conscientes de que não podem ser excluídas da maioria democrática. Esse problema poderá se tornar especialmente agudo nos países industrializados, onde grupos nitidamente diferentes têm sido reunidos à força por meio de conexões coloniais passadas e necessidades econômicas presentes, e onde uma maioria numérica é, por vezes, reduzida à condição de uma minoria política. Nas ex-colônias, onde tais conflitos também são conhecidos, os grupos divergentes pelo menos compartilham normalmente alguma herança e história comuns.

A melhor maneira de entender a correlação entre cultura e democracia é examinar a maneira pela qual os indivíduos ou grupos escolhem sua identidade e percebem a diferença entre eles e os outros. Em parte, esse é o resultado da socialização precoce. Também pode nascer de tensões e conflitos, que aguçam a percepção das pessoas sobre sua identidade.

Por que, aliás, o Estado-nação deve insistir em uma única identidade? Afinal, as pessoas têm identidades múltiplas. A esterilidade de uma identidade única poderia ser substituída por uma multifacetada, envolvendo padrões sociais e culturais mais complexos. A democracia multifacetada também seria mais difícil de controlar politicamente.

A democracia representativa muitas vezes acaba com o poder removido e distante do cidadão. Agora que o cinema, a televisão e a publicidade entraram todos em ação, os supostos representantes do povo se veem dirigindo-se a audiências que não podem sequer ver.

A verdadeira representatividade deve ser baseada em alguma referência lastreada nos eleitores, que também devem manter o direito de cassar seus representantes, se assim o desejarem. Esses direitos aparentemente negativos podem fornecer um corretivo essencial para a tendência de os representantes se transformarem em personalidades influentes.

O mercado livre tem suas qualidades, mas pode também prestarse a outros tipos de demandas ditatoriais, como a do consumismo.

O colapso de algumas economias socialistas levou os povos desses países a uma esperança desesperada de que o mercado livre iria protegêlos do ressurgimento de regimes totalitários. Mas a experiência de outros países mostra que o mercado não pode fazer isso. Infelizmente, ele pode prestar-se igualmente bem a outros tipos de demandas ditatoriais - do consumismo, da indústria de armamentos, das corporações multinacionais e de outros interesses.

Tais demandas, que corroem a igualdade de oportunidades e a justiça social, só podem ser combatidas por um sistema econômico justo e um sistema jurídico que seja acessível a todos os cidadãos e impeça a erosão dos direitos humanos e a anulação da dignidade humana.

No entanto, qualquer sistema pode ser prejudicado, maltratado ou anulado se aqueles que o controlam não puder em ser contestados. Instituições que supostamente agiriam como vigilantes muitas vezes acabam por favorecer os abusos que deveriam evitar.

A articulação da discordância e do protesto é imperativa para os sistemas democráticos. Mesmo nas sociedades democráticas, quando se ensinam às crianças seus direitos e deveres, raramente se dá atenção a seu direito de discordar. A conformidade é um prêmio, e a discordância é desaprovada ou ignorada. O sujeito submisso, em vez do indivíduo autônomo, é considerado o cidadão ideal.

Em defesa do caso do indivíduo autônomo, não estou defendendo uma sociedade anárquica. Indivíduos autônomos não se estabelecem para destruir a sociedade; eles estão preocupados em mudá-la por meio de maneiras criativas. Eles não necessariamente fazem parte da estrutura do poder em si, mas comentam sobre isso e, se for necessário, protestam contra ações específicas tomadas pelos detentores do poder. Enquanto se aceitar que há espaço para a autoridade moral, bem como a autoridade política e social na gestão da sociedade, essas pessoas sempre terão um lugar no processo democrático.



ECA, 20 anos: avanços e desafios"- Fábio Ribas Jr.

Países com altos índices de pobreza e desigualdade só avançarão na direção do desenvolvimento sustentável (economicamente viável, ambientalmente equilibrado, socialmente justo) se incluírem efetivamente entre suas prioridades a garantia dos direitos e a melhoria da qualidade de vida dos setores mais vulneráveis da população – entre os quais despontam as crianças e adolescentes em situação de risco ou com direitos violados. No Brasil, uma condição fundamental para o avanço nessa direção foi criada em 1988, quando foram introduzidos na Constituição Federal avanços obtidos na ordem internacional em favor da infância e da juventude. O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) veio na sequência, em 1990, detalhando os direitos desse público (que constitui cerca de um terço da população brasileira) à saúde, educação de qualidade, proteção no trabalho, convivência familiar e comunitária saudável, liberdade e dignidade. Desde então o Estatuto vem promovendo a formação de uma nova mentalidade, baseada na visão das crianças e adolescentes como sujeitos de direitos e seres em processo de desenvolvimento, o que tem contribuído para o aprimoramento da atuação de inúmeras instituições e programas de atendimento. Ao longo da última década houve avanços no grau de informação e compreensão da sociedade sobre as violações dos direitos das crianças e adolescentes - trabalho ilegal, violência doméstica, evasão escolar, violência sexual, entre outros - e sobre as causas desses problemas. O aprimoramento das políticas públicas voltadas à promoção de condições para o fortalecimento, inclusão produtiva e autossustentação das famílias mais vulneráveis, vem sendo crescentemente reconhecido como fator crítico para a melhoria da qualidade de vida das crianças e adolescentes. Vem crescendo também a compreensão da sociedade sobre a necessidade de se prover condições para a garantia de direitos desde a tenra idade (atenção à saúde materno-infantil, educação infantil de qualidade) e do valor e impacto positivo de ações como essas para construção de uma sociedade mais equilibrada. Temas polêmicos como o envolvimento de adolescentes em atos infracionais vêm sendo discutidos com maior profundidade, o que abre caminho para progressos na estruturação de programas que ofereçam a esses adolescentes uma forma de atendimento baseada na plena observância dos direitos humanos e capaz de promover sua reintegração saudável na comunidade. No final de 2009 a nova lei de adoção trouxe aprimoramentos para a garantia do direito à convivência familiar previsto no ECA, ao determinar que crianças e adolescentes não podem permanecer mais de dois anos nas instituições de acolhimento e que sua situação seja reavaliada a cada seis meses, evitando assim o risco de uma institucionalização prolongada e prejudicial. Os Conselhos de Direitos, Conselhos Tutelares e Fundos da Criança e do Adolescente – instrumentos essenciais para a adequada gestão das políticas do setor – vêm se tornando progressivamente mais conhecidos pelo público em geral. Mais cidadãos e empresas têm procurado apoiar projetos de defesa e promoção dos direitos das crianças e jovens, por meio da participação direita em organizações ou programas de atendimento ou da destinação de recursos financeiros aos Fundos da Criança e do Adolescente.


1 Diretor Executivo da Prattein – Consultoria em Educação e Desenvolvimento Social.

A criação desses mecanismos de gestão (Conselhos e Fundos) foi um avanço trazido pelo Estatuto que abriu a possibilidade de participação mais ampla e efetiva da sociedade na formulação e controle das políticas do setor.

Contudo, todos esses avanços ainda podem ser considerados pequenos em face da magnitude dos problemas a enfrentar.

Ainda falta aos governos um melhor entendimento sobre a necessidade de fortalecimento dos Sistemas de Garantia de Direitos e das redes de atendimento e sobre a obrigação do Poder Executivo de dotar os Conselhos de Direitos e Conselhos Tutelares com condições adequadas ao seu pleno funcionamento.

Os governos precisam compreender que os Conselhos dos Direitos da Criança e do Adolescente são instâncias de gestão compartilhada de políticas públicas que em muito podem contribuir para melhorar a qualidade da aplicação dos recursos e a eficácia dos programas de atendimento. No plano do desenvolvimento político da sociedade, esses conselhos podem contribuir para o aprimoramento da democracia porque propiciam a ampliação da participação da sociedade na vida pública.

É preciso que os governos se abram à participação efetiva dos Conselhos de Direitos como órgãos gestores e apóiem sua estruturação e funcionamento. Por seu turno, os conselheiros precisam ser escolhidos com base em critérios de competência, espírito público e representatividade em relação aos interesses do conjunto da sociedade (que devem prevalecer sobre interesses específicos de partidos políticos ou entidades de atendimento). Só assim eles poderão exercer com plenitude os papéis fundamentais que o Estatuto lhes reservou.

Passados 20 anos da promulgação do Estatuto, a maioria dos Fundos dos Direitos da Criança e do Adolescente ainda conta com poucos recursos para implantar programas de atendimento. Não se pode fazer política social eficaz sem orçamentos consistentes. Os governos devem alocar recursos suficientes nos orçamentos públicos destinados às crianças e adolescentes. A ampliação da divulgação da existência dos Fundos e a mobilização da sociedade para doações e destinações é parte importante desse esforço.

No entanto, o emprego adequado dos recursos depende da existência de diagnósticos qualificados e periodicamente renovados sobre as necessidades a serem atendidas em cada localidade.

Este talvez seja o maior desafio dos próximos anos: a qualificação do processo de diagnóstico, planejamento técnico e orçamentário e monitoramento das políticas de garantia de direitos em cada município. A falta de diagnósticos qualificados faz com que muitos Conselhos de Direitos, Conselhos Tutelares, Orçamentos e Fundos para o atendimento de crianças e adolescentes ainda apresentem elevado grau de fragilidade e as políticas de proteção, prevenção e promoção de muitos municípios e Estados brasileiros ainda sejam incipientes.

Os Conselhos de Direitos precisam ser estimulados e apoiados em todo o país para que cumpram sua atribuição fundamental de propor programas prioritários de atendimento, fundamentados em diagnósticos precisos e transparentes. Somente assim os governos e a sociedade terão meios para aferir se as violações de direitos estão sendo reduzidas e eliminadas e se os preceitos do ECA estão sendo concretizados.

Este seria então um mote para os próximos 20 anos do ECA: fazer com que a afirmação dos direitos das crianças e adolescentes na consciência ética de um número crescente de cidadãos se desdobre em práticas de gestão pública, ação e participação social que garantam a efetivação desses direitos na vida cotidiana de cada cidade.

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

" Uma relação delicada: a escola e o adolescente"- Maria de Lourdes Trassi Teixeira

“O novo século elege a prioridade educativa como sua aliada na edificação de uma nova ordem social onde todos contam e cada um possa ser capacitado para participar ativamente num processo de desenvolvimento que recupera a centralidade da pessoa na sua mais plena e inviolável dignidade.” (Relatório da Comissão Internacional de Educação para o século XXI da UNESCO, p. 224)

O relatório O olhar da escola sobre o adolescente em conflito com a lei (1) aborda um aspecto delicado que condensa certa complexidade: a entrada e permanência na escola do adolescente autor de ato infracional, em cumprimento de medida socioeducativa.

As escolas, junto às quais o levantamento de dados ocorreu, se situam nas regiões de pobreza de cidades com diferentes perfis sócio-econômico-político-demográficos do estado de São Paulo e capturam com os seus educandos todos os fenômenos que vicejam ali: o desemprego, a ausências das políticas públicas, as diversas expressões da violência (não só a criminalidade!).

A pobreza, a fome, a violência, as drogas entram com os alunos nos estabelecimentos de ensino, quando até há pouco tempo ficavam de fora com as crianças e adolescentes não escolarizados. Esta é uma constatação do Relatório da UNESCO, elaborado pela Comissão Internacional de Educação para o século XXI (p. 154) (2).

A tendência mundial – em nosso país, também – à universalização da escolarização coloca inúmeros desafios a serem pensados por todos os setores da sociedade. São desafios éticos, políticos, técnicos e de orçamento. Estes desafios se revelam nestas escolas dos bairros pobres na falta de pessoal para atender os alunos (ausência de professores?), superlotação das salas, falta de espaço físico adequado, número excessivo de períodos escolares, diversidade de níveis de ensino, ausência de integração com a comunidade, questão salarial dos professores (3); em síntese, o desafio é superar a precariedade da qualidade do ensino que é oferecido a todos os adolescentes, educandos do sistema público de ensino.



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A busca de compreender as questões decorrentes da entrada e permanência do adolescente em cumprimento de medida socioeducativa na escola leva a considerar que a educação escolar é atravessada (e constituída) por processos históricos, culturais, econômicos, sociais, políticos, éticos e, também, psicológicos; e, na escola - uma agência social – identificamos todas as tensões, conflitos, antagonismos que constituem e estão difusos na convivência coletiva.

Na instituição escolar, circulam as mesmas representações sociais – idéias, sentimentos – e atitudes circulantes na sociedade sobre o adolescente e sobre aquele que é autor de ato infracional: tolerância, preconceito, compreensão, hostilidade, rejeição, medo, dó, pavor, compaixão, indiferença. Portanto, embora cause estranheza que a instituição destinada à formação das novas gerações não tenha, exclusivamente, uma disposição, a priori, acolhedora para com os adolescentes autores de ato infracional, isto não poderia ser diferente.

É relevante colocar como objeto de reflexão a relação da escola com este adolescente e as implicações disso para a sua vida, de sua família, da comunidade à qual pertence, com a finalidade de construir dispositivos que favoreçam o exercício do direito à educação deste adolescente cidadão, cuja biografia-identidade não é redutível à prática do ato infracional.

A recepção do adolescente e/ou sua família pela escola e a sustentação de sua permanência, os manejos administrativos, técnicos, pedagógicos deste adolescente indicam um modo de olhar, de escutá-lo, compreendê-lo, revela uma mentalidade. Aquela do antigo Código de Menores pautada na doutrina da situação irregular que estabelecia uma política assistencialista e repressiva para as crianças e adolescentes pobres; ou, a mentalidade do novo instrumento jurídico de garantia dos direitos à infância e adolescência pautada na doutrina da proteção integral – o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). As conseqüências do modo como ele é recebido e incentivado ou não a permanecer na escola pode desenhar o presente e o futuro deste adolescente e, também da comunidade à qual pertence.



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A adolescência como uma etapa intermediária entre a infância e a vida adulta adquire representação social e torna-se objeto de estudo a partir do final do século XVIII. Concebida como uma fase difícil do desenvolvimento humano, já surge como problema, quer no interior dos saberes que passam a esquadrinhar os seus aspectos físicos, psíquicos, sexuais e morais; quer como acontecimento perturbador do cotidiano das relações familiares e de convivência. A conceituação da adolescência é polêmica nas várias especialidades, inclusive na psicologia. Há, contudo, um consenso: a adolescência se inicia na puberdade, com as mudanças orgânicas que se revelam no corpo. Usando como referência este consenso, o ECA (Lei 8.069) estabelece as faixas etárias para definir juridicamente a infância (0 a 12 anos) e adolescência (12 a 18 anos).

“Na linha do tempo, a vida dos indivíduos é marcada por etapas, sejam elas sinalizadas pelo desenvolvimento biológico, por ritos sociais, por determinações de ordem objetiva, por tudo isto e muitas outras variáveis históricas ou circunstanciais conectadas. Quando nos referimos ao desenvolvimento endócrino do púbere não quer dizer que consideramos exclusivamente os aspectos orgânicos como definidores, mas que este é um fato inegável, comprovado e produz alterações importantes na vida do indivíduo. Claro que estas alterações poderão ser maximizadas ou minimizadas, em seus efeitos na conduta, dependendo dos ritos sociais que cercam esta passagem (por exemplo, o controle da conduta sexual) ou de aspectos singulares da biografia de um adolescente (por exemplo, a prática do ato infracional). Ou, ainda, uma determinada condição de vida objetiva. A pobreza, por exemplo, poderá implicar que este aspecto, o biológico, deixe de ser significativo porque, independente dele, o indivíduo deverá ingressar na vida adulta – o trabalho (4) – como provedor da renda familiar, uma função destinada aos adultos em nossa sociedade. Neste sentido, a adolescência como uma etapa da vida deve ser compreendida também como uma variante da condição social de classe (5). Outro consenso é que aspectos jurídicos, históricos, sociais, culturais, tecnológicos interferem, produzem adolescências...” (TRASSI, 2006).

Neste momento da sociedade contemporânea, há uma perplexidade, com matizes diferentes em vários lugares do mundo, na compreensão das novas condutas adolescentes (hábitos, linguagem, música, relações amorosas, uso da tecnologia – as culturas juvenis) marcadas por um padrão de ruptura mais radical, do que nas gerações anteriores, com os valores das gerações mais velhas, com os valores da tradição e da história.

E, há um paradoxo: os adolescentes são considerados agentes sociais autônomos, independente da tutela dos adultos porque bons consumidores (a propaganda os elegeu alvo preferencial do consumo) + são treinados para uma autonomia precoce (que, muitas vezes, confunde-se com desresponsabilização dos adultos, abandono) + busca-se o seu submetimento a um cenário social que as gerações mais velhas construíram + seu estilo de vida (padrão de consumo de bens culturais e materiais) tornou-se ícone (objeto de identificação) para parte das gerações mais velhas = uma equação enigmática mas cujos resultados já estamos vivendo.

Neste contexto complexo, agrega-se mais um aspecto, que circula no mundo todo: a associação adolescência/juventude – violência. No caso do Brasil, isto se revela na intensificação da criminalização dos adolescentes pobres: são perigosos ou potencialmente perigosos.

Neste sentido, a matrícula pelas mães dos adolescentes e a omissão de sua condição de cumprimento de uma medida socioeducativa pode ser compreendida como um indicador do temor que na escola também poderá se reproduzir a experiência de preconceito em relação a seus filhos, intensificado pela prática do ato infracional; e, portanto, não irá conseguir “a vaga”. Ao mesmo tempo, a fala dos gestores sobre esta omissão das mães parece indicar que colocam isto no mesmo lugar da transgressão dos filhos que estas mães protegem/”acobertam” e se sentem enganados.

Faz parte deste contexto inicial – a obtenção de vaga/matrícula – a referência dos gestores à matrícula por determínio judicial; ou seja, por pressão de uma ordem do poder judiciário. Nenhuma referência ao direito à educação – artigos 53 e 54 do ECA.

O cenário social favorece que, também na escola, os adolescentes (em geral) e os autores de ato infracional (em especial) sejam vistos, recebidos como aqueles que potencialmente poderão desestruturar, tumultuar o ambiente escolar já frágil em sua precária organização denunciando uma dificuldade que se refere a todos os adolescentes que inauguram um novo modo de ser, de se comportar. É necessário considerar isto: hoje, as dificuldades da escola (e da família, também!) se referem ao modo de lidar com a adolescência. E, com os adolescentes em medida socioeducativa as dificuldades ou perplexidades parecem ser maiores e mais perturbadoras: deve-se ou não revelar que o adolescente está em Liberdade Assistida (L.A.)?

O encobrimento de alguns gestores quanto a este aspecto da vida dos adolescentes – evitar que a informação de sua situação de liberdade assistida se espalhe na escola, sobretudo entre os alunos – parece referir-se a um cuidado com um acontecimento da história de vida do adolescente; ao mesmo tempo, está repetindo aquilo do que se queixam que as mães fazem quando intermediam o processo de matrícula e pode, também, indicar aspectos problemáticos. Por exemplo, a suposição do preconceito dos demais alunos e dos pais e aí podemos perguntar: a escola não é o lócus privilegiado para a expressão e elaboração desta dificuldade que obstaculiza a convivência coletiva? Ou, pode indicar o temor do contágio dos demais adolescentes pelos L.A.; ou, pode indicar o temor da liderança deste novo aluno (o L.A.) que faz a coisa errada e vira herói e pode mobilizar setores dos adolescentes; ou... Há uma tendência a construir ou manter um “segredo” sobre algo que o grupo-escola já sabe por que os adolescentes fazem parte da comunidade do entorno da escola. São raras as referências que esta é uma questão que deve ser tratada com transparência e franqueza; e, a ser acordada com o adolescente porque diz respeito a um acontecimento de sua biografia pessoal, de sua identidade em transformação.

O relatório da Unesco assinala em sua introdução (p. 22) “... uma das maiores dificuldades de qualquer reforma: as políticas a adotar em relação aos jovens e adolescentes que terminam o ensino primário. Políticas que cubram o período que decorre até a entrada na vida profissional ou no ensino superior”. Neste caso, a referência não se restringe aos aspectos comportamentais dos adolescentes e jovens, ao seu modo de se relacionar com o mundo, com o outro e consigo mesmo; mas, também, aos seus novos e desconhecidos interesses que tornam – para ele – a experiência escolar pouco atraente, útil, significativa e de difícil permanência, nestes tempos de produção contínua de conhecimentos e avanços tecnológicos ininterruptos. Portanto, a dificuldade de permanência na escola não é exclusividade do adolescente envolvido com a prática do delito. Ele revela, de modo mais contundente, o desinteresse por aquilo que a escola quer ensinar. E, isto é compreendido pelos gestores como característica do adolescente difícil e, com raras exceções, não ouvem, não problematizam – não se percebem implicados – o que eles falam, cantam, gritam, picham.

A tentativa de resolver os conflitos escolares pela construção do bode expiatório (um indivíduo/o L.A., um grupo) ou através de práticas disciplinares mais rígidas e autoritárias que usam inclusive a força policial não tem se mostrado eficiente; pelo contrário, vai produzindo aquilo que mais se teme o fracasso da autoridade, o risco de perdermos o adolescente (6).

A escola, com freqüência cada vez maior, prepara-se para receber seus educandos tornando-se uma “escola blindada”, ou uma “escola caserna”: muros altos, grades, cadeados, vigias, ronda escolar em um ambiente, muitas vezes, fisicamente deteriorado, sem biblioteca, sem equipamentos tecnológicos, sem área de lazer e, às vezes, sem ventilação adequada, sem água e sem professor ou com professores que são a primeira força contrária a recebê-los... querem que a escola seja elitizada(!). É uma recepção e permanência expulsiva que, no caso do adolescente autor de ato infracional, começa a se revelar na resposta, bastante significativa, que eles conseguem vaga por pressão judiciária. Ou seja, não deveriam estar ali. E, quando estão suscitam medo.

Medo é uma palavra recorrente no relatório O olhar da escola sobre o adolescente em conflito com a lei. E, o medo – em casos extremos, o pavor – está associado a: insegurança com sua chegada à escola, resistência dos professores em trabalhar com esses alunos, atitudes de rejeição, situações de confronto, comportamento cauteloso, professores intimidados por esses alunos. Neste contexto de fragilidade das relações é pertinente perguntar: como é possível ensinar, com medo? É possível aprender nesta relação invertida de poder? Há também a referência a relações tranqüilas marcadas pela aceitação, expressas em uma convivência harmoniosa e compreensiva. E, aí é possível pensar que o vínculo educador-educando pode se construir de modo significativo; uma condição necessária para que o exercício de aprender a aprender, aprender a ser, aprender a fazer, aprender a conviver – metas da educação neste século XXI – seja possível.

O relatório O olhar da escola sobre o adolescente em conflito com a lei, que a escola integrada à comunidade local, com um bom diagnóstico da realidade, se transforma em um espaço de convivência e busca, em conjunto, as soluções das dificuldades urgentes (o lixo, o barraco que caiu) ou crônicas (a ausência de lazer) desta comunidade e indicam resultados bem sucedidos; ou seja, as reclamações sobre os adolescentes e sobre a omissão de suas famílias diminuem.


A pesquisadora Áurea M. Guimarães,no livro Vigilância, Punição e Depredação,relata a pesquisa realizada em escolas públicas da cidade de Campinas (SP) onde ocorria depredação dos equipamentos e prédios escolares e concluiu que esta era uma forma de contestação à vigilância e à punição instaladas na escola. A depredação distinguia os bons e os maus alunos: aquele que depredava era considerado “marginal” (7). Nas palavras da autora: “Esse procedimento (atribuição da identidade de marginal) impedia que a depredação resultasse em formas mais amplas de manifestação e que os alunos radicalizassem suas críticas à escola, pois eles mesmos (os alunos) acabavam associando depredação à “marginalidade”. Muitos até se culpavam por suas reações, não percebendo que a violência primeira partia da própria escola e que a depredação expressava tanto uma forma de contestação, como uma maneira que a administração encontrava para neutralizar as ações que visassem críticas à escola” (p. 2).

Posteriormente volta a pesquisar o tema da violência na escola (8) e dá pistas para compreender um aspecto também assinalado nos dados apresentados no relatório do Instituto Fonte – a ambigüidade do fenômeno da violência e a ambigüidade (9) / dificuldades dos gestores e professores das escolas em reconhecer suas ações expulsivas, repressivas e desencadeadoras da própria violência (aquilo do que se queixam). Ou seja, o discurso da aceitação e da vitimização (pena, dó, uma situação infeliz) do adolescente coexiste com o medo e a insegurança frente a ele. E a autora aponta a possibilidade de compreender as ações, às vezes brutais dos adolescentes, como resistência – no cotidiano – à tentativa de homogeneização das normas institucionais ou como revelação de algo que a “escola fez” a ele (a suspensão, o não aprender, a humilhação) ou como exercício da contestação, como insubmissão, disputa de autoridade, como afirmação da identidade pela liderança dos pares mesmo em situações destrutivas. Neste sentido, é ilustrativo o dado do menino que conta para a professora que carrega o revólver para ter status... as meninas valorizam(!).

Esta situação compreendida exclusivamente na sua aparência de destrutividade, desordem leva muitos diretores a negar a vaga e só aceitar o adolescente autor de ato infracional com determinação judicial, ou com a intervenção do conselho tutelar ou com intensa negociação das entidades executoras de medida socioeducativa de meio aberto (no caso, Liberdade Assistida e Prestação de Serviços à comunidade). Alguns gestores atribuem esta dificuldade em “dar a vaga” aos apelos da comunidade escolar (pais, professores); outros atribuem a experiências anteriores mal-sucedidas com adolescentes em medidas socioeducativas; e, outros à precariedade da escola (ausência ou faltas de professor, ausência de policial fixo na escola). Esta situação vai configurando um ambiente hostil. E, a isto o adolescente reage também com hostilidade, brutalidade, em uma franca disputa de liderança em que perdem todos.

Nesta história real, a relação professor – aluno / educador – educando constitui aspecto central. É constante nos estudos sobre o tema a afirmação “a relação estabelecida entre professor e aluno constitui o cerne do processo pedagógico”. Um exemplo radical é a fala do professor que “fechando a minha porta, eu faço o que quiser”. E, o que acontece pode ser, no caso, uma experiência de encantamento (bem-sucedida) com o grupo de alunos difíceis, a relação pedagógica sustentada no vínculo entre educador e educando possibilitando o desenvolvimento do aluno em todos os seus aspectos (emocional, intelectual e social); ou, uma experiência de violência.

O saber pode evidentemente adquirir-se de diversas maneiras e o ensino à distância ou a utilização das novas tecnologias, no contexto escolar, têm-se revelado eficazes. Nas escolas pesquisadas, os gestores referem-se, com freqüência ao ensino supletivo como alternativa para estes adolescentes. Mas, para quase todos os alunos, em especial para os que não dominam ainda os processos de reflexão e de aprendizagem (os multirrepetentes, os que retornam após longo período fora da escola) o professor continua indispensável.

A grande força dos professores reside no exemplo que dão, manifestando sua curiosidade, reconhecendo os próprios erros, desenvolvendo no educando a revolucionária capacidade de pensar sobre o outro, sobre o mundo, sobre si mesmo. O Relatório da Unesco enfatiza a necessidade de o ensino contribuir para a formação da capacidade de discernimento e do sentido das responsabilidades individuais; nas sociedades modernas, o aluno necessita ser capaz de adaptar-se às mudanças, continuando a aprender ao longo da vida. O trabalho e o diálogo com o professor ajudam a desenvolver o senso crítico do aluno. E, a condição para que tudo isto ocorra é a existência de um vínculo significativo entre ambos. Ou, na linguagem de Rubem Alves, é necessário um vínculo amoroso.

E, como realizar isto se o professor tem medo do seu aluno, cria estratégias para que ele desista, ou constrói uma profecia do fracasso cujas conseqüências irão se desdobrar ao longo de sua vida?

A experiência do fracasso ou a sua profecia (profecia auto-realizadora) leva a criança/adolescente a definir para si uma expectativa de sucesso muito baixa e baixo nível de aspiração o que vai implicar em baixa auto-estima e, de novo, começamos a perder o nosso adolescente que agora disputamos também com o crime organizado que oferece a ele, trabalho, dinheiro e uma arma – ícones de identidade. Ele, finalmente, se sente reconhecido, valorizado, mas, não sabe que seqüestraram seu futuro.

Neste aspecto, é importante reconhecer nos dados da pesquisa que os professores, gestores que conseguem se aproximar do adolescente e ver nele, habilidades, capacidades, inicia um percurso, às vezes longo, de resgate de mais um. Nenhuma a menos.

Edward Ziegler em suas pesquisas, já na década de 60 do século XX, sobre o fracasso escolar, concluía que a preocupação da escola com o desenvolvimento intelectual da criança/adolescente deve ser ampliado e incluir o desenvolvimento social e emocional. A criança ou adolescente, com histórico de privação de afeto e atenção de adultos significativos, têm, nos anos posteriores, uma necessidade atipicamente alta de atenção e afeto. Frente a tarefas cognitivas, não parecem motivadas a resolver os problemas intelectuais que enfrentam; mas, ao contrário, empregam suas interações com os adultos (no caso, os professores) para satisfazer a necessidade de afeto, atenção. Se o professor estiver sintonizado apenas com os aspectos cognitivos pode deduzir dificuldades que não são reais; por outro lado, se tiver uma compreensão global do educando pode concluir que o que está interferindo são fatores emocionais que se supridos com uma interação positiva (o vínculo amoroso) poderia se surpreender com os progressos da criança adolescente. Outro aspecto relevante apontado por Ziegler é que as crianças que viveram privações afetivas têm uma alta motivação para interagir com os adultos e, ao mesmo tempo, são excessivamente cautelosas porque vêem os adultos como potencialmente punitivos, os temem e acabam reagindo negativamente embora queiram muito a resposta positiva de aceitação, expressão afetiva do adulto (o professor).

A este último aspecto, no caso dos adolescentes autores de ato infracional, se soma: experiências concretas de punições excessivas ou vivências de violência (violência intrafamiliar, violência na escola, violência policial) em sua história anterior ao ato infracional; ou mesmo, de excessos posteriores à sua apreensão (violência nas delegacias de polícia, no sistema de internamento provisório ou da medida sócio educativa de privação de liberdade que, com maior freqüência, tem antecedido a medida de L.A.).

A entrada na escola de alunos com grandes dificuldades no ambiente social (não só familiar!) impõem novas tarefas aos professores para as quais eles não estão, muitas vezes, suficientemente preparados. Os vários estudiosos da área elencam, além das dificuldades que degradam a condição de trabalho do professor – recrutamento em massa de professores, ausência de solidariedade entre eles, a falta de recursos financeiros e pedagógicos, a superlotação das salas –, a ausência de formação inicial ou contínua dos professores que, segundo o Relatório da UNESCO “a finalidade principal... é desenvolver neles as qualidades de ordem ética, intelectual e afetiva que a sociedade espera deles de modo a poderem em seguida cultivar nos seus alunos o mesmo leque de qualidade.” (p. 162)



* * *

Eric Hobsbawm, historiador inglês, em sua obra A Era dos Extremos - O breve século XX, afirma, referindo–se ao século XXI, “não temos o mapa do futuro”. Este século enfrenta o seu maior desafio: o da reconstrução das comunidades humanas. Há muitos sinais de intolerância... A solidariedade (com o outro próximo e o outro anônimo) e o novo espírito comunitário (para além das fronteiras geográficas) podem se constituir em princípios organizadores de vida, como alternativa ao risco de dissociação dos vínculos sociais. Nesta perspectiva, as agências primárias de socialização como a família e a escola são convocadas a reassumir o seu papel na formação das novas e futuras gerações. E, “... a escola, independentemente de seu estatuto específico – privado, cooperativo ou governamental –, é tipicamente uma esfera de ação pública como ambiente e lócus de socialização... Em sociedades cada vez mais complexas e multiculturais, a emergência da escola como esfera pública acentua sua relevância insubstituível na promoção da coesão social, da mobilidade humana e da aprendizagem da vida em comunidade”. (Relatório da UNESCO, p. 222-223).

E, então, nenhum desperdício de vidas.


Notas



1 - Realizado pelo Instituto Fonte para o desenvolvimento social, sob a coordenação de Daniel Brandão, refere-se ao levantamento de dados junto aos gestores de escolas públicas estaduais e municipais das cidades de Campinas (sete escolas), Guarujá (sete escolas) e Guarulhos (cinco escolas) com a finalidade de investigar “Qual o olhar das escolas sobre o adolescente (aluno) que cumpre/cumpriu medida socioeducativa ?”


2 - As escolas que atendem grupos e setores sociais que não vivem a condição da pobreza, da fome assinalam a presença das drogas e da violência na escola, no Brasil e em muitos lugares do mundo.


3 - A reprodução de trechos do relatório O olhar da escola sobre o adolescente em conflito com a lei, do Instituto Fonte, estará discriminada no corpo do texto com letras em itálico.


4 - É recorrente no relatório, a referência ao trabalho como alternativa necessária à integração social para esses adolescentes; é importante considerar que esta não é uma expectativa social para os adolescentes não pobres.


5 - O pesquisador Sergio Adorno em seu estudo sobre o adolescente e a criminalidade na cidade de São Paulo afirma que as diferenças mais relevantes são entre adolescentes de diferentes classes sociais e não entre adolescentes infratores e não infratores de uma mesma classe social.


6 - Em 1984, na Unidade Terapêutica (os pequenos entre os menores) da Febem-sp, foi possível constatar, empiricamente, que a saída da escola (pela evasão ou expulsão) era um momento decisivo na vida do menino. A permanência na escola, mesmo que problemática e difícil, mostrava que ele ainda não tinha “escolhido” a prática de ato infracional como trajetória pessoal. A saída da escola era um indicador de sua “escolha”.


7 - A palavra “marginal” tem duas conotações: 1) equivalente a bandido, malfeitor; 2) à margem, aquilo ou aquele que está fora. Nas décadas de 60 e 70 proliferaram teorias sobre a marginalidade social como uma tentativa de compreender o fenômeno da pobreza e sua inserção no mundo urbano industrial; para isto ver o livro de Janice Perlman, O mito da marginalidade. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1977.

8 - Publicada no livro A Dinâmica da Violência Escolar – conflito e ambigüidade, de Áurea M. Guimarães. Campinas: Editora Autores Associados, 1996.


9 - Segundo Marilena Chauí (1987), “ambigüidade não é falha, defeito, carência de um estado que seria rigoroso se fosse unívoco”. É uma condição do humano.



Referências Bibliográficas

ADORNO, Sergio e outros. O adolescente na criminalidade urbana em São Paulo . Brasília : Ministério da Justiça, Secretaria dos Direitos Humanos, 1999.

CHAUÍ, Marilena. O que é ser educador hoje? Da arte à ciência: a morte do educador. IN: Brandão, Carlos R. (org.). O Educador: vida e morte. Ed. Graal, 1982.

CHAUÍ, Marilena. Conformismo e Resistência: Aspectos da cultura popular no Brasil. São Paulo: Brasiliense, 1987.

DELORS, Jacques e outros. Relatório para a UNESCO da Comissão Internacional sobre Educação para o século XXI. São Paulo: Cortez / MEC / UNESCO, 2006, 10ª edição.

GUIMARÃES, Áurea M. Vigilância, Punição e Depredação. 1985.

GUIMARÃES, Áurea M. A dinâmica da violência escolar – conflito e ambigüidade. Campinas (SP): Edit. Autores associados, 1996.

HOBSBAWM, Eric. A era dos extremos - O breve século XX. São Paulo: Cia das Letras, 1995.

INSTITUTO FONTE. Relatório “O olhar da escola sobre o jovem em conflito com a lei - Guarujá, Guarulhos e Campinas” (mimeografado). 2007.

TRASSI, Maria de Lourdes. Adolescência Violência – desperdício de vidas. São Paulo: Cortez, 2006.

VANNUCHI, Paulo e Novaes, Regina (orgs.). Juventude e sociedade – trabalho, educação, cultura e participação. São Paulo: ed. Perseu Abramo, 2004.

ZIGLER, Edward. A mística ambiental: treinamento do intelecto versus desenvolvimento da criança. IN: Souza Patto, M.H Introdução à Psicologia do Escolar. São Paulo: T.A. Queiroz, 1981.





* Maria de Lourdes Trassi Teixeira é psicanalista, doutora pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) na área de adolescência e violência, e conselheira da Fundação Abrinq pelos Direitos da Criança e do Adolescente.

sábado, 25 de setembro de 2010

" Estas Mãos Inquietas" Antonio Carlos Villaça

ESTAS MÃOS INQUIETAS…



Antonio Carlos Villaça

Servir foi teu destino.
Se descobres uma pequena mancha,
ou um botão ausente,
logo te levantas,
com tuas mãos inquietas,
disposta a servir.


Serviste longamente.
Teu destino foi servir.
Queres limpar os sapatos,
queres costurar as roupas,
queres lavar o que está sujo,
as meias,
os corações.


Caminhas pelo mundo como um anjo.
Nasceste para ajudar
Com que delicadeza,
com que pressa,
te levantas e te debruças,
ó infatigável enfermeira,
ó ser misericordioso e humilde.


És tão prestativa,
tão solícita,
tão serena em meio a todos os pesares,
tão fiel a ti mesma, a teu destino.


Tens o gosto do próximo,
do pobre,
do sofrimento que ninguém viu
e tu vês, tu descobres,
ó humana criatura.


Como um anjo serviste.
Insaciável, tu prossegues.
Tens a vocação do serviço –
- a pequena mancha,
o botão caído,
o sapato a engraxar ou a limpar,
a cotidiana tarefa, que ninguém percebe,
tu cumpres tudo isso,
como um ritual secreto,
que é a vida de tua vida,
a essência de ti mesma,
a verdade do teu destino,
leve,
gracioso,
………..verdade nítida.


.


(Poema inédito, 11-09-1968)
 
 
Fonte:http://claudioulpiano.org.br.s87743.gridserver.com/?p=3813

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

" Você quer o que deseja"? Jorge Forbes

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" O cérebro e as novas subjetividades no mundo contemporâneo"


No desfile de carnaval de 2009, no Rio de Janeiro, a escola de samba Porto da Pedra trouxe uma inusitada comissão de frente: uma coreografia em que neurônios produziam sinapses na avenida.

Neurônios. Neurociência. Neurocultura. Neuroarte. O prefixo “neuro” parece se espalhar por todos os lados e lugares porque o cérebro, agora, é o órgão do corpo humano que se tornou o centro das atenções. Se, como detetives, nos propuséssemos a seguir os rastros e pistas da presença do cérebro no mundo contemporâneo, teríamos que circular para além da ciência: pela cultura pop dos desenhos animados, por filmes, peças de teatro, literatura, publicidade, programas de TV, revistas, jornais, internet.

Alguns especialistas, inclusive, já falam na constituição de um “sujeito cerebral” e de uma “neurocultura”. Da esquizofrenia à depressão, passando por doenças neurodegenerativas (que implicam na perda progressiva de neurônios) como Parkinson e Alzheimer; emoções, sensações e sentimentos como medo, ansiedade, paixão; comportamentos e diferenças sexuais; violência e criminalidade; e até mesmo a fé - tudo isso vem sendo relacionado ao funcionamento do cérebro.

Se para alguns as neurociências ajudam a desestigmatizar comportamentos e doenças, ao comprovar que elas são condições do cérebro, para outros, estaríamos diante do risco de um novo tipo de determinismo: o cerebral. O cérebro teria roubado o lugar do DNA enquanto a essência que nos definiria como seres humanos. Assim, compreender seu funcionamento implicaria em conhecer a nós mesmos.

São muitas as implicações em se considerar que os seres humanos são seus cérebros. Se a vida humana depende do funcionamento cerebral, questões complicadas como a origem e o fim da vida e polêmicas a ela relacionadas (como aborto e eutanásia) vêm à tona. “E diante da ausência de respostas, jogamos essas questões para os especialistas, como os bioéticos”, disse Benilton Bezerra Jr., ao discutir, no Café Filosófico da CPFL Cultura, as novas configurações da subjetivação nesse cenário, marcado pelo borramento de fronteiras entre mente e corpo, natural e artificial, vida e morte, normal e patológico.

Em vez de doença mental... Neurodiversidade

Dificuldades de comunicação. Isolamento. Silêncio. Imobilidade. Solidão. São muitas as palavras usadas para descrever a condição do autista. “A maior parte do tempo eu me sinto como um antropólogo em Marte”, disse Temple Grandim a Oliver Sachs, no conhecido livro em que também conta sobre a criação de uma máquina que lhe permite controlar a intensidade do abraço: ser abraçada costumava lhe provocar uma sensação opressiva por conta de sua sensibilidade ao toque.

Temple Grandin foi a principal inspiração para a peça Máquina de abraçar do dramaturgo espanhol José Sanchis Sinisterra (montada recentemente no Brasil pela atriz e diretora Malu Galli). E também do filme produzido pela HBO que recebeu o maior número de Emmys de 2010, nessa premiação da televisão americana. Vivida pela atriz Claire Daines, “Temple Grandim” conta, em forma de biografia, sua trajetória enquanto engenheira e cientista especialista em comportamento animal.

Temple Grandim é uma das principais ativistas do chamado movimento da neurodiversidade. O termo foi criado pela socióloga australiana Judy Singer para propor uma nova – e polêmica – percepção das até então denominadas “doenças mentais”: elas agora devem ser tomadas enquanto conexões neurológicas atípicas (“neurodivergentes”) e assim, segundo o movimento, ser tratadas apenas como diferenças humanas, e não como patologias. Os protagonistas desse movimento político são os chamados autistas de alto desempenho, muitos deles portadores da síndrome de Asperger.

Se a neurodiversidade é uma doença, a “neurotipicidade” também o é, argumentam os adeptos do movimento, como se pode observar no irônico site do Institute for the Study of Neurologically Typical. Ao brincar com a idéia de se diagnosticar ou curar a normalidade, seu objetivo é contestar o argumento pró-cura presente em muitas associações (principalmente as de pais de filhos autistas e profissionais da área).

A origem e o fortalecimento do movimento estão relacionados a outros movimentos sociais. O feminismo foi importante para as mães questionarem o modelo psicanalítico, até então dominante, de explicação do autismo e que culpabiliza os pais pelo seu desenvolvimento. A criação de grupos de pais de autistas provocou uma diminuição da participação dos médicos como mediadores nas relações entre familiares, diminuição que também acabou estimulando a interação entre autistas. O crescimento de movimentos políticos de deficientes (especialmente, de surdos), incentivou a criação de uma “identidade autista”, característica do movimento.

A internet foi fundamental em todo esse processo, permitindo a comunicação direta entre autistas. Sites, blogs e chats são utilizados pelos Aspies para trocar experiências, fazer amizades ou até mesmo encontrar futuros cônjuges. Alguns ativistas chegam a defender a ideia de que o autismo é uma cultura, na medida em que se constitui como uma experiência singular, um jeito de ser e de estar no mundo. Não se trata, portanto, de “ter” autismo, mas de “ser” autista.

Essa ideia norteia o vídeo In my language, da ativista Amanda Baggs. A primeira parte é um registro de Baggs do modo específico com que os autistas interagem com o mundo; a segunda parte, uma tradução (através de um programa de computador) para os “neurotípicos”: “Só quando eu digito alguma coisa na sua linguagem é que você se refere a mim como tendo capacidade de comunicação”, diz Baggs. “Sinceramente, eu gostaria de saber como muitas pessoas, se me encontrassem na rua, iriam acreditar que escrevi tudo isso. A propósito, eu acho interessante que a minha falha no uso da sua língua seja considerada como um déficit, mas a sua falha em aprender a minha seja vista como uma coisa natural”.

A celebração do autismo como uma diferença é polêmica. A principal acusação feita ao movimento da neurodiversidade é a de que ele é formado apenas por autistas de alta performance ou portadores da síndrome de Asperger (como o pianista Glenn Gould, cuja história de vida se tornou mais conhecida através do filme Shine). Os portadores da síndrome são definidos, de modo geral, como pessoas muito inteligentes, com boa memória e que têm fixação por assuntos específicos. Essas características são acompanhadas pela dificuldade na expressão (e não ausência) de emoções e sentimentos, o que muitas vezes resulta em dificuldades de relacionamento social e isolamento. Ou seja, os portadores da síndrome de Asperger correspondem ao estereótipo da genialidade. Não é à toa que o transtorno é comumente chamado de “síndrome do gênio”.

O escritor inglês Nick Hornby revela desconforto com essa imagem estereotipada em algumas resenhas literárias que escreveu (e que estão reunidas no livro Frenesi Polissilábico). Hornby tem um filho autista e, por isso, recebe muitos livros sobre o assunto. Confessa que raramente se interessa por eles já que as editoras gostam somente das histórias dos autistas com talentos especiais – estilo Rain Man.

A exceção destacada por Hornby seria o livro George and Sam – Autism in the Family, de Charlotte Moore. Mãe de três filhos – dois deles autistas – ela narra com extremo bom humor seu cotidiano com as crianças, marcado por suas “obsessões”. George, por exemplo, tenta convencer a todos de que ele não precisa se alimentar. Por isso só come quando ninguém está olhando, e sua mãe, todos os dias, tem que esconder seu lanche da escola nas roupas de natação.

Episódios que nem um escritor de ficção seria capaz de inventar e que se tornariam, nas palavras de Hornby, “charmosos em sua estranheza” e com os quais pais de filhos autistas estariam acostumados a lidar. “Não quero dar a impressão de que viver com um filho autista é sempre divertido. Se o seu filho for do tipo bem comum, eu não aconselharia, de jeito nenhum, que o trocasse (a maioria dos casos de autismo ocorre entre meninos) por uma criança com uma obsessão hilária. Espero nem precisar acrescentar aqui que tem umas coisas que... bem, para não entrar em detalhes, não são nada hilárias. Estou simplesmente colocando, como Moore, que se você tiver interesse ainda que remoto pela esquisitice, variedade e beleza da humanidade, então o autismo traz muito a se admirar”.

Esse humor sugere um tipo de aceitação do autismo talvez um pouco diferente da postura dos pais que se empenham em buscar a cura para seus filhos. A cura talvez seja o elemento mais controverso e que separa o movimento da neurodiversidade das associações de pais. Fernando Ortega, professor do Instituto de Medicina Social da UERJ, destaca, num artigo sobre o assunto, a divisão existente entre as associações pró-cura do autismo e os ativistas autistas: entre os que o consideram um transtorno cerebral e aqueles que o defendem como um jeito diferente de ser; entre os que o definem como uma doença e os que o tomam como uma diferença; entre os que não o reconhecem como uma possível identidade e os que falam num “ser autista”.

Para os ativistas do movimento da neurodiversidade, o autismo não é uma doença mental, mas um transtorno cerebral. No movimento pró-cura também prevalecem as explicações orgânicas, cerebrais, em detrimento da psicanálise e da psicologia. Ou seja, apesar de suas divergências, os dois grupos compartilham, segundo Ortega, um cerebralismo e fisicalismo na explicação das causas do autismo, em detrimento das explicações psicanalíticas, mais “mentais”. O entendimento desses movimentos passaria, assim, por uma reflexão sobre a importância que as neurociências adquiriram no mundo hoje.

O self e o cérebro

O movimento da neurodiversidade pode ser descrito como uma forma de “biossociabilidade”, termo criado pelo antropólogo Paul Rabinow a partir do movimento político que reuniu, à época do Projeto Genoma Humano, pacientes e familiares de portadores de distrofia muscular e cientistas na França, nos anos 1990.

Para ele, uma marca da contemporaneidade seria a criação de grupos de interesse não mais pautados unicamente por critérios como idade, classe, “raça” ou posição social, mas também – ou cada vez mais – a partir de elementos envolvendo concepções de saúde e doenças específicas. “O que cabe ressaltar, todavia, é que, cada vez mais, novas formas de organização coletiva têm surgido, conjugando diferentes atores, interesses, temporalidades, ou mesmo espacialidades, dentro de um novo modo de existência em que a vida se encontra no centro de nossas preocupações”, escreve o antropólogo em French DNA: Trouble in Purgatory (1999).

Juntamente com essa nova configuração da sociabilidade, estaríamos também diante da criação de novos modos de subjetivação marcados, principalmente, pelo predomínio do corpo percebido como organismo, em detrimento de um “eu” percebido como interioridade, o que tem levado muitos especialistas, como Rossano Lima Cabral, a falar em bioidentidades.

A neurociência seria mais um indício da prevalência desse fisicalismo no mundo contemporâneo. O antropólogo Rogério Azize lembra que, na relação entre mente e cérebro, estaríamos diante de uma nova hierarquia: a mente seria tomada como uma espécie de epifenômeno do cérebro. Não se trataria do fim do dualismo corpo/mente, característico da modernidade e da cultura ocidental, pelo menos desde Descartes... Mas da submissão da mente ao físico, ao orgânico, ao corpo: ao cérebro. Essa concepção materialista da mente – característica da neurociência – concorre, hoje, principalmente, com a psicanálise.


Psicanálise e neurociências: mente versus cérebro?

“Não existe embate entre neurociência e psicanálise. São dois mundos à parte, totalmente paralelos. A psicanálise não depende de neurociência e vice-versa. São dois sistemas que tem vida própria. O que a gente vê hoje são psicanalistas que têm um interesse, perfeitamente razoável e compreensível, de buscar na neurociência conhecer as bases, fundamentos para as ideias que Freud defendia. O mais importante de tudo é que Freud não era neurocientista – nem poderia ser, porque não existia neurociência na época –, ele propôs o que podia propor baseado em observação de comportamento”, lembra Suzana Herculano-Houzel, neurocientista do Instituto de Ciências Biomédicas da UFRJ.

Há também neurocientistas investindo em pesquisas para comprovar – pela neurociência – algumas teses da psicanálise, principalmente através do uso de tecnologias de visualização do cérebro, como a ressonância magnética e a tomografia computadorizada A aposta – diante da histórica polêmica sobre a cientificidade da psicanálise – é que Freud tecia teorias corretas; seu problema seria a ausência de tecnologia para comprová-las cientificamente.

O trabalho de Sidarta Ribeiro, neurocientista do Instituto de Neurociências de Natal, segue nessa direção. Através de ressonância magnética, Sidarta observou que a repressão de memórias indesejáveis – o chamado recalque – acontece com a desativação intencional de regiões cerebrais ligadas às emoções e à memória. E pacientes com lesões nos circuitos neurais movidos pela dopamina – um neurotransmissor ligado ao prazer e à frustração – tem sono profundo (REM) sem sonhar, o que sugeriria que Freud estava certo ao ver no desejo aquilo que ativa o sonho.

A partir desse cenário poderíamos falar num determinismo cerebral? “Não há risco nenhum de determinismo, desde que se reconheça que a influência social do comportamento é real e se dá justamente porque o cérebro é capaz de mudar conforme a vida da gente, conforme a educação, os valores, o aprendizado”, afirma Suzana Herculano-Houzel. Ela é enfática: “A base que precisa ser reconhecida sem medos é que o que a gente faz depende do que o cérebro da gente é e de como ele funciona. Não tem escapatória. Isso não quer dizer de forma alguma que nós somos apenas o resultado dos nossos genes; a gente é biologia, o que a gente pensa, o que a gente faz, o que a gente é, mas não genética apenas. É uma conjunção de vários fatores, fatores sociais e individuais mesmo, justamente porque eles são capazes de modificar o cérebro da gente”.

Mas isso quer dizer, então, que o cérebro é a nossa essência? É o que nos define enquanto seres humanos? “Essa é hipótese de trabalho mais fundamental da neurociência. O que a gente faz, o que a gente pensa, o que a gente é, o que a gente sente é como é porque temos um cérebro do jeito que temos”, diz Suzana. Seu trabalho na área de divulgação científica é tido como referência para um novo formato na abordagem das neurociências: atividades e comportamentos da vida cotidiana sendo explicados a partir do funcionamento do cérebro.

A proposta de seu site O Cérebro nosso de cada dia é mostrar como os conhecimentos das neurociências podem ser aplicados no dia-a-dia: há sugestões de exercícios para o cérebro – para combater o stress ou incrementar a memória; seus livros – como Fique de bem com seu cérebro – também trazem dicas ou passos para se ter uma vida mais saudável.

O trabalho de divulgação científica de Suzana já foi questionado pela sua aproximação com a auto-ajuda. “Para mim, a razão de ser da divulgação científica é que as pessoas possam usar, para si, as descobertas da ciência. O que gente descobre não é domínio e exclusividade do laboratório. As descobertas da ciência pertencem à humanidade e nada melhor do que as pessoas, inclusive, poderem usar essas informações para terem uma vida melhor, para o seu desenvolvimento pessoal. Então se o que faço é auto-ajuda, acho isso maravilhoso porque é o que a auto-ajuda deveria ser, que é justamente a oferta de informações – e se elas são científicas tanto melhor porque vem de fonte segura ou pelo menos estudada, investigada de várias formas, e se elas ficam disponíveis para as pessoas usarem nas suas vidas, se entenderem melhor, terem uma vida melhor”, diz Suzana.


O poder e a vida

Mas o que seria uma vida melhor? Uma vida com qualidade, quando se fala tanto em “qualidade de vida”? Uma vida digna? Como definir o que é uma vida digna de ser vivida?

O avanço das novas tecnologias reprodutivas e dos testes pré-natais colocam a possibilidade de se “selecionar” os filhos que se quer ter, escolha que pode se aproximar, perigosamente, da eugenia. Debates sobre a descriminalização do aborto, eutanásia, uso de células-tronco, morte cerebral. Esse conjunto de indagações – e suas sérias implicações morais, filosóficas, sociais, políticas – nos conduzem para a grande questão sobre a qual boa parte dos filósofos do século XX (e, agora, do XXI), tem se ocupado: a relação entre a vida e o poder.

Uma figura intermediária entre a vida e a morte: o sobrevivente. O poder, hoje, produziria sobreviventes: seres humanos reduzidos à uma sobrevida meramente biológica. Essa é a tese de Giorgio Agamben, filósofo italiano que tem se debruçado sobre a configuração desse biopoder contemporâneo e, assim, atualizado o trabalho de Michel Foucault.

Foi Foucault quem cunhou o termo biopoder, para se referir aos mecanismos de gestão da vida. O poder soberano dispunha da vida de seus súditos, cabendo a ele tanto a prerrogativa de matar aqueles que o ameaçassem, quanto a decisão sobre quais deixar viver. A biopolítica, por sua vez, quer otimizar a vida: quer fazer viver, cuidar da “população”, da “espécie”, da vida em sua dimensão biológica, principalmente.

Para Agamben, o biopoder, hoje, não quer nem fazer viver, nem morrer, mas sobreviver. A sobrevida seria, assim, a vida reduzida ao corpo orgânico, despida de tudo: vida nua. Bioidentidade que reduz a subjetividade ao corpo e nos coloca diante de uma nova ascese: a imposição da adequação do corpo aos modelos de saúde, longevidade, equilíbrio, beleza, boa forma e juventude veiculados pelo mercado, pelo Estado, pela ciência, pela mídia.

Estaríamos valorizando uma vida nua (zoé) em detrimento de uma vida qualificada (bios), distinção de Agamben que nos fazem lembrar de Walter Benjamim e suas noções de vivência e de experiência: a necessidade de investir as vivências cotidianas de sentido, de narrá-las para si mesmo e para os outros, produzir significações e ressignificações sobre o que vivemos ao longo do tempo. Perceber a vida de uma outra forma, num outro tempo que não seja o da pura aceleração. Ou que não seja, meramente, a busca da sobrevivência. O desafio dessa transformação é o que está em jogo hoje.

Joel Birman, psiquiatra e psicanalista, afirma, em Arquivos do mal-estar e da resistência (2006) que o mal-estar na atualidade aparece nas três categorias recorrentes nos relatos clínicos colhidos pelos psicanalistas: corpo, ação e sentimento. As ausências sentidas seriam, justamente, a linguagem e o pensamento, necessárias para se produzir sentidos sobre a vida.

Nesse contexto, não conseguimos mais, por exemplo, transformar a dor em sofrimento: a dor se torna uma experiência em que o sujeito se fecha sobre si mesmo e se restringe a murmúrios e lamentações.

“Em contrapartida, o sofrimento é uma experiência alteritária. O outro está sempre presente para a subjetividade sofrente, que se dirige a ele com o seu apelo. Daí sua dimensão de alteridade, na qual se inscreve a interlocução na experiência do sofrimento. Isso porque a subjetividade reconhece aqui que não é auto-suficiente, como na dor”, escreve o autor.

A saída mais fácil nesse contexto, segundo Birman, tem sido a medicalização. “Por mais que a psiquiatria biológica prometa o controle das intensidades e dos desejos, esse controle provoca efeitos paradoxais tais como o comprometimento da subjetividade. O que essa psiquiatria faz é gerar autômatos produtivos e rastejantes”, afirmou Birman durante o Café Filosófico em que discutiu as novas formas de subjetivação na atualidade.

Fonte: CPFL

" A publicidade e o consumo infantil"- Clóvis de Barros Filho




A oportunidade de poder falar de um tema tão delicado me é muito cara. A questão da publicidade voltada ao público infantil e do consumo dessa faixa etária é uma preocupação pessoal de longa data. Bastante reforçada, reconheço, pela existência que tanto me orgulha de minha filha, hoje com seis anos. O que preocupa a mim, e acredito ser o mesmo motivo que preocupa os outros pais, é ver minha filha completamente imersa em um mundo fantástico de possibilidades de consumo que lhe é apresentado como maravilhoso. Desde sempre, encontramos no discurso do marketing a grande missão de encontrar e satisfazer as necessidades das pessoas. Trabalho benevolente, salvador. O que seria de nós sem essas sedutoras soluções? Então, cabe a pergunta: quais as necessidades das crianças? Diversão? Fantasia? Certamente. Educação? Amor? Saúde? Sem dúvida. E mais tantas outras que não poderíamos citar sem deixar este artigo longo demais. Mas, será mesmo que são essas as necessidades que impulsionam a gigantesca e bilionária indústria (US$ ou R$ 130bi/ano no Brasil) que tanto preza nossas crianças? 80% da publicidade de alimentos voltada às crianças é de produtos com alto teor de gordura, muito calóricos, pobres em nutrientes. Temos aí um forte indício de que não são estes, acima, os principais fatores motivadores da atuação da indústria no mundo infantil.

A necessidade de acumulação de capital constante fez com que as empresas subitamente tivessem que diversificar seus clientes. Lembremos, por exemplo, o recente lançamento de uma empresa de cosméticos de um creme anti-rugas para pessoas de 25 anos. O mesmo é válido para crianças. As empresas, em sua fúria pelo lucro cada vez mais ampliado, viram nesse público uma grande oportunidade. Necessidade do lucro. Irrefreável. O único motor das empresas. O único fator capaz de movimentá-las em um sentido, e de parar qualquer atividade, se não acontecer. Mas a pergunta que fica no ar é: como ela faz isso? Pela publicidade, que deixou há muito tempo de ter um discurso objetivo. Deixou de tentar convencer. Não estimula mais o logos, a razão. Passou a seduzir. Mexer com as emoções mais primárias. Quanto menos palavras, melhor.

Mas, a publicidade seduz para quê? Por que invocar e estimular as mais primitivas estruturas do inconsciente? Por um simples motivo: é ali que se encontra a maior fragilidade da nossa psique. É por esse caminho que se consegue uma compra por impulso, sem passar pelo crivo da razão, que certamente imporia barreiras lógicas difíceis de serem transpostas por um discurso que pretende criar uma realidade alternativa, melhor forma de vender um produto. Conheço uma excelente psiquiatra que conseguiu reduzir a compulsão de uma de suas pacientes pedindo que realizasse o simples gesto de dar uma volta no andar do shopping antes de comprar qualquer coisa. A conta do cartão de crédito que chegava ao salário de um juiz diminuiu 75%. Perceba que ali não havia uma decisão racional de compra, mas sim o impulso, o desejo, ambos vindos do inconsciente.

O jogo de sedução

Mas, voltemos às crianças. Como dito, a publicidade explora aquilo que de mais frágil há em nós. Por quê, então, tamanho interesse no mundo infantil? Já podemos supor que haja nas crianças uma fragilidade ainda maior, em relação ao mundo adulto. Mas pondero que a fragilidade não é só das crianças. Brevemente, informando que 80% das compras domésticas passam diretamente pela vontade da criança, pondero que há nos pais também grande fragilidade. De contato com as crianças, de conhecimento sobre o que se passa no mundo infantil, de autoridade. Houve uma completa inversão de posições. Quem manda são os pequenos. Está nessas fragilidades o principal interesse das corporações. Seduzindo as crianças há uma enorme possibilidade de “reter na fonte” o salário dos pais. Há muito menos barreiras. Tanto na própria psique infantil quanto na relação destas com os pais.

Vimos anteriormente que a publicidade seduz, explora os mais primários desejos de nosso inconsciente. Mas, se for assim, por que nas crianças haveria maior vulnerabilidade? As crianças não dispõem do leque de possibilidades existenciais que os adultos dispõem. Para elas, é muito mais difícil visualizar o rol de possibilidades que estão à sua escolha, e acaba refém daquela que se apresenta no seu dia-a-dia e no cotidiano de seus colegas, justamente através do discurso publicitário. As necessidades grandemente exploradas no mundo infantil são a do pertencimento e da identidade. Ambas fundantes da vida em sociedade. Pois não há sociedade sem união de pessoas em grupos e não há sociedade em que não seja possível reconhecer-se como indivíduo perante o outro.

A publicidade busca, a todo momento, estimular essas duas necessidades. Consumindo, a criança será aceita como consumidora, consumindo, será aceita no grupo de consumidores daquele produto, será afastada dos não-consumidores daquele mesmo produto, e, portanto, terá uma existência social alegradora. Critérios que antes eram uma certa habilidade no jogo de queimada, uma certa capacidade de contar piadas, entre tantas outras, hoje são voltados quase que exclusivamente para o mundo do consumo.

Vejamos os celulares, por exemplo. O celular com mp3 insere a criança num universo, o que tem câmera, em outro, o que tem Bluetooth, em um terceiro. O que tem o celular com todas as funções ao mesmo tempo consegue um destaque no mundo infantil, adquire para si as características positivas atribuídas ao produto. Apropria-se do status social do produto.

A publicidade estimula as crianças a estabelecerem critérios de seleção dos membros de seus grupos através do consumo, assim como estimula as próprias crianças a projetarem nos produtos aquelas características que desejariam para si mesmas, a inserção em um grupo social, a diferenciação social dentro desse grupo e entre outros grupos, o glamour, e por aí vai. Um exemplo fácil de entender é a relação das crianças com a boneca. Antes, brincar de boneca era um ato maternal. A criança era a mãe da boneca. Hoje, a boneca é uma projeção daquilo que a criança deseja. A criança não mais é a mãe da boneca, é a própria boneca.

Assim, a publicidade está no centro do comportamento infantil, levando as crianças para onde quer, a partir de suas necessidades de pertencimento e identidade, explorando sua fragilidade psíquica e os fracos laços que as ligam aos pais. Esta é uma questão que, certamente, merece muita atenção e discussão por todos que prezem minimamente pela vida das próximas gerações.

Fontes consultadas: Instituto Alana, Anvisa, revista Exame

Clóvis de Barros Filho é graduado em direito pela Universidade de São Paulo (USP) e em jornalismo pela Faculdade de Comunicação Social Casper Líbero, é mestre em science politique pela Université de Paris III e doutor em ciências da comunicação. Obteve a livre-docência pela Escola de Comunicações e Artes da USP e atualmente é professor de ética da USP.


(foto: Heitor Shimizu)

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

" Ética para meu filho"- Fernando Savater

"Robinson Crusoé passeia por uma das praias da ilha onde o confinaram uma inoportuna tempestade seguida de naufrágio. Leva seu papagaio ao ombro e protege-se do sol graças à sombrinha fabricada com folhas de palmeira, que o faz sentir orgulho, com razão, de sua habilidade. Ele acha que, em vista das circunstâncias, até que não se arranjou mal. Agora tem um refúgio para se proteger contra as inclemências do tempo e os ataques dos animais selvagens, sabe onde conseguir alimento e bebida, tem roupas para se abrigar, que ele mesmo fez com elementos naturais da ilha, os dóceis serviços de um pequeno rebanho de cabras, etc. Enfim, acha que sabe arranjar-se para levar mais ou menos sua vida de náufrago solitário. Robinson continua passeando, e está contente consigo mesmo, que por um momento parece não sentir falta de nada. De repente, detém-se com um sobressalto. Ali, na areia branca, desenha-se uma marca que vai revolucionar toda a sua pacífica existência: a pegada humana.


De quem será? Amigo ou inimigo? Talvez um inimigo que possa se tornar amigo? Homem ou mulher? Como se entenderá com ele, ou ela? Como irá tratá-lo? Robinson já estava acostumado a se fazer perguntas desde que chegou à ilha e a resolver problemas do modo mais engenhoso possível: o que vou comer? Onde vou me abrigar? Como posso proteger-me do sol? Mas agora a situação não é a mesma, pois não se ttrata de acontecimentos naturais, como a fome ou a chuva, nem de animais selvagens, mas com um outro ser humano, ou seja, com outro Robinson ou com outros Robinsons e Robinsonas. Diante dos elementos ou dos animais, Robinson pôde comportar-se sem atender a nada além de sua necessidade de sobrevivência, Tratava-se de ver se podia com eles ou se eles podiam com ele, sem mais complicações. Mas diante de seres humanos a coisa já não é tão simples. Ele deve sobreviver, sem dúvida, mas não de qualquer modo. Se Robinson transformou-se num animal como os outros que perambulam pela selva, por causa de sua solidão e sua desventura, sua única preocupação será saber se o desconhecido dono da pegada é um inimigo a ser eliminado ou uma presa a ser devorada. Mas se quer continuar sendo homem... Então já não estará lidando com uma presa ou um simples inimigo, mas com um rival ou um possível companheiro: de todo o modo, com um semelhante.


Enquanto está só, Robinson enfrenta questões técnicas, mecânicas, higiénicas, inclusive científicas, se é que você me entende. A questão é salvar a vida num meio hostil e desconhecido. Mas quando ele encontra a pegada de Sexta-Feira na areia da praia começam seus problemas éticos. Já não se trata apenas de sobreviver; como um animal selvagem ou uma alcachofra, perdido na natureza; agora precisa começar a viver humanamente, ou seja, com outros ou contra outros homens, mas entre homens. O que faz a vida ser “humana” é o transcorrer em companhia de seres humanos, falando com eles, pactuando e mentindo, sendo respeitado ou traído, amando, fazendo projetos e recordando o passado, desafiando-se, organizando juntos as coisas comuns, jogando, trocando símbolos... A ética não se ocupa em saber como se alimentar melhor, qual a maneira mais recomendável de se proteger do frio ou o que fazer para atravessar um rio sem se afogar, todas questões muito importantes, sem dúvida, para a sobrevivência em determinadas circunstâncias; o que interessa à ética, o que constitui sua especialidade, é como viver bem a vida humana, a vida que transcorre entre seres humanos. Se não soubermos como nos arranjar para sobreviver em meio de perigos naturais, perderemos a vida, o que sem dúvida será um grande dano; mas, se não tivermos nem idéia de ética, perderemos ou prejudicaremos o humano de nossa vida, o que, francamente, também não tem graça nenhuma."

Em resposta, postei:

Esse texto é instigante! Estou com fome, não sei se paro ou continuo. Qual será a minha maior demanda? Saciar a fome ou saciar o desejo de compartilhar ideias.


Esse texto me faz refletir: o que eu sou, o como sou e o que serei no futuro.

Creio que na infância construímos o que somos. Quase todas as questões de conflitos que temos na vida adulta, tiveram sua origem na infância. E quando não as superamos, elas aparecem como um vulcão na vida adulta.

E o que nos torna humanizados? Creio que boa parte dessa pergunta poderia ser respondida pelas questões éticas, que no decorrer da vida fomos construindo. Creio que o ser humanizado se constrói, no processo desenvolvido sobre sua concepção de vida, seja através dos modelos que tivemos, seja porque refletimos sobre as nossas atitudes e/ou pela culpa. Claro que tudo tem o seu preço. O caminho que irei percorrer será as escolhas que fiz.

Mas... Como tudo que se relaciona a mim e ao outro, nada é tão fácil. Os desafios são imensos, o individualismo sempre surge, os imprevistos de algum julgamento apressado também aparecem e como somos humanos erramos e acertamos.

Assim, se surge o erro e eu o reconheço, eu o acolho, para logo em seguida compreender o que devo fazer para não cometê-lo de novo. Creio que esse é um dos passos a ser seguido, rumo a minha humanização. Mas, será se basta? Creio que não.

O que me fortalece é a organização que faço dentro do meu ser. É a responsabilidade de refletir sempre, de meditar e se perguntar: Por que aquela pessoa é uma ameaça? O que posso fazer para mudar esta situação? Assim, mais um passo e esse bem mais profundo, pois me conduz ao enfrentamento, ao meu universo interior, me conduzindo ao autoconhecimento.

A estrada é longa e sempre te guiará e lhe mostrará uma saída. Não tenha medo! O medo nos imobiliza, nos torna desumanos e menos satisfeitos com o que somos. Eu só ambiciono aquilo que não tenho.

O outro passo, também complementar a este, é você olhar o outro com humildade e se reconhecer no outro. Não existe nada que eu não possa aprender com o outro. Assim, somos ensinantes e aprendentes. Você deixa de ser apenas um elemento de uma espécie e se reconhece, fazendo parte de um universo, muito maior do que o seu individualismo.

Assim cresço me construo e me valorizo como ser eterno. Sou único, indivisível e possuo uma gama de conhecimentos que construí, portanto, que necessita existir, por você e pelo outro. É na diferença que nos tornamos iguais em sua essência.

Essa dimensão me transcende, me leva a questionar a hierarquia como formalmente a conhecemos. Leva-me a questionar porque tenho q ser igual aos demais. Leva-me a ser eu, apesar da diferença na cultura, na filosofia de vida e da religião.

O que somos, é a projeção daquilo que pensamos que somos, mas não me reconheço sendo.

Bom fim de semana!

Natalícia

domingo, 19 de setembro de 2010

Grupo de Estudos Educar na Cultura Digital

Na próxima quarta-feira, dia 22/09, das 16h às 17h, estreia a TV Web do Grupo de Estudos Online Educar na Cultura Digital.


No primeiro programa, será apresentada a proposta desse novo ambiente de formação, disponível há um mês, que já reúne mais de 600 educadores e pessoas interessadas em refletir sobre a educação e a cultura digital.

A transmissão será ao vivo por meio da TV Web da Editora Moderna, e haverá também links nas homepages do Portal EducaRede (www.educarede.org.br) e do site do Grupo de Estudos online (www.educarnaculturadigital.org.br) para os internautas assistirem ao vídeo.

Nesse primeiro programa, as mediadoras do Grupo de Estudos - Priscila Gonsales, Mílada Gonçalves e Sonia Bertocchi - vão explicar a metodologia, os módulos temáticos, os espaços de interação, as atividades e demais recursos do ambiente.

Além disso, farão um balanço informal do primeiro mês de funcionamento do grupo. Os internautas poderão participar, enviando mensagens por uma ferramenta de chat da própria TV Web ou pelo Twitter (www.twitter.com/educultdigital), que serão respondidas e comentadas pelas mediadoras durante o programa.

"O Grupo está superando as nossas expectativas, não tanto pela grande quantidade de inscritos, mas principalmente pelo entendimento de todos sobre a proposta de colaboração e de mediação coletiva", conta Priscila Gonsales, enfatizando a excelente qualidade das interações.

Há participantes de várias regiões do país e com diferentes perfis, como professores, diretores, estudantes de Pedagogia e pesquisadores de universidade.

A programação da TV Web do Grupo de Estudos Online Educar na Cultura Digital será quinzenal, sempre às quartas, das 16h às 17h, e ocorrerá até o final do ano.

Cada programa abordará uma temática específica, tais como "Games nas Educação" e "Redes Sociais na Educação", e serão convidados especialistas nos assuntos. Acompanhe as datas dos próximos programas no site.



Saiba tudo sobre o Grupo de Estudos Educar na Cultura Digital, aqui:www.educarnaculturadigital.org.br