terça-feira, 29 de junho de 2010

" A era da desatenção"- Somos todos hiperativos?

Após epidemia de diagnósticos de transtorno de deficit de atenção e hiperatividade em crianças, adultos encontram nas drogas Ritalina e Concerta, os nomes comerciais do metilfenidato, a tábua de salvação para o baixo desempenho na era multimídia -1,2 milhão de caixas de remédio foram vendidas no Brasil em 2008.

HUCKLEBERRY FINN, PROTAGONISTA das aventuras do romance de Mark Twain (1835-1910) que leva seu nome, daria um sério candidato, nos dias de hoje, à domesticação com base na droga metilfenidato (Ritalina e Concerta são as marcas disponíveis no Brasil). Isso, claro, se algum orientador da escola conseguisse capturar o menino para encaminhar a um consultório de psiquiatria infantil.


Já o negro Jim, se caísse nas mãos de um psiquiatra de passagem pelo Mississippi em meados do século 19, seria provavelmente devolvido a ferros com um diagnóstico de drapetomania (do grego "drapetés", fugitivo). A especialidade médica tinha menos de meio século e se empenhava em cunhar suas próprias "doenças".

Huck, o amigo do escravo fujão, preencheria facilmente o mínimo de 6 dos 18 critérios de diagnóstico para o Transtorno de Deficit de Atenção e a Hiperatividade (TDAH), alvo do metilfenidato. Não era propenso a seguir instruções, ficar quieto ou pensar antes de responder. Reações precipitadas eram com ele mesmo. Lição de casa, nem pensar.

A viúva Douglas e a srta. Watson bem que tentavam civilizar o garoto impulsivo e agitado, mas ele fugiu -só para terminar nas garras do pai bêbado, que o trancou numa cabana. Huck fugiu de novo. Seguem-se 349 páginas de hiperatividade pura, que terminam com Huck anunciando nova partida, para territórios indígenas a oeste.

Huck, na nossa era multimídia, faria companhia aos 2,7 milhões de americanos entre 6 e 17 anos que tomam estimulantes como o metilfenidato e outros medicamentos psicoativos, entre os 4,6 milhões de diagnosticados com TDAH (8,4% da população nessa faixa etária). O consumo per capita de metilfenidato nos EUA é oito vezes maior que em países europeus. Estima-se que, no mundo, 5,3% dos jovens tenham TDAH.

Por aqui, o preguiçoso e irrequieto Macunaíma, de Mário de Andrade, talvez recebesse o mesmo diagnóstico (ou estigma). Nas escolas particulares e escritórios da cidade grande que fascinaram o herói sem nenhum caráter, seus descendentes descobriram o metilfenidato.

No Brasil, de 2000 a 2008, as vendas passaram de 71 mil caixas anuais para 1,2 milhão. Quantidade suficiente para medicar dezenas de milhares de adolescentes e crianças.


SUPERDIAGNÓSTICO
 Há alguma coisa errada nesses números, segundo Luis Augusto Rohde, psiquiatra da infância e da adolescência na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). E não é por excesso, mas por falta de diagnósticos.

"Em termos de saúde pública, não existe no Brasil problema de superdiagnóstico e supertratamento", afirma Rohde, autor principal de um influente artigo sobre TDAH publicado em 2007 no periódico "American Journal of Psychiatry", citado por quase 300 especialistas em outros trabalhos. Foi desse estudo que saiu a cifra de 5,3% de prevalência mundial.

O Brasil tem 47 milhões de crianças e adolescentes de 6 a 18 anos; 5% deles seriam 2,35 milhões. "Não temos mais do que 100 mil crianças usando a medicação", estima Rohde. "Há escolas privadas no país com um número excessivo de tratamentos, mas é uma realidade pontual."

Para o grupo gaúcho, existe uma epidemia de uso indevido da medicação por adultos. O metilfenidato estaria sendo empregado para melhorar o desempenho de estudantes e profissionais em tarefas pesadas e monótonas, como a leitura e a redação de textos longos -preparação de exames, relatórios, e por aí vai.

"Há muitas mães que usam [o metilfenidato] para emagrecer", agrega o também gaúcho Guilherme Vanoni Polanczyk, atualmente na Faculdade de Medicina da USP, primeiro autor do artigo liderado por Rohde, que foi seu orientador. Um estudo que eles fizeram em escolas públicas de Porto Alegre constatou que só 2% dos alunos que satisfazem os critérios do TDAH recebiam medicação.

SINTOMAS VAGOS
 Outra causa provável do aumento exponencial de vendas de Ritalina e Concerta é a automedicação como consequência de autodiagnósticos. Pouca gente deixaria de se reconhecer na lista oficial de 18 sintomas compilada no "Manual de Diagnóstico e Estatística", da Associação Americana de Psiquiatria (DSM-4), segundo o qual portadores de TDAH frequentemente:

1. Deixam de prestar atenção a detalhes ou cometem erros por descuido em atividades escolares, de trabalho ou outras;

2. Têm dificuldade para manter a atenção em tarefas ou atividades lúdicas; 3. Parecem não escutar quando lhe dirigem a palavra;

4. Não seguem instruções e não terminam deveres escolares, tarefas domésticas ou deveres profissionais;

5. Têm dificuldade para organizar tarefas e atividades;

6. Evitam, antipatizam ou relutam em envolver-se em tarefas que exijam esforço mental constante;

7. Perdem coisas necessárias para tarefas ou atividades;

8. São facilmente distraídos por estímulos alheios à tarefa;

9. Se esquecem de atividades diárias;

10. Agitam as mãos ou os pés ou se remexem na cadeira;

11. Abandonam sua cadeira em sala de aula ou quando se espera que permaneçam sentados;

12. Correm em situações inapropriadas;

13. Têm dificuldade para brincar ou se envolver silenciosamente em atividade de lazer;

14. Agem como se estivessem "a todo vapor";

15. Falam em demasia;

16. Dão respostas precipitadas, antes de concluídas as perguntas;

17. Têm dificuldade para aguardar sua vez;

18. Interrompem conversas ou se metem em assuntos dos outros.

"Alguém que age e reage de maneira diferente, que aprende diferente, já é tachado como doente", diz Maria Aparecida Moysés, professora titular de pediatria da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Ela vê um processo "muito intenso e extenso" de medicalização do comportamento. Só 1% de seus colegas de especialidade encara o TDAH como uma doença real, que deve ser tratada por médicos, segundo uma pesquisa de opinião de 2007.

"Quando você vê os critérios diagnósticos, não tem como não se enquadrar. É de uma imprecisão absurda, não tem nada de evidência científica", diz ela. "Se for por aí, todo mundo tem deficit de atenção."


MENTES INSACIÁVEIS
 A psiquiatra Ana Beatriz Barbosa Silva descobriu ser portadora 24 anos atrás, aos 19, quando era estudante de medicina na Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj). "O diagnóstico de TDAH dividiu minha vida em antes e depois", conta. "Foi similar a quando descobri que era míope e usei óculos pela primeira vez -eu via o mundo como uma pintura impressionista. A partir dali, comecei a vê-lo cheio de detalhes, barroco."

A descoberta ocorreu durante um congresso médico em Chicago, quando a acadêmica de medicina se reconheceu na descrição dos sintomas. Hoje, a médica ainda recorre a pílulas (bupropiona) para trabalhos que exigem muita concentração, como a revisão de textos longos.

Medicada, disciplinou-se a ponto de escrever um livro inteiro. "Mentes Inquietas", a obra, vendeu cerca de 50 mil exemplares desde que foi relançada pela editora Objetiva em setembro de 2009 (das vendas da primeira versão, de 2003, não há cifra precisa; segundo a autora, ultrapassaram 150 mil cópias).

O TDAH abriu um filão para a escritora, que depois lançou "Mentes Perigosas", "Mentes com Medo", "Mentes Insaciáveis", "Mentes e Manias" e o recém-publicado "Bullying: Mentes Perigosas nas Escolas". Mais três volumes da série "Mentes..." vêm aí.


TEMPOS DA BENZEDRINA
Não resta muita dúvida de que o metilfenidato aumenta a produtividade e contribui para o avanço da literatura -pelo menos a de autoajuda. No passado, escritores de estirpe diversa recorreram aos préstimos de estimulantes para turbinarem atenção e redação.

W.H. Auden, James Agee, Graham Greene, Jack Kerouac e até Jean-Paul Sartre teriam recorrido a estimulantes para ler e escrever mais, relata Joshua Foer num artigo para a revista eletrônica "Slate". Eram os tempos da benzedrina (tipo de anfetamina).

O próprio Foer conduziu um experimento de uma semana com Aderall, um dos medicamentos mais populares nos EUA para tratar TDAH (e, ao lado da Ritalina, consumido por 20% dos universitários americanos). Os resultados foram "miraculosos". De uma sentada, Foer leu 175 das 1.386 páginas de "A Estrutura da Teoria Evolucionista", do grande biólogo Stephen Jay Gould.

"Eu me sentia menos eu mesmo", escreveu. "Embora pudesse lançar mais palavras por hora na página com o Aderall, tive uma suspeita incômoda de que estava pensando com viseiras." Em conversa com amigos escritores, confirmou que outros também sentiam a criatividade tolhida pelo remédio.

A benzedrina não parece ter prejudicado a escrita de Kerouac no clássico da literatura beat "On the Road - Pé na Estrada" (L&PM) -ao contrário, dirão seus cultuadores. Mas contribuiu, segundo Foer, para baixá-lo ao hospital com uma tromboflebite.


DISFUNÇÃO MÍNIMA
 Os usuários habituais de metilfenidato precisam tomar cuidado com efeitos colaterais como aumento moderado da pressão arterial e da frequência cardíaca. Em jovens e crianças, a droga parece capaz de retardar o crescimento, talvez até 1,2 cm por ano.

Theodor Lowenkron, da Sociedade Brasileira de Psiquiatria, recomenda cautela na prescrição de drogas psicoativas, em especial para crianças. "Para indicar ou não a droga, os prós e os contras devem ser bem avaliados -caso a caso", enfatiza. "E a intervenção terapêutica não deve se limitar à prescrição de remédios." Apesar das manifestações adversas, o metilfenidato foi aprovado pela poderosa FDA (agência de alimentos e fármacos dos EUA) já em 1955, para tratar sintomas hoje enfeixados como TDAH.

A epidemia de vendas só deslanchou depois de 1999, quando um estudo clínico pioneiro mostrou a superioridade do tratamento com remédios sobre a terapia comportamental com envolvimento de pais e mestres. Anos depois, o acompanhamento do grupo de pacientes revelou que a suspensão do metilfenidato faz voltarem os sintomas. No longo prazo, a vantagem do medicamento sobre outros tratamentos decai.

Na Europa, prevalece o nome "transtorno hipercinético", ou HKD na abreviação em inglês. Antes, o complexo de comportamentos recebia nomes como "síndrome da criança hiperativa", "reação hipercinética da infância" ou "disfunção cerebral mínima".

HKD é a classificação da Organização Mundial da Saúde, que usa uma lista de sintomas parecida com a do DSM-4, mas exige 10 deles, e não 6, para o diagnóstico. O critério restritivo, associado com diferenças culturais, é apontado como responsável pela discrepância na proporção de casos dos dois lados do Atlântico.

CUMPLICIDADE
 O componente cultural é refutado pelo estudo estatístico dos brasileiros Rohde e Polanczyk, que atribuem a variação nas cifras de prevalência pelo mundo ao uso de metodologias díspares. Eles rejeitam tanto a ideia de que o aumento de TDAH seja fruto das condições da vida contemporânea quanto a de que se deva ao sucesso de uma "construção social", mancomunando psiquiatras com a indústria farmacêutica para ampliar mercado.

Rohde atende hoje cerca de 500 adultos em seu serviço de TDAH em Porto Alegre. Não se trata de nova expansão "medicalizante", afirma, mas da manutenção dos sintomas em 70%-80% das crianças e jovens diagnosticados quando chegam à maturidade. "Não é só no trabalho, é aquele adulto que dirige de forma imprudente, que tem mais acidentes, mais envolvimento com álcool e drogas", ressalva Rohde.

Polanczyk rejeita também a explicação pelo estigma: adultos não permanecem com dificuldades de desempenho só por carregar o suposto fardo de terem sido apontados como crianças problemáticas e recorrido a remédios. "É ilusório pensar que o estigma surge só com o medicamento."

Alívio Os pais já não iam a restaurantes, antes do remédio. Os colegas não convidavam para as festas. Os castigos se repetiam na escola. E as peças de teatro interativas estavam há tempos fora de questão. "O medicamento alivia o estigma", diz Polanczyk.

O psiquiatra se retrai igualmente diante da possibilidade de que o TDAH seja fruto do estilo de vida em que crianças e jovens são bombardeados com uma profusão de estímulos de informação e entretenimento por meios eletrônicos -a geração videogame. Não rejeita de todo a explicação, mas se refugia num eufemismo científico para defender o caráter substancial do transtorno: "Não vejo evidências de que a cultura cause o TDAH".

Os críticos dessa "fabricação de doenças", outro rótulo dos adeptos da construção social, soam mais incisivos. Thomas Szasz, velho combatente anti-TDAH nos EUA, fala de uma "aliança ímpia da psiquiatria com o Estado" para reprimir comportamentos desviantes (partiu dele o exemplo da drapetomania usado mais atrás). "Diagnósticos não são doenças", costuma dizer. "Nenhum comportamento ou mau comportamento é doença ou pode ser doença." Ele classifica a psiquiatria na mesma categoria inconfiável dos governos. Como o fogo, na metáfora de George Washington, ambos são "servos perigosos e amos temíveis".

SEM TESTES
Para os defensores da realidade do TDAH, a hipótese da "construção social" do transtorno se apoia numa limitação real da psiquiatria e na incompreensão da natureza dos sintomas com que ela lida. Em seu jargão, eles são de tipo "dimensional", não "categórico".

Em outras palavras, querem dizer que os 18 quesitos apresentados mais atrás procuram delimitar, num contínuo de comportamentos variados, e com o máximo de objetividade possível, a faixa de manifestações socialmente sancionadas como patológicas ou intoleráveis. Não há exames de sangue, testes genéticos ou ultrassonografias para diagnosticar categoricamente o TDAH.

"Não existe o grupo dos ansiosos e dos não-ansiosos, dos atentos e dos desatentos. Sintomas atencionais de hiperatividade qualquer pessoa vai ter em situações de estresse, de conflito, de cansaço", concede Rohde. "A diferença é que indivíduos com TDAH têm isso como marca registrada, faz parte do seu dia a dia."

Há estudos com pares de gêmeos indicando que o TDAH independe, em grande medida -80%, segundo Rohde-, do modo como os jovens são criados. Vários outros relacionam o transtorno com genes envolvidos na regulação de neurotransmissores e no desenvolvimento deficiente de áreas do cérebro. Mas não se formou consenso sobre eles, muito menos para padronizar exames.

O fato de não existirem testes, contudo, não significa que o transtorno não seja real, que não tenha base fisiológica. Ausência de evidência não é evidência de ausência, poderiam dizer.

CALVINISMO "Depressão também não tem correlato biológico, mas ninguém duvida que a depressão exista. As pessoas se matam", pondera Polanczyk. O sistema nervoso é complexo, e o acesso ao cérebro para estudo, muito mais difícil que a outros órgãos. "Na psiquiatria, estamos muito atrás da medicina como um todo."

Como disse outro médico do Rio Grande do Sul, Olavo Amaral, que comentou o estudo de Rohde e Polanczyk em carta aos editores do "American Journal", "o conceito de transtorno e seus critérios diagnósticos são construções sociais por definição".

Os defensores do TDAH tampouco se incomodam com a acusação de serem propagandistas remunerados pela indústria farmacêutica. O grupo de Rohde recebe financiamento de pesquisa das empresas Bristol-Myers Squibb, Eli Lilly, Janssen-Cilag e Novartis. O psiquiatra também dá palestras sob patrocínio das empresas, mas declara que a remuneração pessoal por serviços prestados à indústria não ultrapassa US$ 10 mil anuais.

O mesmo argumento desconfiado, segundo ele, pode ser voltado contra os inimigos do TDAH. "Recebo pacientes que faziam psicanálise e que, quando melhoram os sintomas com medicamentos, se sentem desmotivados a seguir com a psicanálise", diz Rohde. "Vai me dizer que não existe conflito de interesse em manter o cara no consultório dele por anos?"

Em 2008, o Centro Hastings, nos EUA, dedicado a questões de bioética e políticas públicas, organizou seminários sobre os controversos distúrbios emocionais e comportamentais em crianças, como o TDAH. A discussão resultou num artigo que dá o que pensar sobre a querela dos construcionistas com os psiquiatras.

O título é: "Fatos, Valores e TDAH - Uma Atualização da Controvérsia". Os autores, Erik Parens e Josephine Johnston. O trabalho, que saiu no periódico "Child and Adolescent Psychiatry and Mental Health" (2009), faz uma apresentação equilibrada dos dois lados na disputa bizantina.

O artigo alerta para o risco de distorcer as categorias diagnósticas do DSM. Essas categorias seriam abstrações, não entidades encontradas na natureza. Mas ressalva: "Nossa descrição das complexidades e da indefinição das fronteiras não foi feita para sugerir que o TDAH não seja real. Os sintomas de TDAH podem causar sofrimento significativo em crianças, nas famílias e nas escolas".

Diante desse sofrimento, o "niilismo diagnóstico" não seria uma opção. Só a adesão irrefletida a um calvinismo farmacêutico -que enfatiza o culto moralista do sofrimento como alternativa à solução fácil dos comprimidos- poderia servir-lhe de justificativa.

Huck Finn e Macunaíma não cairiam nessa.

Conflito de interesses: os autores desta reportagem declaram que não contaram com apoio de drogas psicoativas, exceto cafeína.



NILO TORTURELLA

sábado, 26 de junho de 2010

Aedes aegypti e Aedes albopictus - Uma Ameaça nos Trópicos - PARTE 2




O documentário mostra o ciclo de vida dos mosquitos que transmitem a dengue e a febre amarela, Aedes aedypti e Aedes albopictus. Excelente para o aprendizado, tanto nas escolas públicas, quanto às ONGs e comunidades.

sexta-feira, 25 de junho de 2010

Desabafo...



“Parafraseio o Alberto Caeiro: “Não é bastante ter ouvidos para se ouvir o que é dito. É preciso também que haja silêncio dentro da alma.“ Daí a dificuldade: a gente não agüenta ouvir o que o outro diz sem logo dar um palpite melhor, sem misturar o que ele diz com aquilo que a gente tem a dizer. Como se aquilo que ele diz não fosse digno de descansada consideração e precisasse ser complementado por aquilo que a gente tem a dizer, que é muito melhor.”

Estou triste. Não é uma tristeza comum, é uma tristeza de pesar. A perda é algo que não estamos preparados. Podemos filosofar sobre a morte, podemos ter uma religião, fé, mas ainda assim, é algo que o mistério ronda como uma sombra na caverna.


Creio que a morte é a própria resposta da vida. Mas isso por si só não acalma e nem responde a necessidade do apego a perda ao ente querido.

Nem sempre lembro-me dos meus sonhos. Mas ontem sonhei com a minha mãe. Ela me pedia para aquecer os seus pés, coisa que gostava de fazer e foi à última que fiz por ela na UI. Logo em seguida, veio o meu cachorro, que me pediu um grande afago. Eu o reconheci pelo seu cheiro.

E após, tive alguns pesadelos. Coisa que só o inconsciente nos revê-la.

Essa semana foi pesada. Entre perdas e ganhos, as perdas foram maiores. Perdas que só os seres humanos são capazes de arquitetar.

Eu sempre tive como melhores amigos os animais, parece louco, mas é algo explicável para quem é filho temporão, onde a sua irmã mais velha só tem tempo pra sua escolha religiosa e a do meio resolve assumir o papel de mãe. Como lidar com tantas perdas: minhas e a dos outros.

Vivi rodeada de animais. Muitas das vezes cheguei acreditar que eles são muito mais sábios que os humanos. Não tive um animal que se quer me magoasse ou abandonasse.

Acredito que Deus os colocou no mundo para ensinar aos seres humanos a serem mais humanos.

E para mim, foi à forma que encontrei para pertencer a este mundo, para enfrentar as reações adversas. Sabemos que o mundo material não preenche uma existência e sim o respeito as nossas crenças e valores. Mesmo que o destino nos aponte um caminho, mesmo assim, temos que construir o caminho.

E aqui ficam muitas perguntas:

- Quem eu abandonei? Quem eu deixei de ajudar?

O amor é transitório, a sabedoria não e a minha caridade deve ser grande. Não existe amor sem caridade, assim como não existe fé sem espiritualidade.

Não procuro a salvação, procuro a fé nas pessoas que geram ações humanitárias diante de sua fé.

Que possamos ser sábios, fortes, dignos, diante da crueldade humana, ajudando a exterminar o trabalho escravo, a matança aos animais, a discriminação social e valorizando a todos aqueles que dedicam a sua vida em prol das pesquisas que venham salvar vidas e respeitem os princípios humanitários.

É isso que desejo para mim e para os meus semelhantes.

Bom fim de semana!

Natalícia

quarta-feira, 23 de junho de 2010

Palavras para uma cidade, de José Saramago


Hoje tirei o dia para me emocionar, com tantas palavras presas na garganta que só um novo retrato de um novo ser poderia se auto revelar... EU.

Fonte: http://www.youtube.com/

Do fundo do poço se vê a lua, de Joca Reiners Terron




Vi esse vídeo e algo nele me emocionou. Não sei bem o que foi, mas acredito que venho percorrendo muitos caminhos e novas facetas dos seres humanos que ainda não conhecia. Por isso talvez, ele se encontre nesse universo investigativo.
Irei conferir...


Do fundo do poço se vê a lua conta a história de Wilson e William, gêmeos nascidos em São Paulo nos anos finais da ditadura. Órfãos de mãe e criados pelo pai, ator, os meninos são treinados para atuarem juntos, mas as brincadeiras da infância, porém, revelam que a semelhança dos irmãos é apenas física. William é violento, taciturno e masculino, enquanto Wilson é feminino e dono de inteligência tão sagaz quanto compulsiva.
A espinha dorsal do romance é a batalha de Wilson para livrar-se da imagem espelhada do irmão e se transformar numa figura feminina inspirada pelo objeto de sua obsessão, a rainha egípcia Cleópatra, sobretudo como encarnada no cinema por Elizabeth Taylor. Após uma tragédia que separa os gêmeos, uma trama surpreendente envolvendo trocas de sexo, assassinatos e perda de memória conduzirá a história até a enigmática cidade do Cairo. Incitado por um cartão-postal enviado pelo irmão desaparecido, William irá à sua procura e tentará resolver o mistério de seu paradeiro e de sua identidade.
Com um estilo ao mesmo tempo cômico e violento, poético e rude, o autor revela aos poucos uma história sobre o amor fraterno buscando resistir à ameaça insistente do signo da morte.

Fonte: blog companhia das letras

terça-feira, 22 de junho de 2010

" Benéfica solidão" - Martha Medeiros


( Mosteiro Meteora na Grédia)


“ Geralmente a solidão é larga, esgarçada, como uma camiseta que poderia vestir outros corpos além do nosso.

E costuma ser com outros corpos que se tenta combatê-la, mas combatê-la por quê?

Se nossa solidão pudesse ser visualizada, ela seria um vasto campo abandonado, um estádio de futebol numa segunda-feira de manhã. Dói, mas tem poesia. Por isso ela não precisa ser aniquilada, ela só precisa de um sentido.

Eu não saberia dizer que outra coisa mais benéfica para isso do que livros. Uma biblioteca com mil volumes é um exército que não combate a solidão, mas a ela se alia.

A solidão costuma ser tratada como algo deslocado da realidade, como um tumor que invade um órgão vital. Ah, se todos os tumores pudessem ser curados com amigos. Uma pessoa que não fez amigos não teve pela sua vida nenhum respeito.

Nossa solidão é nossa casa e necessita abrir horários de visita, hospedar, convidar para o almoço, cozinhar com afeto, revelar-se uma solidão anfitriã, que gosta de ouvir as histórias das solidões dos outros, já que todos possuem seus descampados.

Permita que sua solidão seja bem aproveitada, que ela não seja inútil. Em vez de tentar expulsá-la, habite-a com espiritualidade, estética, memória, inspiração, percepções. Não será menos solidão, apenas uma solidão mais povoada. "



Por: Martha Medeiros
Fonte: Blog: BLISS1000

sábado, 19 de junho de 2010

A educação infantil necessita urgente de novas ações






Pesquisa avaliou 43 aspectos do ensino de crianças em seis capitais do País; notas não passam de 6,7






A educação infantil brasileira merece nota 3,4, numa escala de zero a dez. A conclusão é da pesquisa "Educação Infantil no Brasil: avaliação qualitativa e quantitativa", realizada pela Fundação Carlos Chagas em parceria com o Ministério da Educação e o Banco Interamericano de Desenvolvimento, cujos resultados serão apresentados hoje e amanhã.

Obtido com exclusividade pelo Estado, o estudo mediu a qualidade da creche (de 0 a 3 anos) e da pré-escola (4 e 5 anos) em seis capitais de todas as regiões do País: Belém, Campo Grande, Florianópolis, Fortaleza, Rio de Janeiro e Teresina.

A nota 3,4 demonstra que a qualidade do ensino infantil tem nível básico (de 3 a 5) - os outros estágios eram: inadequado (1 a 3), adequado (5 a 7), bom (7 a 8,5) e excelente (8,5 a 10).

Foram avaliados 43 aspectos divididos nas seguintes áreas: espaço e mobiliário (média 3,1); rotinas de cuidado pessoal (4,1); linguagem e raciocínio (3,7); atividades (2.3); interação (5,6); estrutura do programa (2,5) e pais e equipe das escolas (3,6). É a primeira vez que se tem acesso a tópicos aprofundados das condições do ensino infantil no País.

O aspecto que recebeu a nota mais baixa (1,6) está dentro da área de atividades e avalia a disponibilidade de materiais para aulas de ciências, como coleções de objetos naturais e livros e jogos temáticos. Já o que recebeu a nota mais alta, 6,7, pertence ao quesito interação e analisa se as relações entre adultos e crianças são empáticas.

Para Marcelo Alfaro, especialista em educação do BID no Brasil, os resultados baixos não surpreendem. Segundo ele, a área mais problemática é a chamada "fundamentalização" do ensino infantil (abordagem semelhante à do ensino fundamental). "Isso é observável, por exemplo, na disposição das carteiras nas salas de crianças 4 e 5 anos", afirma. "É essencial construir uma identidade própria para a nossa educação infantil."

A solução para o quadro negativo, de acordo com Alfaro, está num pacote de medidas que abrangem desde investimentos em materiais a melhorias na formação dos professores. "A parceria entre o MEC e as secretarias municipais também é um tema central", explica. "Certamente a expansão da obrigatoriedade do ensino às crianças de 4 e 5 anos coloca muitos desafios, mas a meta deve ser universalizar com qualidade." /M. M.


Índices baixos

2,9

é a nota dada às refeições e merendas servidas nas escolas

4,4

é a nota que as práticas de saúde nas escolas receberam

2,6

é a nota dada aos livros usados
 
 
Fonte: O Estado de São Paulo - 14 de junho de 2010

José Saramago



O escritor português José Saramago morreu nesta sexta-feira (18) em sua residência em Lanzarote, nas Ilhas Canárias, onde morava. A Fundação José Saramago publicou uma nota confirmando a morte do escritor:

"Hoje, sexta-feira, 18 de Junho, José Saramago faleceu às 12:30 horas na sua residência de Lanzarote, aos 87 anos de idade, em consequência de uma múltipla falha orgânica, após uma prolongada doença. O escritor morreu estando acompanhado pela sua família, despedindo-se de uma forma serena e tranquila."

O primeiro-ministro de Portugal, José Sócrates, convocou para o final da tarde desta sexta-feira uma reunião extraordinária do Conselho de Ministros para decretar luto nacional pela morte do escritor.

Segundo agências internacionais, o corpo de Saramago é velado na biblioteca da cidade espanhola de Tías, em Lanzarote. O site do jornal português "Diário de Notícias" afirma que o governo vai deslocar um avião da Força Aérea para levar o corpo do escritor de Lanzarote para Lisboa, onde ocorrerá outro velório. A família ainda não informou quando ocorrerá o enterro.

Saramago nasceu em Azinhaga, uma pequena vila no interior de Portugal, no dia 16 de novembro de 1922. Em 1924, sua família, muito pobre, se mudou para Lisboa. Apesar de ter sido um aluno genial, não pôde cursar uma faculdade por problemas financeiros. Publicou o seu primeiro livro, Terra do Pecado, um romance, em 1947. Escreveu três livros de poesia antes de voltar à prosa, que o consagrou. Trabalhou como serralheiro, mecânico, editor e jornalista e, desde 1976, vivia exclusivamente da literatura.

Em 1998, Saramago se tornou o primeiro escritor de língua portuguesa a receber um Nobel de Literatura, e ainda continua sendo o único. Recebeu também, em 1995, o Prêmio Camões. A obra de Saramago inclui clássicos da prosa contemporânea, como A Jangada de Pedra (1986), O Evangelho Segundo Jesus Cristo (1991), Ensaio Sobre a Cegueira (1995) [levado ao cinema pelo brasileiro Fernando Meirelles em 2008] e Intermitências da Morte (2005). Escreveu também peças de teatro, crônicas, memórias, um livro infantil e um blog. O último livro de Saramago, Caim, foi publicado em 2009.



Fonte: Época

Homem de Cor




Escrito por uma criança africana



Quando eu nasço, sou preto

Quando eu cresço, sou preto

Quando eu fico no sol, sou preto

Quando eu tenho medo, sou preto

Quando eu estou doente, sou preto

E quando eu morro, continuo sendo preto

E você, cara branco,

Quando você nasce, você é rosa

Quando você cresce, você é branco

Quando você fica no sol, você é vermelho

Quando você fica no frio, você é azul

Quando você tem medo, você é amarelo

Quando você fica doente, você é verde
Quando você morre, você é cinza

E você ainda vem me chamar "de cor"???



(Firas Chadli)

" Os adolescentes que merecemos"- Contardo Calligaris





ABBY SUNDERLAND nasceu na Califórnia, em outubro 1993. A família vivia num barco, ao longo da costa do Pacífico.


O irmão mais velho de Abby, Zac, aos 17 anos, tornou-se o mais jovem velejador a circum-navegar a Terra sozinho. O recorde de Zac não resistiu muito tempo: logo, Michael Perham, um adolescente inglês um ano mais jovem que Zac, completou sua volta solitária ao mundo. Note-se que Perham, aos 14 anos, já tinha atravessado o Atlântico sozinho.


Abby também, desde seus 13 anos, sonhava em circum-navegar a Terra. No começo deste ano, aos 16, sozinha, ela largou as amarras de seu veleiro de 12 metros e desceu o Pacífico Sul. Passou o Cabo Horn, atravessou o Atlântico e passou o Cabo de Boa Esperança, lançando-se no Oceano Índico. Entre a África e a Austrália, Abby encontrou uma tempestade à qual o mastro de seu barco não resistiu. No sábado passado, depois de dois dias à deriva num mar infernal, ela foi resgatada.


Pela internet afora e na imprensa dos EUA, os pais de Abby estão sendo criticados por um coro indignado: como vocês puderam deixar uma menina de 16 anos errar sozinha pelo mar e pelos portos? Fora tsunamis e tempestades, o que dizer dos meses insones espreitando o mar e o vento a cada meia hora, da solidão, do trabalho incessante, do frio, do desconforto de uma navegação solitária ao redor do mundo? E os piratas ao sul da Malásia? Por qual permissividade maluca vocês aceitaram que Abby se lançasse numa aventura que seria arriscada para gente grande?


Já a bordo do barco que a resgatou, Abby escreveu no seu blog: "Há uma quantidade de coisas que as pessoas podem estar a fim de culpar pela minha situação: minha idade, a época do ano e muito mais. A verdade é que passei por uma tempestade, e você não navega pelo Oceano Índico sem entrar em, no mínimo, uma tempestade. Não foi a época do ano, foi apenas uma tempestade do Oceano Sul. As tempestades fazem parte do pacote quando você veleja ao redor do mundo. No que concerne à idade, desde quando a mocidade do velejador cria ondas gigantescas?".

Se você duvida que Abby tivesse a maturidade necessária para sua empreitada, leia o diário da viagem (www.soloround.blogspot.com) -sobretudo as notas de Abby durante a interminável navegação no Atlântico Sul.

Os que censuram os pais de Abby afirmam que nunca autorizariam seus rebentos a velejar sozinhos ao redor do mundo porque, aos tais rebentos, falta seriedade e falta experiência. Eles devem ter razão -afinal, eles conhecem seus filhos. Mas cabe perguntar: essa falta de seriedade e experiência é efeito de quê? Da simples juventude? Duvido: La Pérouse, o navegador francês, aos 17 anos, em 1758, já estava combatendo os ingleses ao largo de Terra Nova. Então, efeito de quê?

Pois é, provavelmente, os mesmos pais que se indignam com a "irresponsabilidade" dos genitores de Abby permitem a seus filhos, mais jovens que Abby, de sair em baladas nas quais os únicos adultos são os que vendem drogas e bebidas.

Será que a volta para casa de madrugada, num carro dirigido por amigos exaustos, exaltados ou sonolentos, é menos perigosa do que a circum-navegação do mundo num veleiro pilotado por Abby, animada há anos por um desejo intenso e focado? E, de qualquer forma, qual das duas experiências você prefere para seus filhos?

O fato é que muitos pais preferem que os filhos errem como baratas tontas, de festinha em festinha. Por quê? Simples: assim, os filhos ficam infinitamente mais dependentes.

E os pais modernos, em regra, querem os filhos por perto; eles adoram que os filhos demonstrem que eles não são suficientemente maduros para sair pelo mundo e para correr os riscos que o desejo acarreta.

Não deveríamos nos perguntar qual é a loucura dos pais que empurraram Zac, Abby e Michael mar adentro, mas qual é a loucura dos pais que preferem largar seus filhos nas noites, em que vodca, cerveja, maconha, ecstasy e papo furado servem para convencer os próprios adolescentes de que ainda não começaram a viver e, portanto, vão precisar dos adultos por muito tempo.

Comentando a aventura de Abby, um pai me disse: "Nunca deixaria minha filha navegar sozinha, eu não quero perdê-la". Pois é, "não quero perdê-la" em que sentido?



Fonte: http://contardocalligaris.blogspot.com/2010/06/os-adolescentes-que-merecemos.html