Peabirus: Um pouco de Leonid Afremov
Grata Denise.
Boa semana a todos!
Natalícia
sábado, 28 de agosto de 2010
quinta-feira, 26 de agosto de 2010
Holocausto " Nunca Mais" - Guga Dorea
Com o tema “A Prevenção Global do Genocídio: Aprendendo com o Holocausto”, um dos acontecimentos mais trágicos que chocou o mundo no século XX foi alvo de debates, nesse último mês de junho, no Seminário Global de Salzburgo, Áustria. Segundo o ex-secretário da Organização das Nações Unidas (ONU), Kofi A. Annan, o que se espera desse encontro é produzir um programa anual sobre o nazismo para servir de apoio aos professores do 2º grau de todo o planeta.
No artigo “O mito do ‘nunca mais’ em relação a genocídios”, Annan, reiterou a importância histórica de um tema como esse fazer parte do currículo programático das escolas. Para o atual presidente honorário do comitê do Programa de Prevenção do Genocídio e Educação sobre o seminário de Salzburgo, é fundamental que a partir desse aprendizado escolar os estudantes incorporem para si valores universais como os direitos humanos, a tolerância, além de rejeitarem o racismo e qualquer tipo de preconceito estigmatizante.
No entanto, enfatiza Annan, “é surpreendentemente difícil encontrar programas educacionais que tenham apresentado sucesso indubitável em vincular a história do Holocausto à prevenção de conflitos étnicos e genocídios no mundo de hoje”. Nesse contexto, reitera o ex-secretário, “não há dúvida de que é chegado o momento de levantar algumas questões difíceis a respeito da educação ‘tradicional’ sobre o Holocausto. Será que programas focados no sistema e na ideologia nazistas, e particularmente na experiência horrenda dos seus milhões de vítimas, se constituem em uma resposta efetiva aos desafios que enfrentamos atualmente?”.
Ampliando a pergunta realizada por Annan: qual será o significado de aprendizado sobre o Holocausto na vida particulares dos alunos? Se formos pensar o que foi na prática o nazismo, tratou-se de levar às últimas conseqüências a institucionalização da já histórica, inclusive nas escolas norte-americanas no início do século XX, separação dos seres humanos em “iguais” e “diferentes” entre muitas outras dicotomias excludentes. Uma suposta anormalidade começou a ser vista como perigosa, capaz de contaminar os “puros” e “perfeitos”, sendo necessário, portanto, implantar um processo radical de extermínio.
Não por acaso, além das câmaras de gás para os judeus, Hitler defendeu abertamente a eugenia para as chamadas hoje pessoas com deficiência, além de perseguir violentamente os ciganos e homossexuais. Talvez também não tenha sido coincidência que logo após o término oficial do Nazismo, movimentos sociais de famílias passaram a lutar pela inclusão de seus filhos no sistema regular de ensino e pelo fim da estigmatização. Mas será que, mesmo com a inclusão, essa dicotomização já foi superada subjetivamente?
Independente da resposta, vale ressaltar que a experiência concreta da inclusão trouxe a possibilidade de aprendermos a lidar com o considerado, histórica e culturalmente, “diferente” do modo de vida dominante. Voltando então à problematização trazida por Annan em relação ao ensino tradicional sobre o Holocausto, podemos então generalizar o debate para uma crítica real em torno do que o pedagogo e pensador brasileiro, Paulo Freire, chamou de “educação bancária”.
Pensando nas características do ensino tradicional, trata-se, segundo ele, de “encher” os educandos de conteúdos narrativos, de “retalhos da realidade desconectados da totalidade”, o que significa na prática esvaziar a palavra de sua concretude, alienando o receptor da mensagem da realidade que o cerca, além de configurar um individuo extremamente egocêntrico, no qual a existência do Outro não faz mais diferença.
A simples narração de conteúdos históricos, já nos mostrou Freire, tende a petrificar o conhecimento e. nessa forma de educar, o educando tende a se tornar um ser paciente. Não há mais a práxis e muito menos a criatividade transformadora. Quanto ao ensino do Holocausto, é possível dizer que ele esteja recheado de “fatalismo”, porém desligado da realidade cultural e singular do aluno, o mesmo ocorrendo com os conteúdos em geral apresentados no dia a dia alienante das escolas tradicionais.
Buscando inspiração na inclusão da pessoa com deficiência, estamos diante de uma oportunidade, quem sabe inédita, para pensarmos em uma educação mais democrática, em que a singularidade do aluno passe a ser levada em consideração, em que a percepção de seus dilemas concretos possa fazer pontes com realidades históricas aparentemente distantes de suas vidas. Caso as escolas não partirem para experiências concretas de que somos iguais como seres humanos e diferentes em nossas singularidades, dificilmente conseguiremos impedir que novos “holocaustos”, desde os mais imperceptíveis até os grandes genocídios, voltem a nos assustar.
Colaboradores: Andréa Paes Alberico, Elisa Helena Rocha de Carvalho, José J. de Carvalho, Frei João Xerri e Thomaz Ferreira Jensem
No artigo “O mito do ‘nunca mais’ em relação a genocídios”, Annan, reiterou a importância histórica de um tema como esse fazer parte do currículo programático das escolas. Para o atual presidente honorário do comitê do Programa de Prevenção do Genocídio e Educação sobre o seminário de Salzburgo, é fundamental que a partir desse aprendizado escolar os estudantes incorporem para si valores universais como os direitos humanos, a tolerância, além de rejeitarem o racismo e qualquer tipo de preconceito estigmatizante.
No entanto, enfatiza Annan, “é surpreendentemente difícil encontrar programas educacionais que tenham apresentado sucesso indubitável em vincular a história do Holocausto à prevenção de conflitos étnicos e genocídios no mundo de hoje”. Nesse contexto, reitera o ex-secretário, “não há dúvida de que é chegado o momento de levantar algumas questões difíceis a respeito da educação ‘tradicional’ sobre o Holocausto. Será que programas focados no sistema e na ideologia nazistas, e particularmente na experiência horrenda dos seus milhões de vítimas, se constituem em uma resposta efetiva aos desafios que enfrentamos atualmente?”.
Ampliando a pergunta realizada por Annan: qual será o significado de aprendizado sobre o Holocausto na vida particulares dos alunos? Se formos pensar o que foi na prática o nazismo, tratou-se de levar às últimas conseqüências a institucionalização da já histórica, inclusive nas escolas norte-americanas no início do século XX, separação dos seres humanos em “iguais” e “diferentes” entre muitas outras dicotomias excludentes. Uma suposta anormalidade começou a ser vista como perigosa, capaz de contaminar os “puros” e “perfeitos”, sendo necessário, portanto, implantar um processo radical de extermínio.
Não por acaso, além das câmaras de gás para os judeus, Hitler defendeu abertamente a eugenia para as chamadas hoje pessoas com deficiência, além de perseguir violentamente os ciganos e homossexuais. Talvez também não tenha sido coincidência que logo após o término oficial do Nazismo, movimentos sociais de famílias passaram a lutar pela inclusão de seus filhos no sistema regular de ensino e pelo fim da estigmatização. Mas será que, mesmo com a inclusão, essa dicotomização já foi superada subjetivamente?
Independente da resposta, vale ressaltar que a experiência concreta da inclusão trouxe a possibilidade de aprendermos a lidar com o considerado, histórica e culturalmente, “diferente” do modo de vida dominante. Voltando então à problematização trazida por Annan em relação ao ensino tradicional sobre o Holocausto, podemos então generalizar o debate para uma crítica real em torno do que o pedagogo e pensador brasileiro, Paulo Freire, chamou de “educação bancária”.
Pensando nas características do ensino tradicional, trata-se, segundo ele, de “encher” os educandos de conteúdos narrativos, de “retalhos da realidade desconectados da totalidade”, o que significa na prática esvaziar a palavra de sua concretude, alienando o receptor da mensagem da realidade que o cerca, além de configurar um individuo extremamente egocêntrico, no qual a existência do Outro não faz mais diferença.
A simples narração de conteúdos históricos, já nos mostrou Freire, tende a petrificar o conhecimento e. nessa forma de educar, o educando tende a se tornar um ser paciente. Não há mais a práxis e muito menos a criatividade transformadora. Quanto ao ensino do Holocausto, é possível dizer que ele esteja recheado de “fatalismo”, porém desligado da realidade cultural e singular do aluno, o mesmo ocorrendo com os conteúdos em geral apresentados no dia a dia alienante das escolas tradicionais.
Buscando inspiração na inclusão da pessoa com deficiência, estamos diante de uma oportunidade, quem sabe inédita, para pensarmos em uma educação mais democrática, em que a singularidade do aluno passe a ser levada em consideração, em que a percepção de seus dilemas concretos possa fazer pontes com realidades históricas aparentemente distantes de suas vidas. Caso as escolas não partirem para experiências concretas de que somos iguais como seres humanos e diferentes em nossas singularidades, dificilmente conseguiremos impedir que novos “holocaustos”, desde os mais imperceptíveis até os grandes genocídios, voltem a nos assustar.
Colaboradores: Andréa Paes Alberico, Elisa Helena Rocha de Carvalho, José J. de Carvalho, Frei João Xerri e Thomaz Ferreira Jensem
quarta-feira, 25 de agosto de 2010
O mundo em transição - "Planeta Sustentável"
O movimento inglês Transition Towns, criado e disseminado pelo inglês Rob Hopkins, transforma cidades em modelos sustentáveis e independentes de crises externas
Imagine cidades inteiras sustentáveis, baseadas no comércio local, independentes do petróleo e de importações de alimentos. Pois elas já existem graças à visão e ação de Rob Hopkins, criador do movimento Transition Towns (Cidades em Transição). Assustado com a dependência exterior do Reino Unido em combustível e alimentação e sabendo que esse cenário de mudança climática e escassez de petróleo só irá piorar nos próximos anos, Rob decidiu que apenas suas ações individuais como permaculturista não iriam bastar.
Com a sua vasta experiência em ecovilas e como professor de universidade, construiu um plano de mudança com o objetivo de alcançar a resiliência que, neste caso, significava a capacidade de sobreviver a choques externos como a escassez do petróleo, crises na produção de alimentos, falta de água e energia. Incluiu, nesse plano, todos os setores da sociedade - governo, setor privado e cidadãos - e todos os aspectos da vida cotidiana - saúde, educação, transporte, economia, agricultura e energia.
Sua primeira vitória foi em 2005, em Kinsale, na Irlanda, onde ensinava na universidade local, com a histórica decisão que levou o município todo a adotar o movimento como seu plano de gestão. Hopkins mudou-se então para Totnes, na Inglaterra, e transformou-a em vitrine do movimento. Devagar, a cidade de 8 mil mil habitantes pretende chegar em 2030 totalmente transformada e independente. Hoje já são mais de 110 cidades, bairros e até ilhas em 14 países do mundo convertidas na Transição.
O conceito é simples - apesar de trabalhoso - e flexível. Segundo Hopkins, cada comunidade adapta os doze passos iniciais do movimento à sua realidade e capacidade. Esses itens são apenas guias de como começar a quebrar a nossa dependência do petróleo, revendo os modelos de economia, comida, habitação e energia. Assim, essas cidades funcionam tanto no Japão quanto nos Estados Unidos ou no Chile. A idéia é parar de depender - ou depender minimamente - da tecnologia e voltar ao tempo onde não precisávamos de geladeiras, carros, tratores e aviões. Técnicas e conhecimentos dos nossos avós e ancestrais são valorizados e resgatados.
Uma das frentes do movimento reeduca a população e estudantes em aptidões como costura, gastronomia, agricultura familiar, pequenos concertos e artes manuais como marcenaria. Iniciativas incluem a criação de jardins comunitários para plantio de comida, troca de resíduo entre indústrias ou simplesmente o reparo de itens velhos, ao invés de jogá-los no lixo. O investimento em transporte público e a troca do carro pela bicicleta é inevitável para a redução das emissões de carbono. Em Totnes até uma nova moeda - a libra de Totnes - foi criada para incentivar e facilitar transações com produtores locais.
Diferente dos fatalistas que prevêem o fim do mundo em 2012 ou quadros horríveis de fome, seca e morte, os adeptos do Transition Towns têm uma visão realista, mas positiva, do futuro. Acreditam na ação transformadora de comunidades e no trabalho pesado para mudar as estatísticas. Em entrevista exclusiva ao Planeta Sustentável, Rob Hopkins fala sobre a origem permaculturista do movimento e de seu futuro.
Como surgiu a idéia do Transition Towns?
Toda a idéia do movimento surgiu através do meu trabalho como permacultor e professor de permacultura nos últimos dez anos. Quando comecei a me aprofundar sobre a crise de combustível e mudança climática, as ferramentas de resposta sobre o assunto eram as de permacultura. Mas o que eu percebi é que, apesar de a permacultura ser o sistema de design ideal para isso, o movimento é ainda muito pouco conhecido e tem quase uma aversão embutida ao mainstream. Por isso, o que quis fazer através do Transition foi criar um modelo em que a permacultura fosse implícita ao invés de explícita, que ela estivesse escondida dentro do processo para que as pessoas a descobrissem se assim a desejassem.
Como você definiria o movimento?
Ele ainda está numa fase inicial de implementação, ainda é muito novo, mas é muito simples. É um modelo de doze passos que leva ao processo de quebra da dependência de combustível. E, assim, abrange tudo: comida, economia, moradia e por aí vai. É aplicar os princípios de permacultura para esse objetivo de independência, mas com a esperança de abranger muito mais pessoas, em todos os setores, não somente os que originalmente se interessariam pelo assunto. O movimento quer ser positivo e focado, mas também muito inclusivo. Ele tenta apelar para todos igualmente. E acho que aí está a chave de seu sucesso.
Você conseguiu um fato inédito de incluir governo, comércio, todos os setores nos planos das cidades. Como isso foi feito?
Com muito trabalho de persuasão e organização. É muito difícil, mas precisava acontecer. A permacultura precisava avançar muitos passos e rapidamente porque segura peças importantes do quebra-cabeças que vão ser os próximos dez anos. Não temos muito tempo a perder.
Já são mais de 110 comunidades engajadas no movimento, mas apenas uma na América Latina: no Chile. Você acha mais difícil os países em desenvolvimento se engajarem?
No Brasil, existem algumas pessoas interessadas no movimento, mas esse interesse ainda está no nível do contato e não da participação ativa. Acho que os desafios são diferentes porque o que focamos é a idéia de ser resiliente, ou seja, a necessidade de reconstruir o modelo de sociedade. Aqui no Reino Unido, por exemplo, nós desmontamos tudo e acabamos com a possibilidade de nos mantermos de forma independente. Nós nos tornamos dependentes do comércio internacional e compramos o que queremos pelo menor preço possível de outros países. Com isso, nos isolamos e nos colocamos no lugar mais perigoso que existe.
Nos países em desenvolvimento ainda há mais independência, mas isso começa a ser desvalorizado, a se perder e a ser destruído. Acho que, nesse caso, a primeira coisa a fazer é colocar o valor de volta na produção de alimentos e nos conhecimentos tradicionais, porque, quando perdemos o valor nessas áreas, é muito difícil recuperar. Mas o movimento se traduz para todos os tipos de sociedade e casos. Não é rigoroso, é apenas um conjunto de princípios que pode ser adaptado a cada realidade, a cada cultura e contexto. É mais um convite do que um modelo rápido e duro.
Quais são os novos desafios do Transition Towns?
Estamos desenvolvendo um modelo de treinamento, um curso de dois dias em que as pessoas aprendem tudo o que precisam para começar a transformar suas comunidades. Esse treinamento é uma organização que está formando grupos de treinadores em todo o Reino Unido e começa a atuar, também, nos Estados Unidos, Canadá, Japão, Austrália e Nova Zelândia. Também estamos começando a dar consultoria para empresas em como elas podem ser mais independentes de combustível e mais sustentáveis. Trabalhamos também com o governo local para encontrar soluções. Assim, enfrentamos todas as frentes: sociedade, comércio e governo. Além disso, o “The Transition Handbook - from oil dependency to local resilience” (Ed. Green Books) está sendo traduzido em várias línguas e pode ser comprado através do nosso site.
Fonte: Thais Oliveira – Edição: Mônica Nunes
Imagine cidades inteiras sustentáveis, baseadas no comércio local, independentes do petróleo e de importações de alimentos. Pois elas já existem graças à visão e ação de Rob Hopkins, criador do movimento Transition Towns (Cidades em Transição). Assustado com a dependência exterior do Reino Unido em combustível e alimentação e sabendo que esse cenário de mudança climática e escassez de petróleo só irá piorar nos próximos anos, Rob decidiu que apenas suas ações individuais como permaculturista não iriam bastar.
Com a sua vasta experiência em ecovilas e como professor de universidade, construiu um plano de mudança com o objetivo de alcançar a resiliência que, neste caso, significava a capacidade de sobreviver a choques externos como a escassez do petróleo, crises na produção de alimentos, falta de água e energia. Incluiu, nesse plano, todos os setores da sociedade - governo, setor privado e cidadãos - e todos os aspectos da vida cotidiana - saúde, educação, transporte, economia, agricultura e energia.
Sua primeira vitória foi em 2005, em Kinsale, na Irlanda, onde ensinava na universidade local, com a histórica decisão que levou o município todo a adotar o movimento como seu plano de gestão. Hopkins mudou-se então para Totnes, na Inglaterra, e transformou-a em vitrine do movimento. Devagar, a cidade de 8 mil mil habitantes pretende chegar em 2030 totalmente transformada e independente. Hoje já são mais de 110 cidades, bairros e até ilhas em 14 países do mundo convertidas na Transição.
O conceito é simples - apesar de trabalhoso - e flexível. Segundo Hopkins, cada comunidade adapta os doze passos iniciais do movimento à sua realidade e capacidade. Esses itens são apenas guias de como começar a quebrar a nossa dependência do petróleo, revendo os modelos de economia, comida, habitação e energia. Assim, essas cidades funcionam tanto no Japão quanto nos Estados Unidos ou no Chile. A idéia é parar de depender - ou depender minimamente - da tecnologia e voltar ao tempo onde não precisávamos de geladeiras, carros, tratores e aviões. Técnicas e conhecimentos dos nossos avós e ancestrais são valorizados e resgatados.
Uma das frentes do movimento reeduca a população e estudantes em aptidões como costura, gastronomia, agricultura familiar, pequenos concertos e artes manuais como marcenaria. Iniciativas incluem a criação de jardins comunitários para plantio de comida, troca de resíduo entre indústrias ou simplesmente o reparo de itens velhos, ao invés de jogá-los no lixo. O investimento em transporte público e a troca do carro pela bicicleta é inevitável para a redução das emissões de carbono. Em Totnes até uma nova moeda - a libra de Totnes - foi criada para incentivar e facilitar transações com produtores locais.
Diferente dos fatalistas que prevêem o fim do mundo em 2012 ou quadros horríveis de fome, seca e morte, os adeptos do Transition Towns têm uma visão realista, mas positiva, do futuro. Acreditam na ação transformadora de comunidades e no trabalho pesado para mudar as estatísticas. Em entrevista exclusiva ao Planeta Sustentável, Rob Hopkins fala sobre a origem permaculturista do movimento e de seu futuro.
Como surgiu a idéia do Transition Towns?
Toda a idéia do movimento surgiu através do meu trabalho como permacultor e professor de permacultura nos últimos dez anos. Quando comecei a me aprofundar sobre a crise de combustível e mudança climática, as ferramentas de resposta sobre o assunto eram as de permacultura. Mas o que eu percebi é que, apesar de a permacultura ser o sistema de design ideal para isso, o movimento é ainda muito pouco conhecido e tem quase uma aversão embutida ao mainstream. Por isso, o que quis fazer através do Transition foi criar um modelo em que a permacultura fosse implícita ao invés de explícita, que ela estivesse escondida dentro do processo para que as pessoas a descobrissem se assim a desejassem.
Como você definiria o movimento?
Ele ainda está numa fase inicial de implementação, ainda é muito novo, mas é muito simples. É um modelo de doze passos que leva ao processo de quebra da dependência de combustível. E, assim, abrange tudo: comida, economia, moradia e por aí vai. É aplicar os princípios de permacultura para esse objetivo de independência, mas com a esperança de abranger muito mais pessoas, em todos os setores, não somente os que originalmente se interessariam pelo assunto. O movimento quer ser positivo e focado, mas também muito inclusivo. Ele tenta apelar para todos igualmente. E acho que aí está a chave de seu sucesso.
Você conseguiu um fato inédito de incluir governo, comércio, todos os setores nos planos das cidades. Como isso foi feito?
Com muito trabalho de persuasão e organização. É muito difícil, mas precisava acontecer. A permacultura precisava avançar muitos passos e rapidamente porque segura peças importantes do quebra-cabeças que vão ser os próximos dez anos. Não temos muito tempo a perder.
Já são mais de 110 comunidades engajadas no movimento, mas apenas uma na América Latina: no Chile. Você acha mais difícil os países em desenvolvimento se engajarem?
No Brasil, existem algumas pessoas interessadas no movimento, mas esse interesse ainda está no nível do contato e não da participação ativa. Acho que os desafios são diferentes porque o que focamos é a idéia de ser resiliente, ou seja, a necessidade de reconstruir o modelo de sociedade. Aqui no Reino Unido, por exemplo, nós desmontamos tudo e acabamos com a possibilidade de nos mantermos de forma independente. Nós nos tornamos dependentes do comércio internacional e compramos o que queremos pelo menor preço possível de outros países. Com isso, nos isolamos e nos colocamos no lugar mais perigoso que existe.
Nos países em desenvolvimento ainda há mais independência, mas isso começa a ser desvalorizado, a se perder e a ser destruído. Acho que, nesse caso, a primeira coisa a fazer é colocar o valor de volta na produção de alimentos e nos conhecimentos tradicionais, porque, quando perdemos o valor nessas áreas, é muito difícil recuperar. Mas o movimento se traduz para todos os tipos de sociedade e casos. Não é rigoroso, é apenas um conjunto de princípios que pode ser adaptado a cada realidade, a cada cultura e contexto. É mais um convite do que um modelo rápido e duro.
Quais são os novos desafios do Transition Towns?
Estamos desenvolvendo um modelo de treinamento, um curso de dois dias em que as pessoas aprendem tudo o que precisam para começar a transformar suas comunidades. Esse treinamento é uma organização que está formando grupos de treinadores em todo o Reino Unido e começa a atuar, também, nos Estados Unidos, Canadá, Japão, Austrália e Nova Zelândia. Também estamos começando a dar consultoria para empresas em como elas podem ser mais independentes de combustível e mais sustentáveis. Trabalhamos também com o governo local para encontrar soluções. Assim, enfrentamos todas as frentes: sociedade, comércio e governo. Além disso, o “The Transition Handbook - from oil dependency to local resilience” (Ed. Green Books) está sendo traduzido em várias línguas e pode ser comprado através do nosso site.
Fonte: Thais Oliveira – Edição: Mônica Nunes
segunda-feira, 23 de agosto de 2010
A " progressão continuada" da miopia dos políticos sobre a Educação
No debate entre os candidatos à presidência da república, na rede Bandeirantes, a candidata Dilma Roussef disse que pretende acabar com a progressão continuada no ensino fundamental, e no debate subsequente, entre os candidatos ao governo de São Paulo, os candidatos Aloizio Mercadante e Paulo Skaf prometeram a mesma coisa. Este ponto de vista, vindo de candidatos “desenvolvimentistas”, ligados ainda à era industrial, onde as pessoas eram educadas para serem massa de manobra, não chega a causar espanto. O mais surpreendente foi o fato dos demais candidatos não se terem posicionado contra. Isso levanta a suspeita de que nenhum deles, nem suas assessorias, compreende realmente porque a educação pública no Brasil vai tão mal.
A Progressão Continuada foi criada para substituir uma concepção de avaliação escolar punitiva e excludente, por uma concepção comprometida com o progresso da aprendizagem e o desenvolvimento humano. O sistema antigo, com a possibilidade de reprovação anual, era nefasto para a educação sob vários aspectos.
Em primeiro lugar, durante o ensino fundamental, as crianças estão num período intenso de seu desenvolvimento humano, e, para cada idade, há práticas pedagógicas mais adequadas para estimular o aprendizado em sala de aula. Assim, quando há alunos de várias idades numa mesma classe, prejudica-se esse trabalho, e todos perdem, alunos e professor. Como isso é um fato reconhecido na prática, o que acabava acontecendo em nossas escolas estaduais, é que eram formadas classes só com os alunos mais “difíceis”. Aí, pelo sistema de dotação de classes por pontuação, estes alunos acabavam sobrando para os professores com menor experiência. Aliás, isso ainda ocorre hoje com os alunos retidos em cada ciclo do fundamental.
Chegamos assim ao segundo ponto negativo da retenção anual: a discriminação. O aluno retido sente-se rejeitado, estigmatizado, com sérias consequências para sua auto-estima. E, além de ser excluído do processo de socialização com outras crianças de sua idade, há um forte desestímulo por ele ter de passar de novo pelos mesmos conteúdos, numa escola que, salvo raras exceções, não tem uma prática pedagógica estimulante. O aluno que tiver sucessivas e desestimulantes retenções no percurso escolar vai aumentar as estatísticas da evasão escolar e acaba buscando outros meios de inserção social, através de gangues, drogas e criminalidade. Este processo é totalmente contrário a um dos princípios mais caros aos verdadeiros educadores: A educação precisa proporcionar oportunidades iguais de desenvolvimento humano a todos os indivíduos. Todo cidadão deve ter direito a uma educação básica completa, independente de classe social, religião, gênero e raça, e ninguém deve ser excluído desse direito devido a ser, aparentemente, menos capaz de aprender.
O terceiro ponto negativo, e não menos grave, é que a possibilidade de reprovação incute nos alunos o medo de errar, como se errar fosse a pior coisa que pode acontecer. Este medo vai, com o tempo, matando a criatividade e o protagonismo destas crianças, que chegarão à idade adulta sem a capacidade de ter ideias originais. Nós não sabemos como será o mundo onde nossas crianças vão viver, e quais os desafios que terão de enfrentar, mas tudo indica que a sustentabilidade planetária vai depender da instituição de uma economia muito mais criativa. Assim, a criatividade precisa ser tratada com a mesma importância que a alfabetização.
A progressão continuada não é, portanto, o vilão. O que falta, em primeiro lugar, é a “progressão continuada” do professor. Explico:
Embora a formação em Pedagogia, teoricamente, prepare o professor para lecionar em qualquer ano do ensino infantil ou fundamental de 1º ao 5º ano, ele normalmente se especializa no conteúdo relativo a um único ano escolar, e a cada ano pega uma nova turma de alunos para ensinar o mesmo conteúdo. Seu foco é com o conteúdo, e não com os alunos. Este é um paradigma tão cristalizado, que ninguém ousa imaginar que possa haver outro modelo de relação entre professor e aluno. Desta forma, o professor não se compromete com o desenvolvimento e o sucesso futuro dos alunos. Se a criança tem dificuldades, é cômodo transferir a culpa para a família ou para o professor anterior, e ela será problema do próximo professor. Também é fato que, para se manter com um baixo salário, é comum o professor assumir uma carga horária muito alta, trabalhando em vários períodos, o que inviabiliza um envolvimento mais profundo com seus alunos. Nossas políticas públicas não estimulam o comprometimento do professor com o desenvolvimento individual dos alunos por longo prazo, nem uma aproximação efetiva do professor com as famílias, e, no fim, ninguém é responsabilizado pelo fracasso de um aluno.
Deveríamos então criar um novo nível profissional: o Professor Formador, que poderia ser, inicialmente, um nível optativo. Este professor assumiria seus alunos no 1º ano do ensino fundamental, e os conduziria até o 5º ano, ministrando as matérias básicas do currículo. Outras matérias como educação física, língua estrangeira, artes etc, poderiam ser ministradas por outros professores. Assim, este professor teria condições de conhecer a fundo cada aluno, seu temperamento, suas qualidades e dificuldades, e sua família, para poder atuar da melhor maneira com cada um. Desta forma, o aluno que tiver algum tipo de dificuldade, terá de ser acompanhado de perto pelo professor. Caso este não tenha condições de atendê-lo sozinho, deverá socializar o problema com a equipe escolar, buscar ajuda com a família, ou apoio especializado, se for o caso (psicólogos, fonoaudiólogos, conselho tutelar etc). Ele teria então a responsabilidade de que, no 5º ano, a formação de seus alunos tenha atingido os níveis adequados. Hoje, nenhum professor tem esta responsabilidade, só o aluno. Assumindo perante os pais o compromisso de conduzir seus filhos por uma etapa importante de sua formação, o professor renovaria seu papel social. E, claro, este professor formador precisaria ser bem preparado e ter remuneração adequada para poder dedicar-se a apenas uma turma de alunos.
Este seria o primeiro passo para termos uma educação comprometida com o desenvolvimento humano, focada no indivíduo, e não apenas no ensino de algumas matérias. Afinal de contas, tudo que nossa civilização criou até hoje foi, em última instância, fruto de realizações individuais. Portanto, deve ser uma missão primordial da educação estimular cada criança a desenvolver seus talentos individuais, e só o professor tem a oportunidade de conhecer o aluno como indivíduo. Isso nem o estado ou as editoras conseguem. Já existem escolas em todo o mundo usando este modelo de relação entre professor e aluno, inclusive no Brasil, em escolas comunitárias e até em algumas escolas públicas.
Outros passos necessários incluem a autonomia pedagógica da escola, intensificação do uso das artes como instrumento pedagógico, avaliação integral, reformulação da prática pedagógica e dos currículos para formação dos educadores, entre outros.
Não cabe detalhar todos os aspectos deste modelo de educação no âmbito deste artigo, mas é fundamental que nossos futuros governantes percebam que o mundo mudou, e vai continuar mudando rapidamente. Não basta que os jovens saiam das escolas com prática em passar em provas e vestibulares. Não basta apenas ter conhecimento, pois este está cada vez mais disponível, e sempre pertence ao passado. O futuro depende da sensibilidade, da sociabilidade, da moralidade, da responsabilidade, da solidariedade, do senso estético, e também da vontade de atuar no mundo, com iniciativa, criatividade e coragem, e de outras qualidades intrínsecas ao desenvolvimento humano que as políticas de educação desprezam. E mais, nenhum ser humano deve ser educado para servir a propósitos estatais, ou interesses econômicos. Deve ser educado e desenvolver-se para si mesmo, e de forma que adquira autonomia e capacidade para encontrar propósito e direção para sua vida.
*Rubens Salles é mestre em Educação, Arte e História da Cultura, e pesquisador do Instituto ArteSocial. http://www.institutoartesocial.org.br/ rubens@artesocial.org.br
sábado, 21 de agosto de 2010
Tecnologias na Educação: Grupo de estudos on line
Tecnologias na Educação: Grupo de estudos on line: "Foi lançado ontem, na Bienal do Livro, com uma palestra que pode ser assistida on line, o Grupo de Estudos :Educar na Cultura Digital. O g..."
quinta-feira, 19 de agosto de 2010
"Escola é inimiga do ócio criativo"
O sociólogo italiano Domenico de Masi, autor de diversos e revolucionários livros — entre eles, os best sellers Desenvolvimento sem trabalho (Editora Esfera) e A emoção e a regra (Ed. José Olympio,) é um dos mais polêmicos e inovadores pensadores da era pós-industrial. de Masi esteve no Brasil durante a última semana de abril, para lançar o livro O ócio criativo (Ed. Sextante, 328 págs. Entre várias atividades, fez três palestras em São Paulo: uma promovida pela livraria e editora Saraiva, no hotel Intercontinental, outra nas Faculdades Domus e a terceira no último domingo (30/04), na Bienal Internacional do Livro de São Paulo.
Todas estiveram lotadas, com um público variado composto por empresários, professores, estudantes, profissionais de marketing, letras e, claro, trabalhadores. Nas Faculdades Domus, de Masi recebeu o título de professor emérito, "por suas relevantes contribuições nas Ciências Sociais". Ele agradeceu, sem muitas delongas, abreviando formalidades, com seu jeito encantadoramente "carcamano" de ser. O italiano está na crista da onda nos círculos de intelectuais brasileiros — quase como a novela Terra Nostra, no auge do drama, esteve para a massa.
De Masi, como definiu a jornalista italiana Maria Serena Palieri, cuja entrevista com o sociólogo se transformou no livro O ócio criativo, é um militante pela "redistribuição do tempo, do trabalho, da riqueza, do saber e do poder". Proferindo frases de efeito do tipo "o homem que trabalha perde tempo precioso", de Masi faz todo tipo de gente parar e questionar por que correr tanto para ganhar dinheiro e acumular bens.
Em seu discurso simples e lógico, não há razão nem vida longa aos workaholics — mesmo porque o desemprego ronda a globalização como urubu em torno de carniça e a mão-de-obra humana está sendo substituída por máquinas. E o tempo livre que foi delegado à humanidade ou conquistado por ela pode e deve ser bem aproveitado — e nunca "amargado" em depressão.
"Dos 6 bilhões de habitantes do mundo, somente 1,5 trabalham — o resto não conhece ou não tem acesso ao ritmo pós-industrial de trabalho", contabiliza de Masi, na introdução de seu raciocínio. "Se a vida média útil de um ser humano tem hoje cerca de 530 mil horas, o tempo médio gasto com o trabalho é de apenas 80 mil horas (considerando a jornada universal de 40 horas por semana). Restam 220 mil horas, passadas dormindo, e mais 220 mil horas livres, reservadas para a pessoa fazer o que lhe der na telha. Esse tempo pode ser aproveitado de maneira criativa, saudável e produtiva, no sentido mental e físico."
Ditadura da correria
Como não concordar com ele? O trabalho, de acordo com as leis e com o advento da tecnologia, foi reduzido à metade neste século. No entanto, o modelo de civilização desenvolvida, adotado pelos EUA e Japão, pragmatiza o trabalho como a principal razão de viver. "Todos correm como loucos, nunca têm tempo para nada — nem mesmo para usufruir da riqueza que acumularam. Os norte-americanos vão a supermercados nos feriados comprar coisas inúteis, acumulando dívidas que passarão a vida pagando — e trabalhando para isso. Vocês, brasileiros, têm um ritmo cultural de vida que ainda pode escapar dessa ditadura!", conclama de Masi, animado. Nessa altura, a platéia está boquiaberta.
Simpático e bonachão, o professor italiano continua sua aula em defesa do ócio criativo, ou seja, do aproveitamento do tempo livre de cada dia — ou noite. Ele defende que, no caso de trabalhadores intelectuais (especialmente os professores) — aqueles que usam mais o cérebro do que o corpo, e que são maioria na sociedade pós-industrial —, as melhores sacadas podem brotar na hora em que não têm absolutamente nada a fazer — a não ser deixar a mente viajar. Não é preciso forçar esse estado de letargia. Ele vem naturalmente, quando a pessoa consegue relaxar — coisa difícil na era do consumismo e da informação.
"Podemos gastar nosso tempo livre com atividades que não nos cansam ou alienam, mas que nos excitam. Os despertadores e burocratas são os maiores inimigos do ócio criativo", diz. "Só que as pessoas, consumidas pelo trabalho, não percebem como aproveitam mal seu tempo livre. Não lembram sequer que têm direito a ele", continua. Em tempo: De Masi lembra de outros inimigos do ócio criativo — a religião e a escola. "A Igreja prega o trabalho como um 'castigo divino' e a escola prepara indivíduos para seguirem o modelo atrofiante da sociedade consumista."
Autonomia e sabedoria
É claro que, para usufruir da liberdade com autonomia e sabedoria, é preciso praticar "a educação para o ócio". de Masi alerta que a sociedade pós-industrial já se encarrega também de programar nosso tempo livre. "Enquanto estamos aqui, os produtores de Hollywood estão trabalhando em filmes para assistirmos; os McDonald's estão fabricando novos sanduíches para comermos e a televisão está anunciando programas que não podemos perder."
De Masi adverte: para sermos, de fato, donos do nosso destino, é preciso refletir sobre ele e isso só é possível com o ócio criativo. Certo de que o stress causado pelo excesso de trabalho e pela supervalorização dele só leva certeiramente a um destino mais rápido — a morte —, de Masi salienta que a beleza e o prazer da vida está, principalmente, em coisas que fazemos "sem gastar um tostão": fazer amor, encontrar amigos, folhear uma enciclopédia, meditar e deixar o tempo correr, sem nenhuma ansiedade.
Certo também de que o comunismo, embora quisesse distribuir a riqueza mas não soubesse produzi-la, perdeu terreno para o capitalismo, que sabe produzir riqueza mas não distribuí-la, de Masi alimenta a possibilidade de criar um novo sistema político, que possa se adequar às necessidades humanas — e não fazer dos indivíduos reféns dele. Otimista? "Sim, acho que evoluímos muito, apesar de tudo. Temos um futuro brilhante nas mãos — e temos tempo de sobra para aprendermos a conduzi-lo em nosso favor".
Domenico de Masi é professor titular do curso de Sociologia da Universidade La Sapienza, de Roma, membro do comitê científico de várias revistas italianas e diretor-responsável da revista Next - Strumenti per l'Innovazione (que pode ser editada no Brasil, encartada no jornal Valor Econômico), além de atuar como consultor organizacional, por meio de seu instituto-escola S3 Studium, para empresas como Fiat, IBM e Pirelli.
Como se vê, trabalho é o que não falta a de Masi. Mas, entre uma palestra e outra no Brasil, ele achou tempo para conceder a entrevista a seguir.
Como o senhor chegou às suas conclusões sobre o ócio criativo?
Domenico de Masi - Estudei primeiro o trabalho dos operários; depois o trabalho dos empregadores. Com o aumento do trabalho intelectual no sistema produtivo, notei que havia uma distinção cada vez mais tênue entre o trabalho propriamente dito e a criatividade. E sendo a criatividade a principal ferramenta do trabalho, fica difícil distinguir os momentos em que estamos de fato trabalhando duro ou os momentos em que, mesmo usufruindo de tempo livre, estamos criando coisas. Isso acontece comigo: não sei quando estou trabalhando ou me divertindo — estou sempre tendo idéias, criando. Então, estudando esses grupos de trabalho sustentados pela criatividade, percebi que todos trabalhavam com o auxílio de jogos, brincadeiras, atividades lúdicas. Demonstrei que todos os grupos de criatividade trabalham como se fosse lazer. Sobre esse estudo, escrevi o livro A emoção e a regra.
É possível todos os trabalhadores desenvolverem essa relação entre trabalho e lazer, ou seja, tornar seu trabalho mais prazeroso?
Domenico de Masi - Depende do tipo de trabalho que você faz. Temos aquele trabalho que casa com o estudo. É como um jornalista ou o trabalho de um cientista. Ou estudar medicina com alguém divertido. Ou o trabalho de um ator. O problema é unir as duas coisas e ter uma atividade na qual coexistam estudo, trabalho e tempo livre. O segredo é buscar uma interseção entre tudo isso. Assim qualquer pessoa poderá vivenciar melhor seu ócio criativo.
Transportando essa relação para a escola, então...
(De Masi mostra um gráfico em que desenhou três esferas: uma com nome trabalho, outra com o nome lazer e outra referente ao tempo livre. Ele simplesmente faz um sinal com a caneta, mostrando o que acontece na prática.)
Domenico de Masi - A escola tradicional só faz interseção com o trabalho. Nunca com o lazer e o tempo livre.
Qual seria a maior falha dos atuais sistemas de ensino, já que a escola e os professores são considerados pelo senhor como os principais inimigos do ócio criativo? O que pode ser feito, em termos de transmissão de conhecimento, para que essa realidade comece a mudar?
Domenico de Masi - Para começar, as escolas devem abolir, a todo custo, a imagem ou idéia de que o estudo deve ser algo penoso e chato — exatamente como o trabalho. No entanto, o sistema pede que as escolas preparem as crianças para serem trabalhadores eficazes. É preciso que as escolas incorporem mais atividades lúdicas, que provoquem espaço para a reflexão e o questionamento.
Por outro lado, é necessário que professores se aperfeiçoem para tornar a transmissão de conhecimento algo mais interessante e menos massacrante, mecânico. O professor que não tenha ido à Europa, ou sequer navegado pela internet não pode ensinar nada a ninguém. O professor que não usa a internet é um delinqüente! (risos) É preciso resgatar a dignidade entre escolas, professores e alunos. Acho que essa mudança vai acontecer naturalmente, à medida em que morrem os professores antigos e chegam os jovens. Para os jovens, a criatividade simplesmente flui.
No Brasil, há 40% de analfabetos e a maioria dos professores é mal remunerada, têm deficiências de formação e, efetivamente, não tem condições de ir à Europa ou de navegar na internet. O que fazer então?
Domenico de Masi - Não estou falando para o universo dos analfabetos nem do ensino público brasileiro, e sim para o universo dos alfabetizados, em especial os professores. E, se os professores brasileiros são carentes, o país é carente. Esse é o problema primordial do Brasil. Os ricos, a elite, parecem não entender isso. Está principalmente na mão da elite brasileira resolver ou não essa questão. Só ela tem as ferramentas para isso. É sua contribuição social. O Brasil tem dois países num só — o dos ricos e o dos pobres.
Falando de questões da sociedade pós-industrial, como a globalização e o desemprego, como o desempregado pode desenvolver seu ócio criativo?
Domenico de Masi - Se o desempregado é rico, então tudo bem! Há dois tipos de desempregados: o pobre financeiramente e intelectualmente e o rico financeiramente e com boa formação intelectual. Esse pode se ocupar de música, literatura, cinema e tem mais chances de desenvolver seu ócio de maneira criativa. O pobre precisa comer, precisa de dinheiro. O pobre tem de se ocupar com a sobrevivência. O ócio criativo é um problema de ricos, para quem já tem um mínimo de estrutura garantida.
Qual é o projeto que o S3 Studium pretende desenvolver no Brasil? O que é preciso para os interessados participarem dele?
Domenico de Masi - Fechamos um acordo com a faculdade Getúlio Vargas para criar em São Paulo uma sede da escola. Formamos jovens para que se tornem planejadores — de uma empresa, escola, jornal ou bairro. Estamos formando agora os professores. Depois, em 2001, começaremos a formar alunos brasileiros. Ainda não estamos selecionando alunos, mas eles só precisam ter um diploma universitário e vontade de mudar o sistema para se juntarem a nós.
A tabela abaixo demonstra a proporção do trabalho na vida de um ser humano do século XX.
Evidencia a importância da organização do Tempo Livre já disponível.
O que De Masi propõe como Ócio Criativo.
Anos Horas Total (hrs) Fórmulas
Expectativa de vida 70- 24 604.800 (70a*24h*365d)
Trabalho (18 - 53) 35 10 80.850 (35a*10h*11m*21d)
Sono 70 8 204.400 (70a*8h*365d)
Horas livres
319.550 (Expectativa de vida) - (Trabalho) - (Sono)
Fonte: Romanticos Conspiradores.
Todas estiveram lotadas, com um público variado composto por empresários, professores, estudantes, profissionais de marketing, letras e, claro, trabalhadores. Nas Faculdades Domus, de Masi recebeu o título de professor emérito, "por suas relevantes contribuições nas Ciências Sociais". Ele agradeceu, sem muitas delongas, abreviando formalidades, com seu jeito encantadoramente "carcamano" de ser. O italiano está na crista da onda nos círculos de intelectuais brasileiros — quase como a novela Terra Nostra, no auge do drama, esteve para a massa.
De Masi, como definiu a jornalista italiana Maria Serena Palieri, cuja entrevista com o sociólogo se transformou no livro O ócio criativo, é um militante pela "redistribuição do tempo, do trabalho, da riqueza, do saber e do poder". Proferindo frases de efeito do tipo "o homem que trabalha perde tempo precioso", de Masi faz todo tipo de gente parar e questionar por que correr tanto para ganhar dinheiro e acumular bens.
Em seu discurso simples e lógico, não há razão nem vida longa aos workaholics — mesmo porque o desemprego ronda a globalização como urubu em torno de carniça e a mão-de-obra humana está sendo substituída por máquinas. E o tempo livre que foi delegado à humanidade ou conquistado por ela pode e deve ser bem aproveitado — e nunca "amargado" em depressão.
"Dos 6 bilhões de habitantes do mundo, somente 1,5 trabalham — o resto não conhece ou não tem acesso ao ritmo pós-industrial de trabalho", contabiliza de Masi, na introdução de seu raciocínio. "Se a vida média útil de um ser humano tem hoje cerca de 530 mil horas, o tempo médio gasto com o trabalho é de apenas 80 mil horas (considerando a jornada universal de 40 horas por semana). Restam 220 mil horas, passadas dormindo, e mais 220 mil horas livres, reservadas para a pessoa fazer o que lhe der na telha. Esse tempo pode ser aproveitado de maneira criativa, saudável e produtiva, no sentido mental e físico."
Ditadura da correria
Como não concordar com ele? O trabalho, de acordo com as leis e com o advento da tecnologia, foi reduzido à metade neste século. No entanto, o modelo de civilização desenvolvida, adotado pelos EUA e Japão, pragmatiza o trabalho como a principal razão de viver. "Todos correm como loucos, nunca têm tempo para nada — nem mesmo para usufruir da riqueza que acumularam. Os norte-americanos vão a supermercados nos feriados comprar coisas inúteis, acumulando dívidas que passarão a vida pagando — e trabalhando para isso. Vocês, brasileiros, têm um ritmo cultural de vida que ainda pode escapar dessa ditadura!", conclama de Masi, animado. Nessa altura, a platéia está boquiaberta.
Simpático e bonachão, o professor italiano continua sua aula em defesa do ócio criativo, ou seja, do aproveitamento do tempo livre de cada dia — ou noite. Ele defende que, no caso de trabalhadores intelectuais (especialmente os professores) — aqueles que usam mais o cérebro do que o corpo, e que são maioria na sociedade pós-industrial —, as melhores sacadas podem brotar na hora em que não têm absolutamente nada a fazer — a não ser deixar a mente viajar. Não é preciso forçar esse estado de letargia. Ele vem naturalmente, quando a pessoa consegue relaxar — coisa difícil na era do consumismo e da informação.
"Podemos gastar nosso tempo livre com atividades que não nos cansam ou alienam, mas que nos excitam. Os despertadores e burocratas são os maiores inimigos do ócio criativo", diz. "Só que as pessoas, consumidas pelo trabalho, não percebem como aproveitam mal seu tempo livre. Não lembram sequer que têm direito a ele", continua. Em tempo: De Masi lembra de outros inimigos do ócio criativo — a religião e a escola. "A Igreja prega o trabalho como um 'castigo divino' e a escola prepara indivíduos para seguirem o modelo atrofiante da sociedade consumista."
Autonomia e sabedoria
É claro que, para usufruir da liberdade com autonomia e sabedoria, é preciso praticar "a educação para o ócio". de Masi alerta que a sociedade pós-industrial já se encarrega também de programar nosso tempo livre. "Enquanto estamos aqui, os produtores de Hollywood estão trabalhando em filmes para assistirmos; os McDonald's estão fabricando novos sanduíches para comermos e a televisão está anunciando programas que não podemos perder."
De Masi adverte: para sermos, de fato, donos do nosso destino, é preciso refletir sobre ele e isso só é possível com o ócio criativo. Certo de que o stress causado pelo excesso de trabalho e pela supervalorização dele só leva certeiramente a um destino mais rápido — a morte —, de Masi salienta que a beleza e o prazer da vida está, principalmente, em coisas que fazemos "sem gastar um tostão": fazer amor, encontrar amigos, folhear uma enciclopédia, meditar e deixar o tempo correr, sem nenhuma ansiedade.
Certo também de que o comunismo, embora quisesse distribuir a riqueza mas não soubesse produzi-la, perdeu terreno para o capitalismo, que sabe produzir riqueza mas não distribuí-la, de Masi alimenta a possibilidade de criar um novo sistema político, que possa se adequar às necessidades humanas — e não fazer dos indivíduos reféns dele. Otimista? "Sim, acho que evoluímos muito, apesar de tudo. Temos um futuro brilhante nas mãos — e temos tempo de sobra para aprendermos a conduzi-lo em nosso favor".
Domenico de Masi é professor titular do curso de Sociologia da Universidade La Sapienza, de Roma, membro do comitê científico de várias revistas italianas e diretor-responsável da revista Next - Strumenti per l'Innovazione (que pode ser editada no Brasil, encartada no jornal Valor Econômico), além de atuar como consultor organizacional, por meio de seu instituto-escola S3 Studium, para empresas como Fiat, IBM e Pirelli.
Como se vê, trabalho é o que não falta a de Masi. Mas, entre uma palestra e outra no Brasil, ele achou tempo para conceder a entrevista a seguir.
Como o senhor chegou às suas conclusões sobre o ócio criativo?
Domenico de Masi - Estudei primeiro o trabalho dos operários; depois o trabalho dos empregadores. Com o aumento do trabalho intelectual no sistema produtivo, notei que havia uma distinção cada vez mais tênue entre o trabalho propriamente dito e a criatividade. E sendo a criatividade a principal ferramenta do trabalho, fica difícil distinguir os momentos em que estamos de fato trabalhando duro ou os momentos em que, mesmo usufruindo de tempo livre, estamos criando coisas. Isso acontece comigo: não sei quando estou trabalhando ou me divertindo — estou sempre tendo idéias, criando. Então, estudando esses grupos de trabalho sustentados pela criatividade, percebi que todos trabalhavam com o auxílio de jogos, brincadeiras, atividades lúdicas. Demonstrei que todos os grupos de criatividade trabalham como se fosse lazer. Sobre esse estudo, escrevi o livro A emoção e a regra.
É possível todos os trabalhadores desenvolverem essa relação entre trabalho e lazer, ou seja, tornar seu trabalho mais prazeroso?
Domenico de Masi - Depende do tipo de trabalho que você faz. Temos aquele trabalho que casa com o estudo. É como um jornalista ou o trabalho de um cientista. Ou estudar medicina com alguém divertido. Ou o trabalho de um ator. O problema é unir as duas coisas e ter uma atividade na qual coexistam estudo, trabalho e tempo livre. O segredo é buscar uma interseção entre tudo isso. Assim qualquer pessoa poderá vivenciar melhor seu ócio criativo.
Transportando essa relação para a escola, então...
(De Masi mostra um gráfico em que desenhou três esferas: uma com nome trabalho, outra com o nome lazer e outra referente ao tempo livre. Ele simplesmente faz um sinal com a caneta, mostrando o que acontece na prática.)
Domenico de Masi - A escola tradicional só faz interseção com o trabalho. Nunca com o lazer e o tempo livre.
Qual seria a maior falha dos atuais sistemas de ensino, já que a escola e os professores são considerados pelo senhor como os principais inimigos do ócio criativo? O que pode ser feito, em termos de transmissão de conhecimento, para que essa realidade comece a mudar?
Domenico de Masi - Para começar, as escolas devem abolir, a todo custo, a imagem ou idéia de que o estudo deve ser algo penoso e chato — exatamente como o trabalho. No entanto, o sistema pede que as escolas preparem as crianças para serem trabalhadores eficazes. É preciso que as escolas incorporem mais atividades lúdicas, que provoquem espaço para a reflexão e o questionamento.
Por outro lado, é necessário que professores se aperfeiçoem para tornar a transmissão de conhecimento algo mais interessante e menos massacrante, mecânico. O professor que não tenha ido à Europa, ou sequer navegado pela internet não pode ensinar nada a ninguém. O professor que não usa a internet é um delinqüente! (risos) É preciso resgatar a dignidade entre escolas, professores e alunos. Acho que essa mudança vai acontecer naturalmente, à medida em que morrem os professores antigos e chegam os jovens. Para os jovens, a criatividade simplesmente flui.
No Brasil, há 40% de analfabetos e a maioria dos professores é mal remunerada, têm deficiências de formação e, efetivamente, não tem condições de ir à Europa ou de navegar na internet. O que fazer então?
Domenico de Masi - Não estou falando para o universo dos analfabetos nem do ensino público brasileiro, e sim para o universo dos alfabetizados, em especial os professores. E, se os professores brasileiros são carentes, o país é carente. Esse é o problema primordial do Brasil. Os ricos, a elite, parecem não entender isso. Está principalmente na mão da elite brasileira resolver ou não essa questão. Só ela tem as ferramentas para isso. É sua contribuição social. O Brasil tem dois países num só — o dos ricos e o dos pobres.
Falando de questões da sociedade pós-industrial, como a globalização e o desemprego, como o desempregado pode desenvolver seu ócio criativo?
Domenico de Masi - Se o desempregado é rico, então tudo bem! Há dois tipos de desempregados: o pobre financeiramente e intelectualmente e o rico financeiramente e com boa formação intelectual. Esse pode se ocupar de música, literatura, cinema e tem mais chances de desenvolver seu ócio de maneira criativa. O pobre precisa comer, precisa de dinheiro. O pobre tem de se ocupar com a sobrevivência. O ócio criativo é um problema de ricos, para quem já tem um mínimo de estrutura garantida.
Qual é o projeto que o S3 Studium pretende desenvolver no Brasil? O que é preciso para os interessados participarem dele?
Domenico de Masi - Fechamos um acordo com a faculdade Getúlio Vargas para criar em São Paulo uma sede da escola. Formamos jovens para que se tornem planejadores — de uma empresa, escola, jornal ou bairro. Estamos formando agora os professores. Depois, em 2001, começaremos a formar alunos brasileiros. Ainda não estamos selecionando alunos, mas eles só precisam ter um diploma universitário e vontade de mudar o sistema para se juntarem a nós.
A tabela abaixo demonstra a proporção do trabalho na vida de um ser humano do século XX.
Evidencia a importância da organização do Tempo Livre já disponível.
O que De Masi propõe como Ócio Criativo.
Anos Horas Total (hrs) Fórmulas
Expectativa de vida 70- 24 604.800 (70a*24h*365d)
Trabalho (18 - 53) 35 10 80.850 (35a*10h*11m*21d)
Sono 70 8 204.400 (70a*8h*365d)
Horas livres
319.550 (Expectativa de vida) - (Trabalho) - (Sono)
Fonte: Romanticos Conspiradores.
quinta-feira, 12 de agosto de 2010
" A Internet educa?"- André Machado
Fui até o blog da Denise Vilardo. Ela nos convida a fazermos essa reflexão. Acredito que a mesma seja pertinente, por isso, colaboro com a sua intenção.
Denise, obrigada pela oportunidade.
http://www.olpc.org.br/component/content/article/38-eventos/65-3-encontro-educacao-olpc.html
Natalícia
_________________________________________________
RIO - Faz pouco tempo, foi lançado nos Estados Unidos um livro chamado "The dumbest generation" ("A geração mais burra"), do professor universitário de inglês Mark Bauerlein. Baseado em várias pesquisas - de órgãos do governo, consultorias e instituições educacionais -, o livro chega a uma conclusão terrível sobre a juventude americana: ela não lê, não acredita no trabalho, não visita museus e outras instituições culturais e se quer consegue explicar métodos científicos básicos ou saber algo de História. "Mas são campeões em entreter-se uns aos outros", diz um texto no site do autor. "Passam uma inacreditável quantidade de tempo trocando eletronicamente historinhas, fotos, deliciando-se com a atenção de seus pares..."
No começo deste ano, uma pesquisa na Inglaterra mostrou que quase 90% dos estudantes começam uma pesquisa por uma ferramenta de busca em vez de ir a um site de biblioteca. E, quando pesquisam livros e jornais eletrônicos, eles não ficam nos sites mais do que oito minutos.
Professores brasileiros também se preocupam
Professores e pedagogos brasileiros também se preocupam com essas constatações, percebendo que a internet, se por um lado é uma fonte valiosa de informação, por outro apresenta uma desorganização intrínseca que acaba levando à dispersão e deixando de fomentar o espírito crítico. Isso começa na escola e atinge até a universidade, onde a indústria dos trabalhos prontos se transferiu para a rede, como se viu em artigo publicado pela "Digital" na semana passada. Mas vai além do meio acadêmico. Já começa a afetar a busca por jovem profissionais que chegam ao mercado, como atesta a psicopedagoga Heloísa Yoshida, diretora da Sistêmica Desenvolvimento de Pessoas, no Rio.
" Como um jovem que se formou como "pensante" na base do copy/paste no computador pode apresentar essa postura (criativa e com iniciativa? "
--------------------------------------------------------------------------------
- Eu oriento carreiras de executivos e jovens vestibulandos e universitários - conta Heloísa. - E há reflexos dessa geração conectada, chamada geração Y (que nasceu a partir de 1980), dentro do mercado. Quando entrevisto candidatos a emprego para empresas, vejo muitos problemas. Por exemplo, as empresas buscam pessoas criativas e com iniciativa. E como um jovem que se formou como "pensante" na base do copy/paste no computador pode apresentar essa postura?
Heloísa explica que, ao contrário da geração anterior, a atual não aprendeu a construir e estruturar o conhecimento, daí a carência de pensamento original na nascente vida profissional.
- A característica da geração atual é o conhecimento descartável - sentencia. - O livro do Bauerlein é sobre o jovem americano, mas é para a juventude americana que o mundo olha, até em função do cinema. Portanto, a geração de que ele fala está em todo lugar.
'Faltam clareza e transparência na comunicação da geração Y'
O acúmulo de conhecimento, sem construção, também leva à falta de assertividade. Que por sua vez causa uma capacidade capenga de comunicação.
- Faltam clareza e transparência na comunicação da geração Y - diz Heloísa. - A vida dependente da tela do computador leva a isso.
Ela diz que num concurso para trainee em empresas privadas, de seis mil candidatos saem cem, se tanto, para o processo de seleção. E aí o talento individual faz mais diferença.
Para Maristela Memere Riski, assessora pedagógica do Colégio Logosófico, em Botafogo, é preciso lembrar que a juventude, em todas as épocas, sempre foi criticada.
- Outro dia, num congresso, li para os professores algumas palavras, dizendo que a juventude é irascível, não respeita a autoridade, não tem medida... Perguntei-lhes se achavam a frase atual, e eles concordaram. Mas é de Aristóteles, de 300 anos antes de Cristo - comenta. - Isto posto, a questão da cópia é um fato. Os pais chegam nos dizendo que os filhos nem lêem as coisas direito, só copiam e colam, copiam e colam.
Bauerlein citou num chat recente algumas razões por que a geração Y parece perdida: 1) Alienação. "Não é que eles não estejam interessados na realidade, é que eles estão totalmente separados dela. Só querem saber de realidades imediatistas". 2) Falta de leitura. "Nenhuma outra geração se gabou disso como a atual". 3) Incapacidade de soletrar. "A falta de maiúsculas e os códigos de escrita para mensagens instantâneas dominam os textos online". 4) Os jovens são ridicularizados pelos pares por pensarem de forma original. 5) Excesso de games, que acaba prejudicando a vida letiva. 6) Incapacidade de memorizar a informação. "Para quem tem 40 anos e freqüentou bibliotecas na juventude, a internet sem dúvida é um manancial de informação. Não para o jovem de hoje, que usa a internet como um sistema de entrega, recebendo a informação e passando adiante". 7) Os professores não dizem aos jovens que eles são burros. E os pais não brecam as mensagens instantâneas de madrugada.
Para professora, orientação é que norteia resultados.
Nem todo mundo acha que copiar informações representa um problema em si. Tudo depende da orientação que é dada. Essa é a opinião da professora de História Dalva Sartini, supervisora pedagógica do Colégio Liessin.
- A intenção do professor é que vai nortear o resultado de uma pesquisa - diz Dalva. - Ele precisa saber o que pedir e orientar corretamente o aluno. O que o professor deseja? Apenas uma coleta de informação para embasar determinado assunto ou fazer um trabalho em grupo? Nesse contexto, a cópia sempre existiu, inclusive antes da internet. Agora, se deseja uma interpretação, uma inferência sobre o que se pesquisou, deve pedir que o aluno elabore.
Dalva diz que a cópia é a primeira coisa a fazer em qualquer pesquisa, mesmo em níveis de ensino mais altos. Trata-se do ponto de partida para a organização das informações para análise posterior.
- O que acontece muito no ensino médio é que o professor não pede uma elaboração do aluno, mas quer que isso apareça na mão dele - explica Dalva.
O problema, então, pode estar mais atrás, na própria formação dos professores. E isso sem falar no desestímulo para exercer a profissão, uma das mais sacrificadas e desvalorizadas no país.
Maristela Riski diz que, em seu colégio, os alunos têm suas pesquisas, feitas no laboratório de informática, devidamente registradas.
- E, embora haja cópia e colagem de informações, eles precisam elaborar, porque é norma que apresentem os resultados da pesquisa - explica. - É necessário mostrar o que foi processado. Além disso, nestes tempos em que a propriedade intelectual é constantemente tomada, buscamos mostrar que isso não é correto e ensinar valores éticos, debatendo-os.
Ela exige que os sites usados na pesquisa sejam devidamente citados, assim como a bibliografia tradicional. E também orienta os professores para fomentar os procedimentos certos durante a navegação.
- É preciso lembrar que informação ainda não é conhecimento - diz Maristela. - E isso tem de vir do colégio para a vida do jovem.
Professora acha que alunos ainda tem muito a ensinar aos mais velhos
Pessoalmente, ela não vê um declínio do raciocínio dos estudantes, e acha que, pelo contrário, eles podem ter muito a ensinar aos mais velhos, justamente por serem mais proficientes no uso da tecnologia. Também acredita que a internet estimula a vontade de escrever mais, emoticons, códigos e afins à parte. O que falta, mesmo, é a direção, o chamado knowledge management, ou gerenciamento da informação.
- Tentamos incentivar a ida à biblioteca, inclusive para os professores, e eles pedem aos alunos que pesquisem em livros também, não somente na rede.
A lida diária com a internet, que ocasiona a informação "empilhada" e efêmera, acaba prejudicando a geração Y no mercado de trabalho, explica Heloísa Yoshida.
- O conhecimento não é sempre um fator de contratação hoje, porque é possível capacitar alguém em alguns meses para determinada função - diz Heloísa. - Mas o comportamento é um fator fundamental, e justamente por estar conectada com o computador e não com a realidade a geração Y perde nesse quesito. E isso tem a ver com a comercialização e massificação do ensino. Os professores perderam a autoridade e isso se reflete no comportamento dos jovens. Faltam limites.
Hoje, explica, os trabalhos de escola são feitos às dez horas da noite da véspera da entrega: copia-se, cola-se, imprime-se e entrega-se.
- Cabe ao professor orientar, não aceitar isso e mandar refazer.
Dalva Sartini lembra que fazer uma pesquisa é fazer uma pergunta. E que, num primeiro momento, o professor tem que fomentar esta pergunta no espírito dos alunos, direcionando-os para as respostas e estimulando seu raciocínio. Com o passar do tempo, assim, eles aprenderão a fazer as próprias perguntas e encaminhar para as trilhas certas suas investigações.
Fonte André Machado- O Globo
Denise, obrigada pela oportunidade.
http://www.olpc.org.br/component/content/article/38-eventos/65-3-encontro-educacao-olpc.html
Natalícia
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RIO - Faz pouco tempo, foi lançado nos Estados Unidos um livro chamado "The dumbest generation" ("A geração mais burra"), do professor universitário de inglês Mark Bauerlein. Baseado em várias pesquisas - de órgãos do governo, consultorias e instituições educacionais -, o livro chega a uma conclusão terrível sobre a juventude americana: ela não lê, não acredita no trabalho, não visita museus e outras instituições culturais e se quer consegue explicar métodos científicos básicos ou saber algo de História. "Mas são campeões em entreter-se uns aos outros", diz um texto no site do autor. "Passam uma inacreditável quantidade de tempo trocando eletronicamente historinhas, fotos, deliciando-se com a atenção de seus pares..."
No começo deste ano, uma pesquisa na Inglaterra mostrou que quase 90% dos estudantes começam uma pesquisa por uma ferramenta de busca em vez de ir a um site de biblioteca. E, quando pesquisam livros e jornais eletrônicos, eles não ficam nos sites mais do que oito minutos.
Professores brasileiros também se preocupam
Professores e pedagogos brasileiros também se preocupam com essas constatações, percebendo que a internet, se por um lado é uma fonte valiosa de informação, por outro apresenta uma desorganização intrínseca que acaba levando à dispersão e deixando de fomentar o espírito crítico. Isso começa na escola e atinge até a universidade, onde a indústria dos trabalhos prontos se transferiu para a rede, como se viu em artigo publicado pela "Digital" na semana passada. Mas vai além do meio acadêmico. Já começa a afetar a busca por jovem profissionais que chegam ao mercado, como atesta a psicopedagoga Heloísa Yoshida, diretora da Sistêmica Desenvolvimento de Pessoas, no Rio.
" Como um jovem que se formou como "pensante" na base do copy/paste no computador pode apresentar essa postura (criativa e com iniciativa? "
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- Eu oriento carreiras de executivos e jovens vestibulandos e universitários - conta Heloísa. - E há reflexos dessa geração conectada, chamada geração Y (que nasceu a partir de 1980), dentro do mercado. Quando entrevisto candidatos a emprego para empresas, vejo muitos problemas. Por exemplo, as empresas buscam pessoas criativas e com iniciativa. E como um jovem que se formou como "pensante" na base do copy/paste no computador pode apresentar essa postura?
Heloísa explica que, ao contrário da geração anterior, a atual não aprendeu a construir e estruturar o conhecimento, daí a carência de pensamento original na nascente vida profissional.
- A característica da geração atual é o conhecimento descartável - sentencia. - O livro do Bauerlein é sobre o jovem americano, mas é para a juventude americana que o mundo olha, até em função do cinema. Portanto, a geração de que ele fala está em todo lugar.
'Faltam clareza e transparência na comunicação da geração Y'
O acúmulo de conhecimento, sem construção, também leva à falta de assertividade. Que por sua vez causa uma capacidade capenga de comunicação.
- Faltam clareza e transparência na comunicação da geração Y - diz Heloísa. - A vida dependente da tela do computador leva a isso.
Ela diz que num concurso para trainee em empresas privadas, de seis mil candidatos saem cem, se tanto, para o processo de seleção. E aí o talento individual faz mais diferença.
Para Maristela Memere Riski, assessora pedagógica do Colégio Logosófico, em Botafogo, é preciso lembrar que a juventude, em todas as épocas, sempre foi criticada.
- Outro dia, num congresso, li para os professores algumas palavras, dizendo que a juventude é irascível, não respeita a autoridade, não tem medida... Perguntei-lhes se achavam a frase atual, e eles concordaram. Mas é de Aristóteles, de 300 anos antes de Cristo - comenta. - Isto posto, a questão da cópia é um fato. Os pais chegam nos dizendo que os filhos nem lêem as coisas direito, só copiam e colam, copiam e colam.
Bauerlein citou num chat recente algumas razões por que a geração Y parece perdida: 1) Alienação. "Não é que eles não estejam interessados na realidade, é que eles estão totalmente separados dela. Só querem saber de realidades imediatistas". 2) Falta de leitura. "Nenhuma outra geração se gabou disso como a atual". 3) Incapacidade de soletrar. "A falta de maiúsculas e os códigos de escrita para mensagens instantâneas dominam os textos online". 4) Os jovens são ridicularizados pelos pares por pensarem de forma original. 5) Excesso de games, que acaba prejudicando a vida letiva. 6) Incapacidade de memorizar a informação. "Para quem tem 40 anos e freqüentou bibliotecas na juventude, a internet sem dúvida é um manancial de informação. Não para o jovem de hoje, que usa a internet como um sistema de entrega, recebendo a informação e passando adiante". 7) Os professores não dizem aos jovens que eles são burros. E os pais não brecam as mensagens instantâneas de madrugada.
Para professora, orientação é que norteia resultados.
Nem todo mundo acha que copiar informações representa um problema em si. Tudo depende da orientação que é dada. Essa é a opinião da professora de História Dalva Sartini, supervisora pedagógica do Colégio Liessin.
- A intenção do professor é que vai nortear o resultado de uma pesquisa - diz Dalva. - Ele precisa saber o que pedir e orientar corretamente o aluno. O que o professor deseja? Apenas uma coleta de informação para embasar determinado assunto ou fazer um trabalho em grupo? Nesse contexto, a cópia sempre existiu, inclusive antes da internet. Agora, se deseja uma interpretação, uma inferência sobre o que se pesquisou, deve pedir que o aluno elabore.
Dalva diz que a cópia é a primeira coisa a fazer em qualquer pesquisa, mesmo em níveis de ensino mais altos. Trata-se do ponto de partida para a organização das informações para análise posterior.
- O que acontece muito no ensino médio é que o professor não pede uma elaboração do aluno, mas quer que isso apareça na mão dele - explica Dalva.
O problema, então, pode estar mais atrás, na própria formação dos professores. E isso sem falar no desestímulo para exercer a profissão, uma das mais sacrificadas e desvalorizadas no país.
Maristela Riski diz que, em seu colégio, os alunos têm suas pesquisas, feitas no laboratório de informática, devidamente registradas.
- E, embora haja cópia e colagem de informações, eles precisam elaborar, porque é norma que apresentem os resultados da pesquisa - explica. - É necessário mostrar o que foi processado. Além disso, nestes tempos em que a propriedade intelectual é constantemente tomada, buscamos mostrar que isso não é correto e ensinar valores éticos, debatendo-os.
Ela exige que os sites usados na pesquisa sejam devidamente citados, assim como a bibliografia tradicional. E também orienta os professores para fomentar os procedimentos certos durante a navegação.
- É preciso lembrar que informação ainda não é conhecimento - diz Maristela. - E isso tem de vir do colégio para a vida do jovem.
Professora acha que alunos ainda tem muito a ensinar aos mais velhos
Pessoalmente, ela não vê um declínio do raciocínio dos estudantes, e acha que, pelo contrário, eles podem ter muito a ensinar aos mais velhos, justamente por serem mais proficientes no uso da tecnologia. Também acredita que a internet estimula a vontade de escrever mais, emoticons, códigos e afins à parte. O que falta, mesmo, é a direção, o chamado knowledge management, ou gerenciamento da informação.
- Tentamos incentivar a ida à biblioteca, inclusive para os professores, e eles pedem aos alunos que pesquisem em livros também, não somente na rede.
A lida diária com a internet, que ocasiona a informação "empilhada" e efêmera, acaba prejudicando a geração Y no mercado de trabalho, explica Heloísa Yoshida.
- O conhecimento não é sempre um fator de contratação hoje, porque é possível capacitar alguém em alguns meses para determinada função - diz Heloísa. - Mas o comportamento é um fator fundamental, e justamente por estar conectada com o computador e não com a realidade a geração Y perde nesse quesito. E isso tem a ver com a comercialização e massificação do ensino. Os professores perderam a autoridade e isso se reflete no comportamento dos jovens. Faltam limites.
Hoje, explica, os trabalhos de escola são feitos às dez horas da noite da véspera da entrega: copia-se, cola-se, imprime-se e entrega-se.
- Cabe ao professor orientar, não aceitar isso e mandar refazer.
Dalva Sartini lembra que fazer uma pesquisa é fazer uma pergunta. E que, num primeiro momento, o professor tem que fomentar esta pergunta no espírito dos alunos, direcionando-os para as respostas e estimulando seu raciocínio. Com o passar do tempo, assim, eles aprenderão a fazer as próprias perguntas e encaminhar para as trilhas certas suas investigações.
Fonte André Machado- O Globo
" A criança é coisa séria"- Herbert de Souza
A criança é o princípio sem fim. O fim da criança é o princípio do fim. Quando uma sociedade deixa matar a criança é porque começou seu suicídio como sociedade. Quando não as ama é porque deixou de se reconhecer como humanidade.
Afinal, a criança é o que fui em mim e em meus filhos, enquanto eu em humanidade. Ela como princípio é a promessa de tudo. É mimha obra livre de mim.
Se não vejo na criança, uma criança, é porque alguém a violentou antes e o que vejo é o que sobrou o que lhe foi tirado. Mas essa que vejo na rua sem pai, sem mãe, sem casa, cama e comida, essa que vive a solidão das noites sem gente por perto, é um grito, é um espanto. Diante dela, o mundo deveria parar para começar um novo encontro, porque a criança é o princípio sem fim e o seu fim é o fim de todos nós.
terça-feira, 10 de agosto de 2010
" Leitura nas férias, melhora o desempenho escolar"
Embora os adultos geralmente agarrem a chance de atualizar sua leitura durante as férias, muitas crianças e adolescentes, especialmente em famílias de baixa renda, leem poucos livros durante as férias de verão- isso quando leem. Porém, o preço de manter os livros fechados é alto demais. Diversos estudos documentam um "declínio de verão" nas habilidades de leitura assim que as escolas liberam os alunos na primavera, no Hemisfério Norte.
O declínio nas habilidades de leitura e ortografia são maiores entre alunos de baixa renda, que perdem o equivalente a dois meses de escola em cada verão, segundo a National Summer Learning Association, um grupo de apoio à educação. E a perda se acumula a cada ano.
Agora, uma nova pesquisa oferece uma solução surpreendentemente simples e barata para o declínio de leitura no verão. Num estudo de três anos, pesquisadores da Universidade do Tennessee, em Knoxville, descobriram que simplesmente dar acesso a livros às crianças de baixa renda nas feiras da primavera - e permitir que elas escolham livros que mais as interessem - surtiu um efeito significativo na lacuna de leitura do verão.
O estudo, financiado pelo Departamento Federal de Educação dos EUA, acompanhou os hábitos de leitura e as notas de mais de 1.300 alunos da Flórida, vindos de 17 escolas de baixa renda. A maioria das crianças era pobre o bastante para receber almoços escolares grátis ou com desconto.
Os pesquisadores queriam estudar se proporcionar livros às crianças durante as férias de verão afetaria seu desempenho ao longo dos anos. No início do estudo, 852 alunos da primeira e da segunda série, selecionados aleatoriamente, compareceram a uma feira escolar de livros na primavera, onde puderam escolher entre 600 títulos.
Era oferecida uma variedade de livros, desde aqueles sobre celebridades como Britney Spears e "The Rock", até histórias de personagens ficcionais como o corajoso criador de casos Junie B. Jones. As crianças também podiam escolher livros culturalmente relevantes, com personagens afro-americanos, assim como livros em espanhol.
As crianças escolheram 12 livros. Os pesquisadores também selecionaram aleatoriamente um grupo de controle de 478 crianças que não receberam nenhum livro. A essas crianças, ofereceram atividades livres e livros de quebra-cabeças.
As feiras e distribuições de livros continuaram por três verões, até que os participantes do estudo chegaram à quarta e quinta séries. Então, os pesquisadores compararam as notas de testes de leitura para os dois grupos.
As crianças que haviam recebido os livros grátis atingiram notas significativamente mais altas que aquelas com livros de atividades. O efeito, correspondente a 1/16 do desvio padrão em notas de testes, foi equivalente a uma criança fazer três anos de cursos de verão, segundo o relatório a ser publicado em setembro no jornal "Reading Psychology". A diferença nas notas foi duas vezes maior entre as crianças mais pobres do estudo.
As descobertas chegam num momento em que muitos distritos escolares consideram cortar os programas de verão para economizar verbas, de acordo com uma recente pesquisa pela Associação Americana de Administradores de Escolas. O estudo mostrou que oferecer livros gratuitamente, por um custo de US$50 por criança, é uma maneira muito mais econômica de estimular a leitura de verão, afirmou uma co-autora do estudo, Anne McGill-Franzen, professora e diretora do centro de leitura da Universidade do Tennessee, em Knoxville.
Uma das descobertas mais notáveis foi que as crianças aprimoraram sua leitura mesmo sem escolher os livros do currículo escolar, ou os clássicos normalmente indicados pelos professores como leitura de verão. Essa conclusão confirma outros estudos sugerindo que as crianças aprendem melhor quando podem escolher seus próprios livros.
Surpreendentemente, o livro mais popular durante o primeiro ano do estudo na Flórida foi uma biografia da cantora Britney Spears.
"O que isso significa para mim é que existe uma cultura e uma mídia jovens que transcendem o que achamos que as crianças deveriam ler", disse a Dra. McGill-Franzen. "Eu não acho que a maioria dessas crianças lia qualquer coisa durante o verão, mas a oportunidade de escolher seus próprios livros e discutir o que sabem sobre 'The Rock' ou Hannah Montana era algo motivador para eles".
Ellen Galinsky, presidente do Families and Work Institute e autora de um novo livro sobre o aprendizado infantil, "Mind in the Making", disse esperar que as descobertas estimulem pais e professores a deixar que as crianças escolham seu próprio material de leitura.
"Os interesses de uma criança são uma porta para a sala de leitura", afirmou Galinsky, acrescentando que seu próprio filho virava as costas aos livros durante a graduação. Como ele gostava de música, ela o encorajou a ler revistas de música ou livros sobre músicos. Seu filho acabou ganhando interesse na leitura e hoje possui um Ph.D.
"Se o seu filho não gosta de leitura, fazê-lo ler qualquer coisa é melhor do que nada", explicou ela.
Porém, dar às crianças a escolha dos livros que leem é uma mensagem a que muitos pais ainda resistem.
Recentemente, numa livraria, a Dra. McGill-Franzen disse ter testemunhado uma conversa entre algumas mães estimulando suas filhas, da quinta e sexta séries, a ler biografias de figuras históricas, quando as meninas queriam escolher livros sobre Hannah Montana - uma personagem interpretada pela estrela adolescente Miley Cyrus.
"Se esses livros os fizerem ler, isso gera ótimas repercussões no sentido de deixá-los mais inteligentes", disse a Dra. McGill-Franzen. "Professores e pais de classe média subestimam as preferências das crianças, mas eu acho que precisamos deixar de ser tão rígidos com suas escolhas em relação a livros".
Fonte: The New York Times
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