domingo, 24 de outubro de 2010

" O País dos Dedos Gordos"- Rubem Alves

Vivia num país distante e céu cor de anil, um povo pobre e feliz, que na sua pobreza tinha tempo e gosto para cantar, brincar, fazer versos e experimentar com aquelas artes e aquelas Ciências que faziam alegre o seu coração. Felizes também eram o rei e a rainha, amigos de todos e esperavam, para completar a sua felicidade, o nascimento de uma criança. Nasceu uma menina linda, mansa e fofa. Ah! Ela seria a mais bela, a mais feliz, a mais amada. E, para que nada lhe acontecesse, convidaram como madrinhas e padrinhos do batizado todas as fadas a magos do reino, que com os seus encantamentos haveriam de envolver a criancinha com um círculo mágico protetor. Ignoraram, é claro, a bruxa malvada que vivia na floresta negra.


Quando ela soube, pela leitura das colunas sociais, que havia sido desprezada, teve um acesso de cólera e jurou vingança. Mandou ao palácio seus corvos espiões: que verificassem se havia algum ponto vulnerável nos encantamentos que protegiam a princesinha. Voltaram desapontados: “o corpo da princesinha está fechado. Nada de sério lhe pode ser feito. Só existe um lugarzinho. Esqueceram-se do dedo “seu-vizinho”, da mão esquerda...” A bruxa de uma gargalhada : “ Mais que suficiente. Jogarei uma praga que fará com que o rei e a rainha se arrependam pelo resto de suas vidas. Aquele dedinho vai engrossar, engrossar, engrossar. E não haverá remédio que cure”...

E assim foi. E a malvada ainda mandou dizer, por mensagem no bico de seus corvos-correio. O rei e a rainha foram tomados de grande aflição. Chamaram fadas e magos. Inultimente. Bruxedo não se desfaz. Vieram médicos, cirurgiões plásticos, invocaram a homeopatia, fizeram compressas de confrei, apelaram para o poder das pirâmides e a meditação transcendental. Em vão. Pobre princesinha. Seu dedinho virou dedão, grotesco e vermelhão. Não podia usar aquelas lindas luvas brancas. E nem os anéis reais. Também não podia tocar piano, violino ou violão. O dedão esbarrava e a nota desafinava. Chorava a pobre princesinha, inconsolável pelo seu vizinho. Quem quereria se casar com uma jovem de dedo- grosso?

O rei,desesperado, chamou seus sábios e pediu conselho. Foi então que um deles fez sensata ponderação! “ Alteza, se não é possível fazer com que o dedo da princesinha fique igual aos dedos dos outros, é possível fazer que os dedos dos outros fiquem iguais ao dedo da princesinha. Ao final, o resultado será o mesmo. Ninguém terá vergonha.

O rei ficou encantado. E logo chamou os técnicos, que foram encarregados de viabilizara solução. O que se decidiu foi o seguinte: o rei promoverá, anualmente, um baile para o qual todos os jovens do reino estão convidados. Infelizmente, nem todos poderão ser admitidos porque só há lugar para mil pares no salão de festas. Muitos serão os chamados, poucos os escolhidos. Mas estes serão regiamente recompensados: empregos públicos vitalícios. E um dentre estes, será escolhido pela princesa, como marido, futuro rei. O critério para a admissão? Os mil que, dentre todos, tiveram os mais grossos “ seu-vizinho, da mão esquerda. Para que haja justiça, sem, sem fraude, se colocarão orifícios eletrônicos no vestíbulo do palácio. Os moços enfiarão seus dedos, o computador dirá quantos pontos fizeram, se passaram ou não.

E assim se fez. Os arautos anunciaram a boa-nova. De repente o reino mudou. Todos compreenderam que o futuro passava pelos exames vestibulinhos e que só havia uma única coisa que importava: a grossura do “seu-vizinho” da mão esquerda. Cessou a antiga alegria inconseqüente e descontraída. Os pais deixaram de prestar atenção nos risos para prestar atenção no dedo. E se gabavam: “ Menino de futuro promissor, veja só o seu dedo, tão jovem e tão grosso...” As escolas passaram por revoluções. Os estabelecimentos antiquados, preocupados com sorrisos, viram-se repentinamente sem alunos. “ Alegria não engrossa dedo”, diziam os pais, categóricos ao pagar sua última prestação. E as que progrediam eram aquelas que desde cedo introduziram as crianças na filosofia do dedo grosso. Música, literatura, brinquedos, as artes e Ciências que davam prazer foram todas aposentadas. O que importava era passar no vestibular e no vestibular, só contava a grossura do dedo.

E foi assim que se criou uma nova filosofia da educação, e coisas novas, cursinhos que viam tudo pelo Anglo e segundo o Objetivo de engrossar os dedos. Os preços eram exorbitantes. Os pais trabalhavam horas extras, as viúvas lavavam mais roupas. “ Pai não mede sacrifício para o bem do seu filho...” E de noite rezavam: “ Oh, Deus, ajuda o meu filho para que ele tenha disciplina e se aplique para que o seu dedo engrosse...”

Mas, ano vai ano vem, a mesma coisa acontecia. Só mil entravam. Os que ficavam de fora se punham a olhar para seus dedos grossos. Aquele era o resultado de anos de disciplina e privações. Será que adiantou? E pensavam nas coisas perdidas, nunca mais. Dedo grosso, inútil, gordo de abstenções e sacrifícios. As coisas que davam prazer haviam sido abandonadas e, agora, estavam sem o baile e sem o prazer. A suspeita era de que haviam sido vítimas de uma grande burla... A cada ano que passava, aumentava o número de jovens tristes. Nunca entrariam no baile. E o pior: estavam aleijados. O mundo se havia transformado num gigantesco dedo grosso. Era como se um pedaço da vida lhes tivesse sido roubado, irremediavelmente. O passado não se recupera. Por todo o País, a nuvem de tristeza. Os técnicos sugeriam que, talvez com práticas mais eficientes, a qualidade do ensino poderia ser melhorada. Dedos mais grossos, talvez... O único problema é que o tamanho do salão de bailes continuava o mesmo.

Lá dentro, a situação não era melhor. A princesinha não se decidia sobre o seu eleito: “ Pai, eles são tão chatos. Só sabem falar sobre dedos grossos. Preferiria um moço de dedo fino mas que fosse alegre e pudesse me alegrar...”

O rei compreendeu, repentinamente, o tamanho de sua estupidez. As vezes, o amor é cego e burro. Mandou seus arautos de novo, País afora, dizendo que dali pra frente ninguém mais seria julgado pela grossura do dedo. O que importaria seria a alegria de viver. E então, como que por encanto, o País acordou do seu feitiço. Ninguém mais procurava os cursinhos engrossa-dedo, que tiveram de fechar suas portas. Os pais mudaram suas orações, pediam a Deus que fizessem alegres os seus filhos, pararam de fiscalizar os seus dedos “seu-vizinho”, e iam às escolas para saber das coisas belas e gostosas que ali se faziam. Os poemas voltaram a ser lidos, os moços brincavam com suas flautas e violões sem dores de consciência, e das Ciências e artes eles se dedicavam àquelas que lhes davam prazer.

O salão de festas continuou do mesmo tamanho. Mas sua sombra sinistra já não mais enfeitiçava os anos da juventude. Mesmo os que ficavam de fora continuavam a sorrir, porque sabiam que tinha valido a pena. O mundo ficara mais belo. O tempo não tinha sido perdido. O passado não tinha sido inútil. E o rei, olhando para a princesinha, feliz, cantarolava que o que importa é que cada um “da alegria seja um aprendiz”.

E os moços tomavam seus instrumentos e dedilhavam as cordas. E não havia dedos gordos que atrapalhassem.



Rubem Alves- Estórias de quem gosta de ensinar- Ed. Cortez- SP/ 1984.

domingo, 17 de outubro de 2010

"As TICs e o combate à pobreza"

Relatório da ONU aponta que educação é fundamental para que as tecnologias da informação e comunicação sejam efetivas na redução da pobreza no mundo



A crescente presença das tecnologias da informação e da comunicação (TIC) no dia-a-dia da sociedade fez a Organização das Nações Unidas contemplá-las com destaque pela primeira vez neste ano no seu relatório sobre Comércio e Desenvolvimento, publicado desde 2005.


O “Information Economy Report 2010”, apresentado no Brasil pelo CGI.br - Comitê Gestor da Internet, traz dados globais que apontam que as TIC podem ajudar a reduzir a pobreza no mundo e mostra que a educação que contempla o desenvolvimento de habilidades para melhor explorar as possibilidades da cultura digital é essencial para o sucesso das iniciativas que buscam contribuir para essa redução.


Para chegar à conclusão, foram levantadas, por agências nacionais e internacionais de desenvolvimento, experiências cotidianas de uso das TIC em diversos países e, principalmente, em comunidades assoladas pela pobreza. Além disso, dados estatísticos fornecidos por grupos privados da área de comunicação foram analisados e ajudaram a compor o cenário.


Para o conselheiro do CGI.br e doutor em pensamento social e político, Carlos Alberto Afonso, que se debruçou sobre os resultados do relatório, esse cenário, de fato, é promissor. Ele, no entanto, observa que as iniciativas ainda não constituem um macro-modelo a ser seguido: “as experiências relatadas no relatório mostram que as TIC são capazes de promover transformações que ajudam a combater a probreza, mas até agora temos casos exemplares em níveis setoriais específicos, não temos uma ação macro, em um país, por exemplo”.


Entre os casos narrados no relatório, está o de uma comunidade rural na cidade montanhosa de Pazos, no Peru. Um telecentro local atrelado à orientação profissional para que produtores da região buscassem fontes de pesquisa sobre métodos de cultivo resultou na criação de uma estufa que produziu uma excelente safra.


O resultado positivo é fruto de uma lógica que pode ser vista como semelhante ao da presença das tecnologias na escola: se há estrutura que contempla a cultura digital e ainda há orientação para usar as “ferramentas” de forma produtiva, as chances de bons resultados aparecerem aumentam.


A indicação de que o contrário também pode ser verdade está na continuidade do exemplo de Pazos, quando é exposto que outras comunidades tiveram acesso às TIC, mas não obtiveram êxito ao tentarem implementar mudanças nas suas atividades produtivas. De acordo com o estudo, a diferença entre o mal e o bem-sucedido está na conjuntura. Como destacou Carlos Alberto Afonso durante a apresentação do relatório, “não adianta apenas oferecer as TIC e fazer com que o custo do acesso seja baixo, tem que haver uma estrutura que contemple o desenvolvimento das habilidades humanas, treinamento e suporte”.


O relatório destaca que o crescimento da disponibilidade das TIC não tem sido acompanhado por uma expansão rápida da evolução dos conhecimentos sobre a forma como essas tecnologias podem impactar o combate a pobreza. E aponta que “muito mais deve ser entendido sobre isso”.


Mais pesquisas e integração das instituições


O caminho para essa ampliação do entendimento a respeito do impacto das TIC no combate à pobreza é, de acordo com o Information Economy Report, o aumento do investimento em pesquisas por parte das empresas, universidades e agências de desenvolvimento, assim como a integração entre essas instituições. O estudo destaca que governos e agências de desenvolvimento não podem assumir o combate à pobreza com as TIC por conta própria e diz que o setor privado é extremamente importante como fonte de investimento em infra-estrutura e em serviços inovadores.


O relatório expõe que a erradicação da pobreza é o maior desafio global que o mundo enfrenta e também um requisito fundamental para um desenvolvimento sustentável. De acordo com dados da ONU, mesmo que uma das Metas do Milênio seja atingida e, em 2015, o mundo tenha reduzido pela metade o número de pessoas que passam fome, ainda assim quase um bilhão de pessoas estarão em situação de pobreza extrema. Por isso, destaca o estudo, investir em programas sociais de educação que preparem as pessoas para usar as TIC em suas atividades produtivas deve ser um esforço conjunto.



TIC no mundo: celular é o destaque


O “Information Economy Report” apresentou dados estatísticos sobre a penetração das TIC nas diferentes regiões do mundo. Os números são de 2009 e mostram que nos países da América do Sul as assinaturas de celular apresentam a maior média para cada grupo de 100 habitantes quando comparadas a outros três indicativos: propriedade de linhas de telefones fixos, usuários de internet e assinatura de banda larga.


No Suriname, a média é de 146,98 assinaturas de celular para cada 100 habitantes. Em seguida, vem a Argentina, com 128,84. O Brasil apresenta, de acordo com o IER 2010, a média de 89,79 assinaturas para cada centena de habitante. O Suriname é um dos países que ilustram uma das conclusões do relatório: os países que carecem de infra-estrutura para acesso à internet em computadores têm feito isso via celular. A média de assinatura de banda larga no Suriname é baixíssima: 1,65 para cada 100 habitantes. Na Argentina, é de 8,80. No Brasil, fica em 7,51. O Chile é o país da América do Sul com mais assinaturas de banda larga por habitante: 9,81.





Por Giulliana Bianconi

sábado, 16 de outubro de 2010

" Atualizar a pedagogia face ao mundo mudado"- Leonardo Boff

Séculos de guerras, de confrontos, de lutas entre povos e de conflitos de classe nos estão deixando uma amarga lição. Este método primário e reducionista não nos fez mais humanos, nem nos aproximou mais uns dos outros e muito menos nos trouxe a tão ansiada paz. Vivemos em permanente estado de sítio e cheios de medo. Alcançamos um patamar histórico que, nas palavras da Carta da Terra, “nos conclama a um novo começo”. Isto requer uma pedagogia, fundada numa nova consciência e numa visão includente dos problemas econômicos, sociais, culturais e espirituais que nos desafiam.




Esta nova consciência, fruto da mundialização, das ciências da Terra e da vida e também da ecologia nos está mostrando um caminho a seguir: entender que todas as coisas são interdependentes e que mesmo as oposições não estão fora de um Todo dinâmico e aberto. Por isso, não cabe separar mas compor, incluir ao invés de excluir, reconhecer, sim, as diferenças mas também buscar as convergências e no lugar do ganha-perde, buscar o ganha-ganha.



Tal perspectiva holística vem infuenciando os processos educativos. Temos um mestre inolvidável, Paulo Freire, que nos ensinou a dialética da inclusão e a colocar o “e” onde antes púnhamos o “ou”. Devemos aprender a dizer “sim” a tudo aquilo que nos faz crescer no pequeno e no grande.



Frei Clodovis Boff acumulou muita experiência trabalhando com os pobres no Acre e no Rio de Janeiro. Na esteira de Paulo Freire, entregou-nos um livrinho que se tornou um clássico: “Como trabalhar com o povo”. E agora face aos desafios da nova situação do mundo, elaborou um pequeno decálogo daquilo que poderia ser uma pedagogia renovada. Vale a pena transcrevê-lo e considerá-lo pois nos pode ajudar e muito.



1.”Sim ao processo de conscientização, ao despertar da consciência crítica e ao uso da razão analítica (cabeça). Mas sim também à razão sensível (coração) onde se enraizam os valores e de onde se alimentam o imaginário e todas as utopias.



2. Sim ao “sujeito coletivo” ou social, ao “nós” criador de história (“ninguém liberta ninguém, nos libertamos juntos”). Mas também sim à subjetividade de cada um, ao “eu biográfico”, ao “sujeito individual” com suas referências e sonhos.



3. Sim à “praxis política”, transformadora das estruturas e geradora de novas relações sociais, de um novo “sistema”. Mas sim também à “prática cultural” (simbólica, artística e religiosa), “transfiguradora” do mundo e criadora de novos sentidos ou, simplesmente, de um novo “mundo vital”.



4. Sim à ação “macro” ou societária (em particular à “ação revolucionária”), aquela que age sobre as estruturas. Mas sim também à ação “micro”, local e comunitária (“revolução molecular”) como base e ponto de partida do processo estrutural.



5. Sim à articulação das forças sociais sob a forma de “estruturas unificadoras” e centralizadas. Mas sim também à articulação em “rede”, na qual por uma ação decentralizada, cada nó se torna centro de criação, de iniciativas e de intervenções.



6. Sim à “crítica” dos mecanismos de opressão, à denúncia das injustiças e ao “trabalho do negativo”. Mas sim também às propostas “alternativas”, às ações positivas que instauram o “novo” e anunciam um futuro diferente.



7. Sim ao “projeto histórico”, ao “programa político” concreto que aponta para uma “nova sociedade”. Mas sim também às “utopias”, aos sonhos da “fantasia criadora”, à busca de uma vida diferente, em fim, de “um mundo novo”.



8. Sim à “luta”, ao trabalho, ao esforço para progredir, sim à seriedade do engajamento. Mas sim também à “gratuidade” assim como se manifesta no jogo, no tempo livre, ou simplesmente, na alegria de viver.



9. Sim ao ideal de ser “cidadão”, de ser “militante” e “lutador”, sim a quem se entrega, cheio de entusiasmo e coragem, à causa da humanização do mundo. Mas também sim à figura do “animador”, do “companheiro”, do “amigo”, em palavras pobres, sim a quem é rico de humanidade, de liberdade e de amor.



10. Sim a uma concepção “analítica” e científica da sociedade e de suas estruturas econômicas e políticas. Mas sim também à visão “sistêmica” e “holística”da realidade, vista como totalidade viva, integrada dialeticamente em suas várias dimensões: pessoal, de gênero, social, ecológica, planetária, cósmica e transcendente.”



fonte: Envolverde

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Aos mestres- Natalícia

















Aos Mestres com carinho, Natalícia.

Quadrinho

" A sombra enorme" - Rubem Alves

Professor José Pacheco- Escola da Ponte                                                      Rubem Alves



Fernando Pessoa- quem diria? – foi ideólogo da Coca-cola... Quem me revelou isso foi o professor Ademar Ferreira dos Santos, educador português, da Escola da Ponte, em Portugal. (Se vocês desejarem em saber um pouco sobre esta escola extraordinária leiam o livrinho A Escola com que sempre sonhei sem imaginar que pudesse existir. Pois ele me contou que nos idos dos anos 20 Fernando Pessoa, precisando ganhar dinheiro para sobreviver passou a trabalhar para uma empresa de propaganda. Coca-cola estava chegando, desconhecida, de gosto estranho, precisava de uma cunha poética que lhe abrisse o cantinho. Foi então que Fernando Pessoa produziu esse curtíssimo slogan: “ A princípio estranha-se. Depois, entranha-se”. Absolutamente genial! Aconteceu comigo.Caipira de Minas mudado para o Rio, acostumado a tomar refresco de pitanga, achei a Coca-cola uma coisa horrível, com gosto de verniz misturado com sabão. Aí, aos poucos, na roda dos colegas cariocas que tomavam Coca-cola com prazer, a metamorfose foi acontecendo. O estranhamento se transformou em entranhamento. E continua, a despeito da minha resistência ideológica. Como disse Barthes, “meu corpo não tem as mesmas idéias que eu”.


Disse tudo isso porque sei que irão estranhar a ideia que vou apresentar. Quando eu a digo pela primeira vez a reação imediata dos meus ouvintes é susto, seguido por riso... “ não é possível que o Rubem esteja falando sério. Essa é mais uma de suas brincadeiras... “ Não, não é brincadeira. Estou falando sério e peço que vocês, meus leitores, se ponham a repetir: “A princípio estranha-se. Depois entranha-se...” Peço que vocês tenham para com minha idéia estranha a mesma atitude que tiveram diante da estranha Coca-cola.

Tudo começou há muitos anos, na INICAMP, quando um grupo de amigos se reuniu para estudar a possibilidade de um vestibular inteligente. Porque esse que existe não é inteligente. Pelo contrário. Minha amiga Vilma Cloris de Carvalho, educadora extraordinária, professora de neuro-anatomia, me revelou que seus piores alunos eram aqueles que tinham obtido as notas mais altas no vestibular. “ Eu explico a complexidade do funcionamento do aparelho nervoso, mostro-lhes o caráter provisório das hipóteses de que dispomos, falo sobre uma, falo sobre outra... E aí, há sempre um desses gênios que tiraram as notas mais altas que se sai com a pergunta: “ Mas professora, qual é a resposta certa?... Ah! Essa simples pergunta contém um mundo de densinos... Nós queríamos um vestibular que fizesse bem à inteligência, que testasse a capacidade dos alunos de pensar, diante de situações novas, em oposição àquele que privilegiava a memória mecânica e as respostas certas. Um dia, num intervalo entre as discussões, o meu amigo professor Yaro Burian Jr., engenheiro do ITA, me disse com um sorriso: “ A melhor solução é o sorteio...” Estranhei. Refuguei. O yaro devia estar gozando. Sorteio, coisa injusta. Vai privilegiar os incompetentes. Ri. Aí ele não explicou nada e só me disse: “ Pense...” Pus-me a pensar e não parei até hoje. Ao estranhamento seguiu-se o entranhamento. Hoje eu repito: “ O sorteio é a solução mais inteligente e mais educativa”. Agora eu preciso explicar o caminho do meu pensamento.

“ Funções manifestas” e “ funções latentes” são conceitos criados pelo sociólogo Robert K. Merton. Esses conceitos ferramentas de pensamento que sempre me ajudam a pensar. Vou explicar o seu sentido ( que é mesmo que dizer “ vou explicar o seu uso”. O sentido de uma idéia é o uso que fazemos dela). Pergunta: “ Qual é a função a exigência de que, para ser aprovado, o aluno tenha que ter freqüentado 75% das aulas? Resposta da função manifesta: “ freqüência a 75% das aulas é condição para se manter a qualidade do ensino”. Resposta da função latente: “ A freqüência a 75% das aulas é condição para que os professores medíocres e incompetentes tenham sempre alunos em suas aulas que de outra forma estariam vazias, livrando-os assim da vergonha...” funções latentes correspondem aos “ efeitos colaterais” das bulas de remédios: função manifesta, curar, função latente, pode matar...

Qual é a função manifesta dos exames vestibulinhos? O nome está dizendo: vestíbulo. Vestíbulo é lugar de entrada. Exames vestibulares: exames para se conseguir entrar no lugar desejado. Mas a minha atenção não se interessa por essa função manifesta. Interessam-me suas funções latentes, seus efeitos colaterais de que poucos se dão conta. Assim, ao falar de exames vestibulares eu não olho para frente, para a universidade. Olho para trás e contemplo o que a sua sombra enorme cobrindo todos os processos escolares que os antecedem. Observo a progressiva instalação dos processos de tortura a que crianças e adolescentes têm de se submeter,que lhes tira toda a alegria da experiência de aprender. Agora já há até “vestibulinhos” para crianças... A deformação começa cedo.



Rubem Alves




Fernando Pessoa

terça-feira, 12 de outubro de 2010

" Gostar do Filho"- Artur da Távola



Gostar do filho é babar retratinhos depois de tê-los desdenhado nos outros. É voltar a parques e circos sem precisar de desculpas, e fingindo que reclama do “trabalhão” que eles dão.

Gostar do filho é reencontrar medos antigos que de tão puros ficaram sepultados na personalidade tolamente chamada adulta.

Gostar do filho é aprender a calar ( quantos pais o sabem?) naquilo que chegará o momento certo de dizer ( nem sempre é na mesma hora). Gostar do filho é sobretudo saber “ não saber”. Ou testar o que sabe com modéstia e humildade.

É incorporar o que não sabe sem inveja. É usar o que sabe com prudência. É reformular a cada dia. É confirmar a cada instante. É tanto conhecer o que muda, como o que não muda e saber distinguir os dois na hora certa.

Gostar do filho é sentir seu crescimento. Acompanhar, seios, barbas, hormônios, fala, baba, cheiros, pelos, palavras, letras, cadernos, calças, espasmos, choros, medos, surf, pelada, boneca, sexo, piriri, espanto, esbarro, radiografia, namorada, astronomia, mesada, mulher, homem, é acompanhar tudo isso sem sentir nada do que se sente quando se acompanha nas demais pessoas. Gostar do filho é ser capaz do mais altruísta dos egoísmos.

Gostar do filho é permitir-lhe o vôo, no máximo ensinando-o a distinguir ninho de arapuca. Gostar do filho é desaprender a dormir para poder dormir em paz. E aprender a renunciar e a agüentar. É redescobrir agasalhos, natais, escadas rolantes, selos, caixas de fósforo, botão, pranchas ou vestidinho.

Gostar do filho é a possibilidade de esperança.

É conviver, é roçar a pele, é ficar todo mole quando ganha um abraço espontâneo depois de ter rejeitado tantos lá fora. É ser cego e clarividente. Profeta e embotado. Sábio e burraldo. Gênio e borra-botas. Valente e covarde. Bobão e frio. Inseguro e protetor.

Gostar do filho é mudar a cada dia. Fundo. É contemplar os próprios limites com mais tolerância, porque alguém salvará a espécie. É virar lobo, tigre, jumento ou colibri, palhaço, mago ou Kung-Fu, gordo e magro ou Flash Gordon.

Mas gostar do filho é sobretudo saber esperar. Não ter a pressa de aceitações, entendimentos e devoluções à vista. É saber conquistar pelo menos uma lembrança compreensiva, não importa quando venha, no fim dos tempos ou depois de amanhã.

Saber esperar as quatro estações cuidando das podas, das regas, dos adubos, como quem cumpre um ritual, se possível cantando as canções, das colheitas, aquelas que trazem a mensagem e a esperança do fruto. Que trará, também Ele, carregado de sementes.



Artur da Távola – março de 1993

" Todas as Crianças"- Frei Beto


Todas as crianças querem a paz no mundo, mas nem todas são educadas livres da ótica da discriminação, do preconceito, em condições de encarar, como dotados de igual dignidade, brancos, negros, amarelos e indígenas.


Todas as crianças gostam de falar com Deus, mas nem todas aprendem que Deus ama, sem distinção, mulçumanos, judeus, cristãos, adeptos do candomblé, do Santo Daime e até mesmo quem não crê.

Todas as crianças necessitam brincar, mas nem todos os pais têm condições de evitar que enveredem pela senda do trabalho precoce, do ponto de esmola na esquina, da exploração sexual, das sendas do crime.

Todas as crianças adoram perder tempo com seus amigos e amigas, mas algumas tornam-se adultas antes do tempo, devido à agenda sobrecarregada imposta pela família, com aulas de balé e natação, de idiomas e de música, sem nunca terem se sujado no barro. Ou, empobrecidas, são obrigadas a lutar desde cedo pela sobrevivência.

Todas as crianças são dotadas de incomensurável fantasia, mas muitas não têm sonhos próprios, porque delegaram à TV o direito de imaginar por elas. Assim, crescem saturadas de (des) informações que não processam, vulneráveis em seu código de valores e confusas quanto aos princípios éticos a serem abraçados.

Todas as crianças são generosas, mas nem sempre há quem lhes ensine partilhar o que acumulam nos armários, na lancheira e no coração.

Todas as crianças precisam de muito amor, mas nem todas conhecem quem preste atenção no que falam e fazem, passeie com elas nos fins de semana, evite barganhar o carinho sonegado por presentes e promessas.

Todas as crianças gostam de doces, mas nem todas são educadas para apreciar frutas e verduras, evitando desde cedo preencher com a boca o que lhes falta no coração.

Todas as crianças adoram ouvir histórias, mas nem todas conhecem quem se disponha a contar-lhes o mundo da carochinha ou a ler para elas os textos sagrados.

Todas as crianças imitam adultos que admiram, mas nem todas aprendem a conhecer Jesus e Francisco de Assis, Gandhi e Che Guevara e crescem empolgados com o exterminador do passado, do presente e do futuro.

Todas as crianças são sedentas de alegria, mas como esperar que sorriam se os adultos discutem na frente delas ou expressam seu racismo, seu ódio e sua ganância por dinheiro e bens?

Todas as crianças ignoram a morte como ameaça real,e nenhuma delas se propõe a matar o semelhante, a fabricar ou comercializar armas, a bombardear populações civis. Se uma criança rouba, droga-se ou mata é porque o mundo dos adultos condenou-a a ser o reverso de si mesmo.

Todas as crianças adoram sonhar, mas se não encontram pelo caminho quem infle os seus sonhos, como um balão que voa rumo à utopia, corre o risco de buscar na química das drogas o que lhes falta em autoestima.

Todas as crianças são convencidas de que, entregue nas mãos delas, o mundo seria bem melhor, pois nenhuma delas suporta ver o semelhante com fome, na miséria ou vítima de guerras.

Todos nós deveríamos cultivar para sempre a criança que um dia fomos.



Frei Beto- escritor, A obra do Artista- Uma visão holística de universo.

" Desafios para um mundo sustentável"- Lidia Goldenstein



Depois de quase vinte anos de sucessivas crises, com baixas taxas de crescimento, elevada inflação e recorrentes problemas no balanço de pagamentos, o Brasil vive atualmente um cenário macroeconômico bastante positivo. Como resultado de mais de duas décadas de ajustes difíceis, e beneficiada pelo crescimento da economia mundial, finalmente a economia voltou a crescer.



A redução da vulnerabilidade externa – graças às elevadas exportações de commodities como da percepção generalizada de que o Brasil continuará a ser um dos países mais atrativos para os investimentos externos -, garantiu a acumulação de reservas e permitiu que o país passasse pela ultima crise internacional sem os traumas que sempre nos abateram nas crises anteriores.


Internamente, a inflação não só foi controlada, como permanece em um nível baixo, permitindo a redução da taxa de juros a qual, apesar de ainda elevada e uma das mais altas do mundo, já caiu significativamente, situando-se no menor nível desde os anos 80, mesmo após a recente elevação implementada pelo Banco Central.


O controle da inflação e a queda dos juros vêm permitindo uma elevação importante do crédito na economia a qual, somada à elevação da renda proveniente do programa Bolsa Família, da elevação do salário mínimo como tal e como benefício previdenciário e assistencial e, mais recentemente, do aumento do emprego, geraram um circulo virtuoso, de aumento de renda, emprego e consumo.


Tudo junto vêm finalmente permitindo não só a elevação das taxas de crescimento como também das taxas de investimento do país. Temos, assim, uma oportunidade única para pensarmos o futuro do país sem o peso das sucessivas crises, internas e externas, que nos abateram por longos anos. É o momento, quando os mais variados indicadores macroeconômicos mostram-se bons, ou no mínimo razoáveis, de fortalecer as bases para que a economia brasileira consolide a atual fase de crescimento e finalmente entre em uma trajetória de crescimento sustentável.


Entretanto, apesar do inequívoco bom momento pelo qual a economia brasileira vem passando, no qual crescer a taxas elevadas por um ou dois anos está se revelando muito possível, não se pode contar para sempre com um cenário tão positivo. Não só ciclos e crises sempre existiram e continuarão a existir, como podem ser de tal magnitude que comprometam a sustentabilidade do crescimento.


A capacidade de o país passar por novas eventuais crises sem desarranjos mais profundos na economia, e de manter uma trajetória de crescimento de longo prazo, depende do enfrentamento de certas questões que ainda estão sendo perigosamente postergadas, levando ao acúmulo de problemas que cedo ou tarde ameaçarão o desempenho da economia.


Alguns dos problemas já são muito conhecidos e discutidos pela imprensa e diferentes analistas econômicos, quando não já sentidos pelos empresários e pelo público em geral. O baixo nível de investimentos(*), em especial em infra-estrutura, é um deles, e vem afetando significativamente a competitividade da economia brasileira. O volume e perfil dos gastos públicos é outro, afetando a capacidade de gasto público, sua qualidade e seu custo de financiamento. Os impactos negativos da péssima estrutura educacional do país no mercado de trabalho e no custo das empresas são mais um dos problemas entre os que urgem serem enfrentados.


A consciência da necessidade de se enfrentar estas questões tem sido crescente. Para algumas delas já estão mapeados os investimentos e ações prioritários, tanto públicos como privados. Mas, infelizmente, existem ainda outras questões que estão longe de serem debatidas, quanto mais enfrentadas.


(*) Apesar da taxa de crescimento dos investimentos prevista para 2010 ser de 18,5% do PIB, mostrando um retorno dos investimentos se comparada com os 17,4% de 2009, ainda estamos longe dos 25% considerados necessários para sustentar uma taxa de crescimento de 5% ao ano do PIB sem pressão inflacionária


Fonte: Lidia Goldenstein

" Uma professora do barulho"

Foi na semana passada durante a conferência, ou convenção, do Partido Conservador, realizada em Birmingham. Aqui os sócios de carteirinha e mensalidades em dia, após uma ligeira triagem, têm o direito de se dirigir ao plenário e apresentar suas queixas, sugestões ou meras louvações. Tudo dentro da cartilha democrática que estas ilhas adotaram há mais de um século.



Eu disse cartilha. Sei o que digo.


Além dos discursos dos líderes do partido, pegou um bom espaço na imprensa o de uma professorinha. O diminutivo soa a condescendência. Injustiça. Coisas de um tempo que passou, num país bem passado e com um ovo a cavalo em cima.


Refiro-me, pois, e me penitencio, às palavras que a professora Katharine Birbalsingh, de 37 anos, dirigiu a seus colegas partidários. Katharine é a nova vice-diretora de um colégio aqui de Londres que vem vindo aos trancos e barrancos, ou caindo pelas tabelas, para usar de termos idiomáticos familiares aos nossos ouvidos e sensibilidade de botequim.


O St Michael and All Angels, situado no bairro de Southwark, em Camberwell, sul de Londres, barra pesadíssima.


Bairro multiétnico ou globalizado, conforme queiram, onde os alunos, igualmente multiétnicos e globalizados, botam, quase que literalmente, para quebrar. Todos os dias. A posição, quase exaltada, da professora (aliás, ela também multiétnica, como não se pode deixar de notar pelo nome), durou pouco.


Discurso apaixonado e ovacionado na quarta-feira, ordens expressas da diretoria do estabelecimento de ensino em questão para ficar em casa na quinta e na sexta-feira. O que disse a professora Katharine Birbalsingh diante de seus colegas convencionais e que tanto ofendeu seus pares?


A professora apontou para todos os presentes o fato de que os pais dos alunos do educandário onde lecionava, e quase-quase ia dirigir, não tinham a menor ideia de que, na maior parte dos colégios (não especificou se de Londres ou de toda o Reino Unido), o "clima era de caos total".


Criticou principalmente o que ela chamou de "falta de disciplina entre alunos negros" (angloafricano ainda não chegou aqui). Foi mais longe, se tal é possível, e disse que o sistema estava em pleno estado de "ruptura" e que não fazia mais do que manter "pobres as crianças pobres."


Foi uma balbúrdia. Onde já se viu? A professora, antes da ovação, já fizera referência, ao fato de que as escolas e colégios temem perder pupilos se admitirem os problemas existentes no sistema. A St Michael onde leciona (sim, ela foi prontamente reintegrada após a notícia ser dada com destaque pela imprensa) foi chamada por ela de "Alcatraz do mundo da educação." Alcatraz: aquela notória prisão nos Estados Unidos.


Katharine mantinha um blog até sexta feira. To Miss With Love (uma referência a um filme muito conhecido dos anos 70, com o Sydney Poitier, todo passado na Inglaterra). Saiu do ar até segunda ordem devida à reação obtida por suas palavras incandescentes.


Lá estava, e tudo indica que voltará ao ar, a frase terrível, onde ela contava como o colégio pagava por guardas de segurança para revistar as crianças (sim, crianças) antes do início do dia letivo. Acrescentava que, nos últimos seis meses, três crianças foram esfaqueadas no colégio.


No dia em que uma colega fazia a aplicação para o posto que acabou (quase que literalmente) com ela, o de vice-diretora, um bando de alunos a derrubou ao chão num dos corredores do St Michael.


Na sexta-feira, procurada pela imprensa, que voou em cima, Katharine Birbalsingh se confessou diante do dilema de falar ou calar sobre o sistema e fazer o que era o mais correto no caso de "seu" colégio. E foi explícita: o colégio, por ele, moitava. Calava a boca. Não dava um pio.


A professora não moitou e não calou. Deu um baita pio. No que fez muitíssimo bem.



Fonte: IVAN LESSA
COLUNISTA DA BBC BRASIL, EM LONDRES