sábado, 4 de setembro de 2010

" Para que serve a psicanálise"- Contardo Calligaris

A ASSOCIAÇÃO Internacional de Psicanálise (IPA) foi fundada em 1910. Presente em 33 países, com mais de 12 mil membros, ela festeja seu centésimo aniversário. Aos colegas da IPA (embora eu tenha me formado numa de suas dissidências), meus sinceros parabéns.

A festa é uma boa ocasião para perguntar: para que serve, hoje, a psicanálise? A campanha eleitoral em curso me ajuda a escolher uma resposta.

Repetidamente, o presidente Lula e Dilma Rousseff se apresentam como pai e mãe dos brasileiros. Em 17/8, Lula declarou: "A palavra não é governar, a palavra é cuidar: quero ganhar as eleições para cuidar do meu povo, como a mãe cuida de seu filho".

No dia seguinte, Marina Silva comentou: "Querem infantilizar o Brasil com essa história de pai e mãe". Várias vozes (por exemplo, o editorial da Folha de 19/8) manifestaram um mal-estar; Gilberto Dimenstein resumiu perfeitamente: "Trazer a lógica familiar para a política significa colocar a criança recebendo a proteção de um pai em vez de um governante atendendo a um cidadão que paga imposto".

Entendo que um presidente ou uma candidata se apresentem como pai ou mãe do povo. Embora haja precedentes péssimos (de Vargas a Stálin, ao ditador da Coreia do Norte, Kim Jong-il), estou mais que disposto a acreditar que Lula e Dilma se expressem dessa forma com as melhores intenções.

O que me choca é que eleitores possam ser seduzidos pela ideia de serem cuidados como crianças e preferi-la à de serem governados como adultos.

Se o governo for paternal ou maternal, o que o cidadão espera nunca será exigível, mas sempre outorgado como um presente concedido por generosidade amorosa; o vínculo entre cidadão e governo se parecerá com o tragipastelão afetivo da vida de família: dívidas impagáveis, culpas, ciúme passional etc. Alguém gosta disso?

Numa psicanálise, descobre-se que a vida adulta é sempre menos adulta do que parece: ela é pilotada por restos e rastos da infância. Ao longo da cura, espera-se que essa descoberta nos liberte e nos permita, por exemplo, renunciar à tutela dos pais e ao prazer (duvidoso) de encarnarmos para sempre a criança "maravilhosa" com a qual eles sonhavam e talvez ainda sonhem.

Tornar-se adulto (por uma psicanálise ou não) é um processo árduo e sempre inacabado. Por isso mesmo, a quem luta para se manter adulto, qualquer paternalismo dá calafrios -ou vontade de sair atirando, como Roberto Zucco.

Roberto Succo (com "s"), veneziano, em 1981, matou a mãe e o pai; logo, fugiu do manicômio onde fora internado e, durante anos, matou, estuprou e sequestrou pela Europa afora. Em 1989, Bernard-Marie Koltès inspirou-se na história de Succo para escrever "Roberto Zucco", peça admiravelmente encenada, hoje, em São Paulo, na praça Roosevelt, pelos Satyros.

Na peça, Zucco perpetra realmente aqueles crimes que todos perpetramos simbolicamente, para nos tornarmos adultos: "matar" o pai, a mãe e, dentro de nós, a criança que devemos deixar de ser.

O diretor da peça, Rodolfo García Vázquez, disse que Zucco é um Hamlet moderno. Claro, para Hamlet, como para Zucco, o parricídio é uma espécie de provação no caminho que leva à "maioridade". Além disso, pai, padrasto e mãe de Hamlet eram reis, e o pai de Succo era policial. Para ambos, o Estado se confundia com a família.

Se o Estado é um pai ou uma mãe para mim, eu não tenho deveres, só dívidas amorosas, e, se esse Estado me desrespeita, é que ele me rejeita, que ele trai meu amor. Por esse caminho, amado ou traído pelo Estado, nunca me considerarei como um entre outros (o que é uma condição básica da vida em sociedade), mas sempre como a menina dos olhos do poder.

Agora, se eu me sentir traído, não me contentarei em mudar meu voto, mas procurarei vingança no corpo a corpo, quem sabe arma na mão; pois essa é a linguagem da paixão e de suas decepções. O paternalismo, em suma, semeia violência.

Enfim, se é verdade que muitos prefeririam ser objeto de cuidados maternos ou paternos a serem "friamente" governados, pois bem, nesse caso, a psicanálise ainda tem várias boas décadas de utilidade pública entre nós.

É uma boa notícia para a psicanálise. Não é uma boa notícia para o mundo fora dos consultórios.

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Românticos Conspiradores- post

Faço parte dessa rede- Românticos Conspiradores ( http://romanticos-conspiradores.ning.com/profile/NataliciaAlfradique ), quem quiser conhecê-la, será um prazer. Por isso, colaboro com esse post da amiga  Carla Lam (http://romanticos-conspiradores.ning.com/profile/CarlaL?xg_source=activitye ) o meu comentário abaixo.

Obrigada, Natalícia
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Ola RCs!!

Quinta feira passada, fui a uma palestra do Fernando Henrique sobre Educação. O público, em sua maioria, era formada de jovens adultos (20 a 25) da comunidade judaica. Não era uma palestra para educadores.

Eu gostaria de compartilhar alguns pontos com vocês, e quem sabe possa nos incentivar a uma discussão?

Vou colocar em tópicos algumas ideias expostas por FHC. Afinal, o que pensa um ex Presidente sobre a Educação de seu país?

1) FHC inicia a palestra dizendo que uma boa sociedade é aquela que as pessoas se sintam a vontade nela, e que as pessoas possam compartilhar, estar junto...

2) A ação para mudança deve ser estratégica. Mudar algo que provoca mudanças em cadeia - por mobilização e exigencia da população.

3) Hoje a questão já não é mais a frequencia na escola, ou a escola para todos, mas o que vai ser ensinado na escola.

O Brasil teve um grande avanço no número de crianças que estão na escola, comparado a décadas atras, o que quer dizer que as crianças que estão na escola são filhas de pais que nunca frequentaram a escola, ou que o acesso foi muito limitado. Além disso, o Brasil é um pais que sofreu grande migração, principalmente da área rural para urbana. Essas duas características fazem com que os pais não sejam valorizados em sua cultura, e não conseguem ser referencia nem dar apoio para seus filhos.

A escola fica sobrecarregada, pois nela é depositada toda a educação.

Acontece que as criançasm passam apenas 4 horas do dia na escola: há pouca convivência com o outro, e aquilo que tem fora com a família é desvalorizado.

4) É preciso provocar mudança na escola, passando pela transformação dos professores - Os professores precisam se perceberem no mundo, na sociedade.

5) As crianças tem mais acesso ao conhecimento pelos recusros tecnológicos do que pela escola. Não há interesse na escola e no professor.

6) É preciso ter mais flexibilidade e possibilidades para o aluno escolher o que quer estudar, e montar individualmente seu plano escolar. Aqui foca na faculdade. "Porque o advogado precisa de 5 anos para se formar? o médico seis? o jornalista quatro?"

7) O saber é coletivo. O conhecimento é coletivo. Fica identificada a pessoa que mais elegantemente sintetiza a ideia.

8) Hoje o importante é a interação entre as pessoas, alunos e professores, e não a hierarquia.

9) Para pensarmos no conteúdo que vai ser ensinado nas escolas, precisamos pensar na sociedade que queremos. Para que queremos nos preparar?

10) Para que tipo de economia vamos preparar os alunos? O sistema de ensino deve ser preparado para isso.

11) O Brasil não pode só assimilar conhecimento, mas ter condições de inovar. Assimilando fica sempre atrás, sem competitividade.

12) Diferente do Brasil, nos EUA as universidades não tem medo do governo e das empresas. Não vão ser punidas nem compradas. São independentes.

13) É preciso de valores de liberdade para as pessoas pensarem.

14) A mudança sedá por contagio e não por planos de salvação. e na educação vai ser assim.

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Olá Carla
Gostei de sua proposta e te parabenizo pela iniciativa.
Vou começar pelo final do texto, onde o nosso ilustre Ex Presidente, afirma:

- A mudança se dá por contagio e não por planos de salvação e na educação vai ser assim.

- É preciso de valores de liberdade para as pessoas pensarem.


Sou educadora e como tal passo por diferentes dilemas no meu dia a dia. Um dos que mais preconizo é a liberdade de pensamento, de sentimentos e de respeito pelo o outro.

Vivemos em uma sociedade onde a individualidade tem sido desrespeitada a todo momento, isso em diferentes segmentos de nossa sociedade. Portanto, na escola não seria diferente. Ser diferente é algo que exige um constante enfrentamento de ideias e de padrões estabelecidos e que muitos deles não são "bem vistos" na sociedade e nem no universo escolar.

Travamos uma batalha constante pela igualdade, não percebemos que ao eleger esse conceito como um passaporte para uma vida íntegra, estávamos discriminando os demais, pois pelo que entendo nascemos diferentes e assim sendo morremos com as nossas diferenças. Não entendo que para se obter um lugar ao sol, temos que ficar a disposição de uma cadeia de valores, onde o ser humanos é avaliado pelo "ter" e não pelo "ser".

A escola é um espaço que se diz democrático, portanto, pensar e agir deveria ser o seu maior instrumento de avaliação. Uma escola que não vive a liberdade de pensamento, de criação e de trabalho humanizado, não cria indivíduos autônomos. E esse é o nosso grande desafio.

Ser alunos autônomos requer infraestrutura técnica, espaços para criação e professores capacitados e valorizados no seu fazer pedagógico. Enquanto a educação for mercadoria de menor valor comercial, seremos apenas um subproduto dessa mesma filosofia.

Sem dúvida hoje o acesso a escola é maior, mas não podemos esquecer que as políticas públicas que foram adotadas, foram as piores escolhas que se poderia fazer, menos no quesito valor( preço), pois era a que menos investia na educação como um todo. Por isso, pensar é bem diferente de agir.

Enquanto acreditarmos que a educação é algo caro e portanto a sociedade não valorizá-la, tudo que será feito será apenas "mais uma inovação" para justificar o que deve ser feito.

Concordo que a escola pública deva ser de horário integral. Concordo que os alunos tenham que ler mais. Concordo que o acesso as novas fontes de conhecimento possuem um valor que deve ser agregado no espaço escolar, mas nunca substituirá o papel do professor.

Trabalhar de forma que os alunos sejam autônomos e escolham o seu prório currículo, requer ainda por parte de nós educadores um longo caminho a percorrer. Acho a ideia brilhante, mas ainda distante de uma clientela que nós sabemos que não sabe " onde está o seu desejo", portanto se sentirá solta, sem preparo mais uma vez para enfrentar novos desafios.

Concordo que a escola, deve mais do que nunca, se preocupar na educação "técnica", isto é, dar a oportunidade para o aluno com os seus 18 anos, já saiba o que irá escolher enquanto uma possível escolha profissional. No ensino médio se trabalhássemos com projetos, talvez essa seja uma fonte de enriquecimento, para que o aluno pense e reconheça que suas ideias são valiosas e produtivas.

Temos atualmente alunos no ensino médio, achando que a vida adulta é uma beleza, que tudo cairá do céu! Isso se deve a ideia que a família vem construindo, de que tudo é fácil e que com o jeitinho tudo se resolve. Isso acontece independente de sua posição social. Estamos criando os nossos filhos sem menor responsabilidade por sua vida e muito menos pela vida do outro.

Vejo sempre que vem governo e passa governo e a mentalidade de que tudo que é de fora é ótimo. Sem ao menos refletirmos que a nossa realidade fica abaixo do equador, rs.

Eu sinto por ele ter sido Presidente e pouco fez pela educação nesse país. Passamos anos em cima de leis defasadas e por constantes ataques aos nossos cientistas, ao ponto que muitos foram fazer o seu doutorado fora daqui. E isso será por que?

Enquanto as escolas privadas vencem o capitalismo selvagem, as escolas públicas viram uma selva.

Um abraço e obrigada pela oportunidade de me expor. Peço-lhe a permissão de postar em meu blog o seu texto.

Natalícia

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Holocausto " Nunca Mais" - Guga Dorea

Com o tema “A Prevenção Global do Genocídio: Aprendendo com o Holocausto”, um dos acontecimentos mais trágicos que chocou o mundo no século XX foi alvo de debates, nesse último mês de junho, no Seminário Global de Salzburgo, Áustria. Segundo o ex-secretário da Organização das Nações Unidas (ONU), Kofi A. Annan, o que se espera desse encontro é produzir um programa anual sobre o nazismo para servir de apoio aos professores do 2º grau de todo o planeta.

No artigo “O mito do ‘nunca mais’ em relação a genocídios”, Annan, reiterou a importância histórica de um tema como esse fazer parte do currículo programático das escolas. Para o atual presidente honorário do comitê do Programa de Prevenção do Genocídio e Educação sobre o seminário de Salzburgo, é fundamental que a partir desse aprendizado escolar os estudantes incorporem para si valores universais como os direitos humanos, a tolerância, além de rejeitarem o racismo e qualquer tipo de preconceito estigmatizante.

No entanto, enfatiza Annan, “é surpreendentemente difícil encontrar programas educacionais que tenham apresentado sucesso indubitável em vincular a história do Holocausto à prevenção de conflitos étnicos e genocídios no mundo de hoje”. Nesse contexto, reitera o ex-secretário, “não há dúvida de que é chegado o momento de levantar algumas questões difíceis a respeito da educação ‘tradicional’ sobre o Holocausto. Será que programas focados no sistema e na ideologia nazistas, e particularmente na experiência horrenda dos seus milhões de vítimas, se constituem em uma resposta efetiva aos desafios que enfrentamos atualmente?”.

Ampliando a pergunta realizada por Annan: qual será o significado de aprendizado sobre o Holocausto na vida particulares dos alunos? Se formos pensar o que foi na prática o nazismo, tratou-se de levar às últimas conseqüências a institucionalização da já histórica, inclusive nas escolas norte-americanas no início do século XX, separação dos seres humanos em “iguais” e “diferentes” entre muitas outras dicotomias excludentes. Uma suposta anormalidade começou a ser vista como perigosa, capaz de contaminar os “puros” e “perfeitos”, sendo necessário, portanto, implantar um processo radical de extermínio.

Não por acaso, além das câmaras de gás para os judeus, Hitler defendeu abertamente a eugenia para as chamadas hoje pessoas com deficiência, além de perseguir violentamente os ciganos e homossexuais. Talvez também não tenha sido coincidência que logo após o término oficial do Nazismo, movimentos sociais de famílias passaram a lutar pela inclusão de seus filhos no sistema regular de ensino e pelo fim da estigmatização. Mas será que, mesmo com a inclusão, essa dicotomização já foi superada subjetivamente?

Independente da resposta, vale ressaltar que a experiência concreta da inclusão trouxe a possibilidade de aprendermos a lidar com o considerado, histórica e culturalmente, “diferente” do modo de vida dominante. Voltando então à problematização trazida por Annan em relação ao ensino tradicional sobre o Holocausto, podemos então generalizar o debate para uma crítica real em torno do que o pedagogo e pensador brasileiro, Paulo Freire, chamou de “educação bancária”.

Pensando nas características do ensino tradicional, trata-se, segundo ele, de “encher” os educandos de conteúdos narrativos, de “retalhos da realidade desconectados da totalidade”, o que significa na prática esvaziar a palavra de sua concretude, alienando o receptor da mensagem da realidade que o cerca, além de configurar um individuo extremamente egocêntrico, no qual a existência do Outro não faz mais diferença.

A simples narração de conteúdos históricos, já nos mostrou Freire, tende a petrificar o conhecimento e. nessa forma de educar, o educando tende a se tornar um ser paciente. Não há mais a práxis e muito menos a criatividade transformadora. Quanto ao ensino do Holocausto, é possível dizer que ele esteja recheado de “fatalismo”, porém desligado da realidade cultural e singular do aluno, o mesmo ocorrendo com os conteúdos em geral apresentados no dia a dia alienante das escolas tradicionais.

Buscando inspiração na inclusão da pessoa com deficiência, estamos diante de uma oportunidade, quem sabe inédita, para pensarmos em uma educação mais democrática, em que a singularidade do aluno passe a ser levada em consideração, em que a percepção de seus dilemas concretos possa fazer pontes com realidades históricas aparentemente distantes de suas vidas. Caso as escolas não partirem para experiências concretas de que somos iguais como seres humanos e diferentes em nossas singularidades, dificilmente conseguiremos impedir que novos “holocaustos”, desde os mais imperceptíveis até os grandes genocídios, voltem a nos assustar.



Colaboradores: Andréa Paes Alberico, Elisa Helena Rocha de Carvalho, José J. de Carvalho, Frei João Xerri e Thomaz Ferreira Jensem

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

O mundo em transição - "Planeta Sustentável"

O movimento inglês Transition Towns, criado e disseminado pelo inglês Rob Hopkins, transforma cidades em modelos sustentáveis e independentes de crises externas



Imagine cidades inteiras sustentáveis, baseadas no comércio local, independentes do petróleo e de importações de alimentos. Pois elas já existem graças à visão e ação de Rob Hopkins, criador do movimento Transition Towns (Cidades em Transição). Assustado com a dependência exterior do Reino Unido em combustível e alimentação e sabendo que esse cenário de mudança climática e escassez de petróleo só irá piorar nos próximos anos, Rob decidiu que apenas suas ações individuais como permaculturista não iriam bastar.

Com a sua vasta experiência em ecovilas e como professor de universidade, construiu um plano de mudança com o objetivo de alcançar a resiliência que, neste caso, significava a capacidade de sobreviver a choques externos como a escassez do petróleo, crises na produção de alimentos, falta de água e energia. Incluiu, nesse plano, todos os setores da sociedade - governo, setor privado e cidadãos - e todos os aspectos da vida cotidiana - saúde, educação, transporte, economia, agricultura e energia.

Sua primeira vitória foi em 2005, em Kinsale, na Irlanda, onde ensinava na universidade local, com a histórica decisão que levou o município todo a adotar o movimento como seu plano de gestão. Hopkins mudou-se então para Totnes, na Inglaterra, e transformou-a em vitrine do movimento. Devagar, a cidade de 8 mil mil habitantes pretende chegar em 2030 totalmente transformada e independente. Hoje já são mais de 110 cidades, bairros e até ilhas em 14 países do mundo convertidas na Transição.

O conceito é simples - apesar de trabalhoso - e flexível. Segundo Hopkins, cada comunidade adapta os doze passos iniciais do movimento à sua realidade e capacidade. Esses itens são apenas guias de como começar a quebrar a nossa dependência do petróleo, revendo os modelos de economia, comida, habitação e energia. Assim, essas cidades funcionam tanto no Japão quanto nos Estados Unidos ou no Chile. A idéia é parar de depender - ou depender minimamente - da tecnologia e voltar ao tempo onde não precisávamos de geladeiras, carros, tratores e aviões. Técnicas e conhecimentos dos nossos avós e ancestrais são valorizados e resgatados.

Uma das frentes do movimento reeduca a população e estudantes em aptidões como costura, gastronomia, agricultura familiar, pequenos concertos e artes manuais como marcenaria. Iniciativas incluem a criação de jardins comunitários para plantio de comida, troca de resíduo entre indústrias ou simplesmente o reparo de itens velhos, ao invés de jogá-los no lixo. O investimento em transporte público e a troca do carro pela bicicleta é inevitável para a redução das emissões de carbono. Em Totnes até uma nova moeda - a libra de Totnes - foi criada para incentivar e facilitar transações com produtores locais.

Diferente dos fatalistas que prevêem o fim do mundo em 2012 ou quadros horríveis de fome, seca e morte, os adeptos do Transition Towns têm uma visão realista, mas positiva, do futuro. Acreditam na ação transformadora de comunidades e no trabalho pesado para mudar as estatísticas. Em entrevista exclusiva ao Planeta Sustentável, Rob Hopkins fala sobre a origem permaculturista do movimento e de seu futuro.

Como surgiu a idéia do Transition Towns?

Toda a idéia do movimento surgiu através do meu trabalho como permacultor e professor de permacultura nos últimos dez anos. Quando comecei a me aprofundar sobre a crise de combustível e mudança climática, as ferramentas de resposta sobre o assunto eram as de permacultura. Mas o que eu percebi é que, apesar de a permacultura ser o sistema de design ideal para isso, o movimento é ainda muito pouco conhecido e tem quase uma aversão embutida ao mainstream. Por isso, o que quis fazer através do Transition foi criar um modelo em que a permacultura fosse implícita ao invés de explícita, que ela estivesse escondida dentro do processo para que as pessoas a descobrissem se assim a desejassem.

Como você definiria o movimento?

Ele ainda está numa fase inicial de implementação, ainda é muito novo, mas é muito simples. É um modelo de doze passos que leva ao processo de quebra da dependência de combustível. E, assim, abrange tudo: comida, economia, moradia e por aí vai. É aplicar os princípios de permacultura para esse objetivo de independência, mas com a esperança de abranger muito mais pessoas, em todos os setores, não somente os que originalmente se interessariam pelo assunto. O movimento quer ser positivo e focado, mas também muito inclusivo. Ele tenta apelar para todos igualmente. E acho que aí está a chave de seu sucesso.

Você conseguiu um fato inédito de incluir governo, comércio, todos os setores nos planos das cidades. Como isso foi feito?

Com muito trabalho de persuasão e organização. É muito difícil, mas precisava acontecer. A permacultura precisava avançar muitos passos e rapidamente porque segura peças importantes do quebra-cabeças que vão ser os próximos dez anos. Não temos muito tempo a perder.

Já são mais de 110 comunidades engajadas no movimento, mas apenas uma na América Latina: no Chile. Você acha mais difícil os países em desenvolvimento se engajarem?

No Brasil, existem algumas pessoas interessadas no movimento, mas esse interesse ainda está no nível do contato e não da participação ativa. Acho que os desafios são diferentes porque o que focamos é a idéia de ser resiliente, ou seja, a necessidade de reconstruir o modelo de sociedade. Aqui no Reino Unido, por exemplo, nós desmontamos tudo e acabamos com a possibilidade de nos mantermos de forma independente. Nós nos tornamos dependentes do comércio internacional e compramos o que queremos pelo menor preço possível de outros países. Com isso, nos isolamos e nos colocamos no lugar mais perigoso que existe.

Nos países em desenvolvimento ainda há mais independência, mas isso começa a ser desvalorizado, a se perder e a ser destruído. Acho que, nesse caso, a primeira coisa a fazer é colocar o valor de volta na produção de alimentos e nos conhecimentos tradicionais, porque, quando perdemos o valor nessas áreas, é muito difícil recuperar. Mas o movimento se traduz para todos os tipos de sociedade e casos. Não é rigoroso, é apenas um conjunto de princípios que pode ser adaptado a cada realidade, a cada cultura e contexto. É mais um convite do que um modelo rápido e duro.

Quais são os novos desafios do Transition Towns?

Estamos desenvolvendo um modelo de treinamento, um curso de dois dias em que as pessoas aprendem tudo o que precisam para começar a transformar suas comunidades. Esse treinamento é uma organização que está formando grupos de treinadores em todo o Reino Unido e começa a atuar, também, nos Estados Unidos, Canadá, Japão, Austrália e Nova Zelândia. Também estamos começando a dar consultoria para empresas em como elas podem ser mais independentes de combustível e mais sustentáveis. Trabalhamos também com o governo local para encontrar soluções. Assim, enfrentamos todas as frentes: sociedade, comércio e governo. Além disso, o “The Transition Handbook - from oil dependency to local resilience” (Ed. Green Books) está sendo traduzido em várias línguas e pode ser comprado através do nosso site.



Fonte: Thais Oliveira – Edição: Mônica Nunes

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

A " progressão continuada" da miopia dos políticos sobre a Educação






No debate entre os candidatos à presidência da república, na rede Bandeirantes, a candidata Dilma Roussef disse que pretende acabar com a progressão continuada no ensino fundamental, e no debate subsequente, entre os candidatos ao governo de São Paulo, os candidatos Aloizio Mercadante e Paulo Skaf prometeram a mesma coisa. Este ponto de vista, vindo de candidatos “desenvolvimentistas”, ligados ainda à era industrial, onde as pessoas eram educadas para serem massa de manobra, não chega a causar espanto. O mais surpreendente foi o fato dos demais candidatos não se terem posicionado contra. Isso levanta a suspeita de que nenhum deles, nem suas assessorias, compreende realmente porque a educação pública no Brasil vai tão mal.

A Progressão Continuada foi criada para substituir uma concepção de avaliação escolar punitiva e excludente, por uma concepção comprometida com o progresso da aprendizagem e o desenvolvimento humano. O sistema antigo, com a possibilidade de reprovação anual, era nefasto para a educação sob vários aspectos.

Em primeiro lugar, durante o ensino fundamental, as crianças estão num período intenso de seu desenvolvimento humano, e, para cada idade, há práticas pedagógicas mais adequadas para estimular o aprendizado em sala de aula. Assim, quando há alunos de várias idades numa mesma classe, prejudica-se esse trabalho, e todos perdem, alunos e professor. Como isso é um fato reconhecido na prática, o que acabava acontecendo em nossas escolas estaduais, é que eram formadas classes só com os alunos mais “difíceis”. Aí, pelo sistema de dotação de classes por pontuação, estes alunos acabavam sobrando para os professores com menor experiência. Aliás, isso ainda ocorre hoje com os alunos retidos em cada ciclo do fundamental.

Chegamos assim ao segundo ponto negativo da retenção anual: a discriminação. O aluno retido sente-se rejeitado, estigmatizado, com sérias consequências para sua auto-estima. E, além de ser excluído do processo de socialização com outras crianças de sua idade, há um forte desestímulo por ele ter de passar de novo pelos mesmos conteúdos, numa escola que, salvo raras exceções, não tem uma prática pedagógica estimulante. O aluno que tiver sucessivas e desestimulantes retenções no percurso escolar vai aumentar as estatísticas da evasão escolar e acaba buscando outros meios de inserção social, através de gangues, drogas e criminalidade. Este processo é totalmente contrário a um dos princípios mais caros aos verdadeiros educadores: A educação precisa proporcionar oportunidades iguais de desenvolvimento humano a todos os indivíduos. Todo cidadão deve ter direito a uma educação básica completa, independente de classe social, religião, gênero e raça, e ninguém deve ser excluído desse direito devido a ser, aparentemente, menos capaz de aprender.

O terceiro ponto negativo, e não menos grave, é que a possibilidade de reprovação incute nos alunos o medo de errar, como se errar fosse a pior coisa que pode acontecer. Este medo vai, com o tempo, matando a criatividade e o protagonismo destas crianças, que chegarão à idade adulta sem a capacidade de ter ideias originais. Nós não sabemos como será o mundo onde nossas crianças vão viver, e quais os desafios que terão de enfrentar, mas tudo indica que a sustentabilidade planetária vai depender da instituição de uma economia muito mais criativa. Assim, a criatividade precisa ser tratada com a mesma importância que a alfabetização.

A progressão continuada não é, portanto, o vilão. O que falta, em primeiro lugar, é a “progressão continuada” do professor. Explico:

Embora a formação em Pedagogia, teoricamente, prepare o professor para lecionar em qualquer ano do ensino infantil ou fundamental de 1º ao 5º ano, ele normalmente se especializa no conteúdo relativo a um único ano escolar, e a cada ano pega uma nova turma de alunos para ensinar o mesmo conteúdo. Seu foco é com o conteúdo, e não com os alunos. Este é um paradigma tão cristalizado, que ninguém ousa imaginar que possa haver outro modelo de relação entre professor e aluno. Desta forma, o professor não se compromete com o desenvolvimento e o sucesso futuro dos alunos. Se a criança tem dificuldades, é cômodo transferir a culpa para a família ou para o professor anterior, e ela será problema do próximo professor. Também é fato que, para se manter com um baixo salário, é comum o professor assumir uma carga horária muito alta, trabalhando em vários períodos, o que inviabiliza um envolvimento mais profundo com seus alunos. Nossas políticas públicas não estimulam o comprometimento do professor com o desenvolvimento individual dos alunos por longo prazo, nem uma aproximação efetiva do professor com as famílias, e, no fim, ninguém é responsabilizado pelo fracasso de um aluno.

Deveríamos então criar um novo nível profissional: o Professor Formador, que poderia ser, inicialmente, um nível optativo. Este professor assumiria seus alunos no 1º ano do ensino fundamental, e os conduziria até o 5º ano, ministrando as matérias básicas do currículo. Outras matérias como educação física, língua estrangeira, artes etc, poderiam ser ministradas por outros professores. Assim, este professor teria condições de conhecer a fundo cada aluno, seu temperamento, suas qualidades e dificuldades, e sua família, para poder atuar da melhor maneira com cada um. Desta forma, o aluno que tiver algum tipo de dificuldade, terá de ser acompanhado de perto pelo professor. Caso este não tenha condições de atendê-lo sozinho, deverá socializar o problema com a equipe escolar, buscar ajuda com a família, ou apoio especializado, se for o caso (psicólogos, fonoaudiólogos, conselho tutelar etc). Ele teria então a responsabilidade de que, no 5º ano, a formação de seus alunos tenha atingido os níveis adequados. Hoje, nenhum professor tem esta responsabilidade, só o aluno. Assumindo perante os pais o compromisso de conduzir seus filhos por uma etapa importante de sua formação, o professor renovaria seu papel social. E, claro, este professor formador precisaria ser bem preparado e ter remuneração adequada para poder dedicar-se a apenas uma turma de alunos.

Este seria o primeiro passo para termos uma educação comprometida com o desenvolvimento humano, focada no indivíduo, e não apenas no ensino de algumas matérias. Afinal de contas, tudo que nossa civilização criou até hoje foi, em última instância, fruto de realizações individuais. Portanto, deve ser uma missão primordial da educação estimular cada criança a desenvolver seus talentos individuais, e só o professor tem a oportunidade de conhecer o aluno como indivíduo. Isso nem o estado ou as editoras conseguem. Já existem escolas em todo o mundo usando este modelo de relação entre professor e aluno, inclusive no Brasil, em escolas comunitárias e até em algumas escolas públicas.

Outros passos necessários incluem a autonomia pedagógica da escola, intensificação do uso das artes como instrumento pedagógico, avaliação integral, reformulação da prática pedagógica e dos currículos para formação dos educadores, entre outros.

Não cabe detalhar todos os aspectos deste modelo de educação no âmbito deste artigo, mas é fundamental que nossos futuros governantes percebam que o mundo mudou, e vai continuar mudando rapidamente. Não basta que os jovens saiam das escolas com prática em passar em provas e vestibulares. Não basta apenas ter conhecimento, pois este está cada vez mais disponível, e sempre pertence ao passado. O futuro depende da sensibilidade, da sociabilidade, da moralidade, da responsabilidade, da solidariedade, do senso estético, e também da vontade de atuar no mundo, com iniciativa, criatividade e coragem, e de outras qualidades intrínsecas ao desenvolvimento humano que as políticas de educação desprezam. E mais, nenhum ser humano deve ser educado para servir a propósitos estatais, ou interesses econômicos. Deve ser educado e desenvolver-se para si mesmo, e de forma que adquira autonomia e capacidade para encontrar propósito e direção para sua vida.



*Rubens Salles é mestre em Educação, Arte e História da Cultura, e pesquisador do Instituto ArteSocial. http://www.institutoartesocial.org.br/ rubens@artesocial.org.br

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

"Escola é inimiga do ócio criativo"

O sociólogo italiano Domenico de Masi, autor de diversos e revolucionários livros — entre eles, os best sellers Desenvolvimento sem trabalho (Editora Esfera) e A emoção e a regra (Ed. José Olympio,)  é um dos mais polêmicos e inovadores pensadores da era pós-industrial. de Masi esteve no Brasil durante a última semana de abril, para lançar o livro O ócio criativo (Ed. Sextante, 328 págs. Entre várias atividades, fez três palestras em São Paulo: uma promovida pela livraria e editora Saraiva, no hotel Intercontinental, outra nas Faculdades Domus e a terceira no último domingo (30/04), na Bienal Internacional do Livro de São Paulo.


Todas estiveram lotadas, com um público variado composto por empresários, professores, estudantes, profissionais de marketing, letras e, claro, trabalhadores. Nas Faculdades Domus, de Masi recebeu o título de professor emérito, "por suas relevantes contribuições nas Ciências Sociais". Ele agradeceu, sem muitas delongas, abreviando formalidades, com seu jeito encantadoramente "carcamano" de ser. O italiano está na crista da onda nos círculos de intelectuais brasileiros — quase como a novela Terra Nostra, no auge do drama, esteve para a massa.

De Masi, como definiu a jornalista italiana Maria Serena Palieri, cuja entrevista com o sociólogo se transformou no livro O ócio criativo, é um militante pela "redistribuição do tempo, do trabalho, da riqueza, do saber e do poder". Proferindo frases de efeito do tipo "o homem que trabalha perde tempo precioso", de Masi faz todo tipo de gente parar e questionar por que correr tanto para ganhar dinheiro e acumular bens.

Em seu discurso simples e lógico, não há razão nem vida longa aos workaholics — mesmo porque o desemprego ronda a globalização como urubu em torno de carniça e a mão-de-obra humana está sendo substituída por máquinas. E o tempo livre que foi delegado à humanidade ou conquistado por ela pode e deve ser bem aproveitado — e nunca "amargado" em depressão.

"Dos 6 bilhões de habitantes do mundo, somente 1,5 trabalham — o resto não conhece ou não tem acesso ao ritmo pós-industrial de trabalho", contabiliza de Masi, na introdução de seu raciocínio. "Se a vida média útil de um ser humano tem hoje cerca de 530 mil horas, o tempo médio gasto com o trabalho é de apenas 80 mil horas (considerando a jornada universal de 40 horas por semana). Restam 220 mil horas, passadas dormindo, e mais 220 mil horas livres, reservadas para a pessoa fazer o que lhe der na telha. Esse tempo pode ser aproveitado de maneira criativa, saudável e produtiva, no sentido mental e físico."

Ditadura da correria

Como não concordar com ele? O trabalho, de acordo com as leis e com o advento da tecnologia, foi reduzido à metade neste século. No entanto, o modelo de civilização desenvolvida, adotado pelos EUA e Japão, pragmatiza o trabalho como a principal razão de viver. "Todos correm como loucos, nunca têm tempo para nada — nem mesmo para usufruir da riqueza que acumularam. Os norte-americanos vão a supermercados nos feriados comprar coisas inúteis, acumulando dívidas que passarão a vida pagando — e trabalhando para isso. Vocês, brasileiros, têm um ritmo cultural de vida que ainda pode escapar dessa ditadura!", conclama de Masi, animado. Nessa altura, a platéia está boquiaberta.

Simpático e bonachão, o professor italiano continua sua aula em defesa do ócio criativo, ou seja, do aproveitamento do tempo livre de cada dia — ou noite. Ele defende que, no caso de trabalhadores intelectuais (especialmente os professores) — aqueles que usam mais o cérebro do que o corpo, e que são maioria na sociedade pós-industrial —, as melhores sacadas podem brotar na hora em que não têm absolutamente nada a fazer — a não ser deixar a mente viajar. Não é preciso forçar esse estado de letargia. Ele vem naturalmente, quando a pessoa consegue relaxar — coisa difícil na era do consumismo e da informação.

"Podemos gastar nosso tempo livre com atividades que não nos cansam ou alienam, mas que nos excitam. Os despertadores e burocratas são os maiores inimigos do ócio criativo", diz. "Só que as pessoas, consumidas pelo trabalho, não percebem como aproveitam mal seu tempo livre. Não lembram sequer que têm direito a ele", continua. Em tempo: De Masi lembra de outros inimigos do ócio criativo — a religião e a escola. "A Igreja prega o trabalho como um 'castigo divino' e a escola prepara indivíduos para seguirem o modelo atrofiante da sociedade consumista."

Autonomia e sabedoria

É claro que, para usufruir da liberdade com autonomia e sabedoria, é preciso praticar "a educação para o ócio". de Masi alerta que a sociedade pós-industrial já se encarrega também de programar nosso tempo livre. "Enquanto estamos aqui, os produtores de Hollywood estão trabalhando em filmes para assistirmos; os McDonald's estão fabricando novos sanduíches para comermos e a televisão está anunciando programas que não podemos perder."

De Masi adverte: para sermos, de fato, donos do nosso destino, é preciso refletir sobre ele e isso só é possível com o ócio criativo. Certo de que o stress causado pelo excesso de trabalho e pela supervalorização dele só leva certeiramente a um destino mais rápido — a morte —, de Masi salienta que a beleza e o prazer da vida está, principalmente, em coisas que fazemos "sem gastar um tostão": fazer amor, encontrar amigos, folhear uma enciclopédia, meditar e deixar o tempo correr, sem nenhuma ansiedade.

Certo também de que o comunismo, embora quisesse distribuir a riqueza mas não soubesse produzi-la, perdeu terreno para o capitalismo, que sabe produzir riqueza mas não distribuí-la, de Masi alimenta a possibilidade de criar um novo sistema político, que possa se adequar às necessidades humanas — e não fazer dos indivíduos reféns dele. Otimista? "Sim, acho que evoluímos muito, apesar de tudo. Temos um futuro brilhante nas mãos — e temos tempo de sobra para aprendermos a conduzi-lo em nosso favor".

Domenico de Masi é professor titular do curso de Sociologia da Universidade La Sapienza, de Roma, membro do comitê científico de várias revistas italianas e diretor-responsável da revista Next - Strumenti per l'Innovazione (que pode ser editada no Brasil, encartada no jornal Valor Econômico), além de atuar como consultor organizacional, por meio de seu instituto-escola S3 Studium, para empresas como Fiat, IBM e Pirelli.

Como se vê, trabalho é o que não falta a de Masi. Mas, entre uma palestra e outra no Brasil, ele achou tempo para conceder a entrevista a seguir.


Como o senhor chegou às suas conclusões sobre o ócio criativo?


Domenico de Masi - Estudei primeiro o trabalho dos operários; depois o trabalho dos empregadores. Com o aumento do trabalho intelectual no sistema produtivo, notei que havia uma distinção cada vez mais tênue entre o trabalho propriamente dito e a criatividade. E sendo a criatividade a principal ferramenta do trabalho, fica difícil distinguir os momentos em que estamos de fato trabalhando duro ou os momentos em que, mesmo usufruindo de tempo livre, estamos criando coisas. Isso acontece comigo: não sei quando estou trabalhando ou me divertindo — estou sempre tendo idéias, criando. Então, estudando esses grupos de trabalho sustentados pela criatividade, percebi que todos trabalhavam com o auxílio de jogos, brincadeiras, atividades lúdicas. Demonstrei que todos os grupos de criatividade trabalham como se fosse lazer. Sobre esse estudo, escrevi o livro A emoção e a regra.

É possível todos os trabalhadores desenvolverem essa relação entre trabalho e lazer, ou seja, tornar seu trabalho mais prazeroso?

Domenico de Masi - Depende do tipo de trabalho que você faz. Temos aquele trabalho que casa com o estudo. É como um jornalista ou o trabalho de um cientista. Ou estudar medicina com alguém divertido. Ou o trabalho de um ator. O problema é unir as duas coisas e ter uma atividade na qual coexistam estudo, trabalho e tempo livre. O segredo é buscar uma interseção entre tudo isso. Assim qualquer pessoa poderá vivenciar melhor seu ócio criativo.

Transportando essa relação para a escola, então...

(De Masi mostra um gráfico em que desenhou três esferas: uma com nome trabalho, outra com o nome lazer e outra referente ao tempo livre. Ele simplesmente faz um sinal com a caneta, mostrando o que acontece na prática.)


Domenico de Masi - A escola tradicional só faz interseção com o trabalho. Nunca com o lazer e o tempo livre.

Qual seria a maior falha dos atuais sistemas de ensino, já que a escola e os professores são considerados pelo senhor como os principais inimigos do ócio criativo? O que pode ser feito, em termos de transmissão de conhecimento, para que essa realidade comece a mudar?

Domenico de Masi - Para começar, as escolas devem abolir, a todo custo, a imagem ou idéia de que o estudo deve ser algo penoso e chato — exatamente como o trabalho. No entanto, o sistema pede que as escolas preparem as crianças para serem trabalhadores eficazes. É preciso que as escolas incorporem mais atividades lúdicas, que provoquem espaço para a reflexão e o questionamento.

Por outro lado, é necessário que professores se aperfeiçoem para tornar a transmissão de conhecimento algo mais interessante e menos massacrante, mecânico. O professor que não tenha ido à Europa, ou sequer navegado pela internet não pode ensinar nada a ninguém. O professor que não usa a internet é um delinqüente! (risos) É preciso resgatar a dignidade entre escolas, professores e alunos. Acho que essa mudança vai acontecer naturalmente, à medida em que morrem os professores antigos e chegam os jovens. Para os jovens, a criatividade simplesmente flui.

No Brasil, há 40% de analfabetos e a maioria dos professores é mal remunerada, têm deficiências de formação e, efetivamente, não tem condições de ir à Europa ou de navegar na internet. O que fazer então?

Domenico de Masi - Não estou falando para o universo dos analfabetos nem do ensino público brasileiro, e sim para o universo dos alfabetizados, em especial os professores. E, se os professores brasileiros são carentes, o país é carente. Esse é o problema primordial do Brasil. Os ricos, a elite, parecem não entender isso. Está principalmente na mão da elite brasileira resolver ou não essa questão. Só ela tem as ferramentas para isso. É sua contribuição social. O Brasil tem dois países num só — o dos ricos e o dos pobres.

Falando de questões da sociedade pós-industrial, como a globalização e o desemprego, como o desempregado pode desenvolver seu ócio criativo?

Domenico de Masi - Se o desempregado é rico, então tudo bem! Há dois tipos de desempregados: o pobre financeiramente e intelectualmente e o rico financeiramente e com boa formação intelectual. Esse pode se ocupar de música, literatura, cinema e tem mais chances de desenvolver seu ócio de maneira criativa. O pobre precisa comer, precisa de dinheiro. O pobre tem de se ocupar com a sobrevivência. O ócio criativo é um problema de ricos, para quem já tem um mínimo de estrutura garantida.

Qual é o projeto que o S3 Studium pretende desenvolver no Brasil? O que é preciso para os interessados participarem dele?

Domenico de Masi - Fechamos um acordo com a faculdade Getúlio Vargas para criar em São Paulo uma sede da escola. Formamos jovens para que se tornem planejadores — de uma empresa, escola, jornal ou bairro. Estamos formando agora os professores. Depois, em 2001, começaremos a formar alunos brasileiros. Ainda não estamos selecionando alunos, mas eles só precisam ter um diploma universitário e vontade de mudar o sistema para se juntarem a nós.


A tabela abaixo demonstra a proporção do trabalho na vida de um ser humano do século XX.


Evidencia a importância da organização do Tempo Livre já disponível.

O que De Masi propõe como Ócio Criativo.

Anos Horas Total (hrs) Fórmulas

Expectativa de vida 70-  24 604.800 (70a*24h*365d)

Trabalho (18 - 53) 35 10 80.850 (35a*10h*11m*21d)

Sono 70 8 204.400 (70a*8h*365d)


Horas livres

319.550 (Expectativa de vida) - (Trabalho) - (Sono)



Fonte: Romanticos Conspiradores.