sábado, 12 de junho de 2010
" Todos nós ao nascer ganhamos um espelho"- Ernani Fornari
Este espelho é, então, colado no nosso peito. E assim vivemos toda a nossa vida, refletindo o outro e vendo no (espelho do) outro o nosso reflexo.
Hermann Hesse disse: "Se você odeia uma pessoa, odeia algo nela que faz parte de você. O que não faz parte de nós não nos incomoda."Viver considerando isto, vai desenvolvendo nossa compaixão, nossa tolerância, nossa empatia e nossa solidariedade para com as nossas fraquezas e dificuldades e as dos outros.
100% do que somos e vivemos (inclusive o que supomos ser acidentes) é fruto de nossas escolhas e opções. Conscientes ou inconscientes. Desta ou de outras vidas. Viver consciente disto desenvolve nosso discernimento e nossa responsabilidade para com a vida, com as pessoas e com nossas atitudes.
Livre-se da culpa. A única função da culpa é manter sua auto-estima baixa (por isso algumas religiões fomentam a idéia da culpa para assim manter poder). Transmute a culpa por responsabilidade. Ninguém é culpado de absolutamente nada, mas todos são completamente responsáveis por tudo. Viver assim te torna mais atento e cuidadoso para com toda a existência.
Desenvolva a aceitação. Sempre que entramos em contato com alguma dificuldade ou fraqueza nossa, através de alguém ou de alguma circunstância, normalmente o primeiro impulso da mente/ego é:
ou nos defendemos, negando e resistindo a entrar em contato (muitas vezes entrando na irritação e na revolta, geralmente imputando a culpa a alguém ou a alguma coisa),
ou entramos na condição de vítimas, mergulhando na baixa auto-estima. Aceite sua natureza humana como ela é e aceite também a sua sombra.
Entenda que você está aqui na Terra para aprender e expandir sua existência. Um Mestre hindu falou: "Errar, ter defeitos, falhas, fraquezas, é seu direito. Trabalhar para transmutar isso tudo é seu dever".
Tudo no Universo tem duas polaridades: yin/yang, masculino/feminino, positivo/negativo, etc. As emoções e os sentimentos também têm duas polaridades: o outro lado da tristeza é a alegria, do medo é a coragem, da raiva é a energia de realização, do ódio é o amor e o perdão, da ansiedade e da angústia é a calma e o centramento, da baixa auto-estima é a confiança em si mesmo, enfim, nosso grande trabalho de transmutação é estar constantemente reequilibrando estas polaridades. Os hindus diriam que devemos estar sempre transmutando Tamas e Rajas em Sattwa, isto é, trazendo sempre os pensamentos, sentimentos e atos densos, limitadores e negativos, para as freqüências mais sutis.
Viver assim economiza um bocado de energia. Considerando que tudo na vida é passageiro, é mais inteligente procurar mudar a polaridade das coisas e dar a volta por cima do que ficar naufragando constantemente nos mesmos padrões psico-emocionais.
Desenvolva a neutralidade e a observação. Os índios chamam isto de "visão da águia": sair voando de dentro do burburinho dos eventos e, de cima, com uma perspectiva ampla, observar os acontecimentos sem identificação ou julgamentos.
Ou, em outra comparação: sair de dentro do rio caudaloso de nossa vida - onde estamos imersos até o pescoço - sentar na margem e observar. Quando dentro do rio, imersos até o pescoço, qualquer ondinha nos parece um vagalhão, mas quando nos sentamos à beira do rio, a ondinha novamente vira ondinha, e aí podemos ter uma perspectiva mais correta e um envolvimento menos sofrido com as coisas. Isto desenvolve uma profunda consciência da relatividade dos pontos de vista e, por conseguinte, o redimensionamento da nossa identificação e envolvimento com a transitoriedade da vida.
Evite as comparações. Lembra do "jardim do vizinho é sempre mais bonito" ? Ledo engano! Grande armadilha!
Mal sabemos que o vizinho ao olhar nosso lado também pensa a mesma coisa sobre algum aspecto de nós...
Considerar este fato, te livra do peso dos julgamentos alheios e te torna mais centrado em teu próprio eixo.
Os hindus dizem que todas as doenças que existem - sejam físicas, emocionais, psíquicas ou energéticas - derivam, de uma forma ou de outra, de uma única doença: a ignorância de nossa natureza real, a Unidade (eles chamam esta ignorância de avidya e a Unidade de Brahman).Toda a criação é uma grande web onde tudo é interagente, interdependente e holográfico. Realmente não estamos irremediavelmente presos a tempo e espaço e às três dimensões (não só as antigas tradições, mas a física quântica atual afirma amplamente esta questão).
Considerando nossa natureza una, saiba que não há nada fora de você que você precise obter que já não tenha. Está tudo dentro de você, todo o Universo.
Você apenas precisa relembrar sua natureza original, que está pulsando em cada partícula do Universo, em cada pessoa, em cada ser de cada reino. Todo amor, paz e felicidade já estão dentro de você, sempre.Você decididamente não é um pecador.
Você não é uma pedra bruta que precisa ser lapidada. Você já é uma jóia pronta, maravilhosa, só que recoberta pela poeira desta ignorância primordial. Passar a considerar estas verdades milenares em nossa vida cotidiana desenvolve nossa co-participação consciente no Universo nos seus mais diversos níveis de existência.
Todo o Universo é consciente! Cada pessoa, cada animal, cada planta, cada pedra, cada célula, cada átomo, cada galáxia... A consciência não é um privilégio do cérebro humano, que é apenas um dos veículos onde esta Consciência se expressa. Esta é a chamada onipresença e onisciência de Deus. Os índios têm formas sofisticadas de entrar em contato e interagir com a consciência subjacente à Natureza. Viver considerando este fato torna tua vida muito mais respeitosa, consciente e responsável.
Quando a vida nos apresenta algum evento desconfortável, algum obstáculo ou algum confronto, normalmente o que é acionado em nosso corpo/mente é o "automático" lutar ou fugir. A adrenalina está sempre pronta para desencadear ação. Mas a verdade é que na maior parte das vezes não seria necessário lutar nem fugir, bastaria relaxar e observar, e a partir daí agir com consciência, ou então deixar os acontecimentos se desenrolarem naturalmente. Vamos investir mais nas endorfinas! Faça Yoga ou Tai Chi Chuan!Desta forma, em todos os níveis e setores da nossa vida, podemos integrar firmeza e simultaneamente relaxamento - só firmeza gera rigidez e só relaxamento gera moleza !
Adote a pergunta: "O que é que eu tenho que aprender com isso?". Todas (todas mesmo) as coisas que nos acontecem, vem para nos ensinar. A vida está sempre fazendo suas arrumações para que possamos aprender e evoluir. Por isso alguém já disse: "cuidado com o que você deseja pois pode acontecer!". Nós costumamos achar que quando pedimos à Deus alguma virtude, Ele vai milagrosamente introduzir esta virtude em nossa mente e de repente ficamos pacientes, ou disciplinados, ou tolerantes. Provavelmente o que a vida fará é te proporcionar situações que vão te fazer desenvolver aquela virtude.
Se você pediu paciência, provavelmente vai atrair pessoas que vão te fazer perdê-la, e aí é que estará o seu aprendizado. Então, sempre que as pessoas ou as circunstâncias te trouxerem desconfortos ou incômodos, ao invés de se revoltar, se ofender ou se entristecer, ou ainda, achar que a culpa é do outro, pergunte à Vida o que esta situação está te obrigando a trabalhar, que virtudes e qualidades você está tendo que desenvolver para lidar com isso de forma harmônica e equilibrada. Este procedimento com certeza vai aumentar enormemente a qualidade de nossa consciência e a conseqüente percepção dos movimentos da vida e do seu sentido.
Gastamos grande tempo mental ficando angustiados por um passado que não podemos mais mudar e/ou ficando ansiosos por um futuro que ainda não chegou.
Outra grande parte, ainda, gastamos sonhando acordados, delirando os nossos sonhos e desejos. E aí duas coisas ocorrem: uma: sobra pouco tempo para a consciência do aqui-e-agora, o presente, que é onde efetivamente a vida acontece; duas: quando precisamos da mente para as coisas que ela foi feita para funcionar - a nossa vida humana diária - esta mente tem dificuldade em se concentrar, em estar presente, inteira, poderosa, centrada. Concentrando- nos no presente desfrutamos mais da vida. A meditação é um ótimo treinamento para aprender a viver no presente, nos livrando das pré-ocupações e desenvolvendo uma mente verdadeiramente eficiente.
Infelizmente, ainda vivemos sob a ideologia do "ganha-perde", ou seja, temos muito incutida em nossa cultura a idéia de que para alguém ganhar, alguém precisa perder.
É assim que se construiu, por exemplo, o sistema capitalista. Também é seguindo esta filosofia que está-se destruindo nosso planeta. E é desse ganha-perde que estão impregnadas as nossas relações (lembra da lei de Gérson?). Não só no sentido profissional e financeiro, mas também no emocional e no afetivo. É urgente reimplantar- se o "ganha-ganha" nas relações interpessoais e nas relações do homem com a Natureza. Não existe nenhuma possibilidade de ganho real para nada nem ninguém, em nenhum setor da vida, se este ganho for obtido em detrimento da perda de alguém ou de alguma coisa. Na visão oriental, o Karma Yoga é a técnica que visa reeducar o homem e a sociedade para a verdadeira forma de ganhar. Este procedimento simples pode transformar toda a perspectiva que temos em relação à vida, entendendo e vivendo na prática a grande lei universal de causa e efeito.
Atente para a sincronicidade. Uma escritura hindu diz: "Nenhuma folha de grama se mexe sem uma razão".
Nada é casual, mas tudo é intrinsecamente causal. Um outro Mestre disse : "nós falamos com Deus através da oração, e Ele nos fala através da sincronicidade".
O Dr. Jung percebeu que era esta qualidade da Criação que fazia com que as artes divinatórias (I Ching, Tarot, Runas, Búzios) funcionassem. Todo o Universo é Um, portanto tudo é interrelacionado. E a Lei do Karma é quem disciplina este interrelacionamento. Atente para os sinais! O tempo todo o Universo está interagindo com você! Estar atento à sincronicidade desenvolve a intuição e a expansão da percepção do movimento consciente e multidimensional do Universo.
E finalmente - e sobretudo - "não faças aos outros o que não queres que te façam" ainda é a regra de ouro.
Viver integralmente assim te torna efetivamente consciente, pleno e equilibrado.
Ernani Fornari (Dharmendra).
Fonte: recebido por email.
sexta-feira, 11 de junho de 2010
“ Tem gente que é assim”- Dênio Mauês
"Tem gente que fala intimidades ao celular no meio da rua. tem gente que, no meio da rua, fala sozinha – como se estivesse na intimidade do lar.
tem gente que nunca muda. tem gente imprevisível. tem gente chata que nunca vai embora. tem gente que compra livros, mas não lê. tem gente que ouve blues, mas não chora. tem gente que tira férias para ver reality show na tv. tem gente que vai pra tv participar de reality show.
tem gente que não tem carro em são paulo. tem gente que tem carro importado e blindado. tem gente que prefere voar de helicóptero. e tem quem sonhe, um dia, voar de helicóptero blindado.
tem gente que tem rolex para ver as horas. tem gente que rouba rolex. tem muita gente que não vê a hora da fome passar. tem gente que passa a vida a trabalhar. enquanto isso, em brasília, tem gente que só atrapalha – além de roubar dos que trabalham.
tem gente que acha que existe verdade. tem gente que jura que não mente. tem gente que morreu e não sabe. tem gente que passa a noite no cemitério. tem gente que tatua o rosto. tem gente que bifurca a língua como serpente. e tem quem fique suspenso pela pele em ganchos de ferro. tem muita gente que ri quando sente medo. e tem gente que se leva muito a sério.
tem gente que sonha em ser presidente do Brasil. tem gente que sente saudades da ditadura. tem gente que faz sexo sem camisinha. tem gente que nunca pede desculpas. tem gente que adora pular carnaval. tem gente pra tudo e ainda sobra. tem gente que até se acha normal."
Fonte: www.peabirua.com.br/ Denise vilardes
segunda-feira, 7 de junho de 2010
" Os enigmas da adição"- Lya Luft
Já escrevi sobre esse assunto. Escreverei mais vezes. Observadores, vítimas ou especialistas nesse humano drama, rodeiam na ponta dos pés o enigma de tanto sofrimento. Os viciados em qualquer droga (incluo aí a droga lícita chamada álcool), suas famílias, testemunhas da dor e decadência de pessoas amadas, as vítimas de violência no trânsito ou em casa, todos são matéria de reflexão e perplexidade. Livros, seminários, teses e teorias em abundância são elaborados em cima da primeira pergunta: por que nos drogamos? E a outra grande indagação: como nos salvamos – se nos salvamos – e por que isso é tão difícil?
Nem para uma questão nem para a outra há muita explicação ou lógica. Não é errado dizer que nos drogamos para anestesiar angústia, tristeza e frustração; por onipotência juvenil, do tipo "eu sei me cuidar"; por achar que ficamos mais fortes, mais falantes, mais interessantes. A droga cega para os fatos reais, pois bêbados ou impregnados de outra substância somos importunos, chatos, patéticos. Mas não é só isso: existe um componente imponderável, que chamo voz do vórtice sombrio embaixo dessa escada da vida que tantas vezes subimos pelo lado que desce – ele chama para a autodestruição sem freios. A razão de qualquer vício não está na superfície, não é visível. Muitas vezes mesmo para o mais dedicado terapeuta permanece um enigma, que nem o viciado entende.
Uma vez instalada a adição, o amor da família ou pela família, a ruína financeira, vergonha ou isolamento, pouco adiantam: foi-se o instinto de sobrevivência, último a nos abandonar. Algumas drogas, como o crack (objeto de excelentes campanhas), viciam quase imediatamente. Outras, como o álcool, gozam de criminosa tolerância numa cultura que acha graça dos seus efeitos, ignora seus males e considera natural a propaganda de bebidas, às vezes ligada a esporte ou esportistas. Drogas sintéticas, agora em voga, poriam fim ao poder do traficante, o que não creio. Somos uma geração medicada: remédio para animar, para acalmar, para transar, para sofrer menos, para não sofrer. Para não pensar, talvez: observem mulheres de qualquer classe e idade com aquele típico olhar vazio da "medicada".
Há quem veja no inocente ritual familiar uma das raízes da tragédia: todo mundo bebe, todo mundo brinda; vinho com água para crianças, champanhe na chupeta do que acaba de ser batizado. Não é tão simples assim. Para os mais ignorantes, o primeiro porre na adolescência é um passo iniciático; um pai divide o cigarrinho de maconha com o filho, achando-se liberal; a mãe finge ignorar os olhos injetados, o fracasso na escola. Nem todos entendem que adição, seja de que substância for, não é falta de vergonha ou caráter: é doença grave e sem cura, embora passível de controle. Isso provoca hostilidade, incompreensão e afastamento na família. Além do mais, a maioria dos que bebem ou usam drogas (exceto o crack, que cria dependência quase de imediato) não se vicia, o que torna a questão mais complexa ainda: por que uns sim e outros não?
E como nos salvamos? Qualquer adição, para ser superada, exige um esforço sobre-humano, às vezes pelo resto da existência. A família nem sempre consegue ajudar: o viciado torna-se um estranho, os envolvidos se afastam. Grupos de alcoólicos anônimos e outros são os mais bem-sucedidos, acompanhados de remédios, terapias, quando necessário um período de internação. O medo da morte pode despertar (nem sempre) para a crua realidade; algum novo relacionamento serve de alavanca, se deixar claro: com vício, nada feito.
Os casos de vitória sobre a adição são heroicos; inspiram respeito e admiração; provam que a vida pode superar a morte. Nessa tumultuada arena, a vontade de sair do inferno, o arcaico desejo de sobrevivência, de significado, respeito e reconstrução, às vezes vencem. Ilumina-se o que parecia uma noite definitiva: alguém com alguma ajuda conseguiu abrir a pesada porta para fora dessa prisão, sinal de que outros podem fazer o mesmo.
(Lya Luft- Revista Veja Edição 2168)
domingo, 6 de junho de 2010
" Insubstituível"
- Alguma pergunta?
- Tenho sim.
- E Beethoven ?
- Como? - o encara o diretor confuso.
- O senhor disse que ninguém é insubstituível e quem substituiu Beethoven?
Silêncio.....
O funcionário fala então:
Quem substituiu Beethoven? Tom Jobim? Ayrton Senna? Gandhi? Frank Sinatra? Garrincha? Santos Dumont? Monteiro Lobato? Elvis Presley? Os Beatles? Jorge Amado? Pelé? Paul Newman? Tiger Woods? Albert Einstein? Picasso? Zico? etc...
Cada ser humano tem sua contribuição a dar e seu talento direcionado para alguma coisa.
Ninguém lembra e nem quer saber se Beethoven era surdo, se Picasso instável, Caymmi preguiçoso, Kennedy egocêntrico, Elvis paranóico ...
O que queremos é sentir o prazer produzido pelas sinfonias, obras de arte, discursos memoráveis e melodias inesquecíveis, resultado de seus talentos.
Cabe aos líderes de sua organização mudar o olhar sobre a equipe e voltar seus esforços em descobrir os pontos fortes de cada membro. Fazer brilhar o talento de cada um em prol do sucesso de seu projeto.
Seguindo este raciocínio, caso pudessem mudar o curso natural, os rios seriam retos não haveria montanha, nem lagoas nem cavernas, nem homens nem mulheres, nem sexo, nem chefes nem subordinados . . . apenas peças.
Portanto nunca esqueça: Você é um talento único... com toda certeza ninguém o substituirá!
tenta antes ser um homem de valor."
Albert Einstein
( Desconheço o Autor)
Fonte: Mensagem enviada pelo amigo e leitor Francisco Paiva Salviano.
sábado, 5 de junho de 2010
" Autonomia e Limites" -Fábio C. R. Mendes
Conferi e gostei do artigo. Agora só falta conferir o livro. Logo que puder adquiri-los e lê-los faço o meu depoimento.
Mas, aqui está mais uma dica. Quem sabe, este será mais uma agradável leitura em busca de novos conhecimentos!
Vamos à leitura!
quinta-feira, 3 de junho de 2010
A livraria
quarta-feira, 2 de junho de 2010
“ A filha da floresta”- Marina Silva
Floresta e religião
A menina Marina encantava-se com as lendas e os segredos da floresta contados pelo tio Pedro Mendes, uma espécie de xamã, que conviveu dos 12 aos 30 anos com índios do Alto Rio Madeira antes de ir para o Acre ao encontro da família. "Ele tinha o saber católico, mas tudo era adaptado ao mundo do xamanismo", conta Marina.
Se vieram do tio o amor pela floresta e o respeito à cultura indígena, foi da avó Júlia, com quem viveu dos 5 aos 14 anos, que herdou o fervor religioso. Ela doutrinava a neta com passagens retiradas de uma inseparável Bíblia em papel cuchê com reproduções dos afrescos pintados por Michelangelo na Capela Sistina.
"Eu aprendi a falar fazendo minhas orações com minha vó", lembra Marina, que também sempre anda em companhia de sua Bíblia.
Aos 14 anos, depois de perder a mãe e ver a irmã mais velha se casar, a adolescente acabou assumindo o papel de chefe da casa, enquanto o pai passava o dia trabalhando no seringal. "Eu ia e voltava da cidade com meus irmãos", lembra ela, que os levava na tentativa de curar doenças como malária e meningite. Muitas vezes, precisava caminhar 11 horas com um irmão no colo para chegar às margens do rio Acre e pegar um barco para Rio Branco.
Marina se emociona ao lembrar de quando precisou mentir a um taxista para que ele aceitasse levar no carro a irmã Dóia, com meningite, ao hospital. Afirmou que era malária.
"Fomos abraçadas no banco de trás até Rio Branco. A febre era muito alta e ela vomitava, fiquei com a roupa molhada e toda suja de vômito", conta. "Eu tinha uma convicção muito grande de que devia ir até as últimas consequências, tinha fé em Deus de que aquela doença não pegaria em mim", lembra. Dóia ficou mais de um mês internada e sobreviveu.
Ainda criança, Marina encantou-se pela cidade. Foi em Rio Branco que viu pela primeira vez uma árvore de Natal. Fora à cidade para tentar curar o que hoje acredita ter sido uma intoxicação originada do tratamento da malária. De volta ao seringal, só falava nas luzes e bolas coloridas.
Aos 16 anos, já estava decidida a se mudar para a capital. Queria cuidar da saúde, estudar e seguir o que acreditava ser sua vocação --tornar-se freira.
Àquela altura, a jovem que aprendera as quatro operações da matemática em uma noite para não ser enganada pelos compradores de látex ainda não sabia ler e escrever. Foi morar em Rio Branco, na Casa Madre Elisa, um pré-noviciado. Limpava a cozinha e cuidava da horta. Estudava no Instituto Imaculada Conceição.
Em quatro anos, Marina foi do analfabetismo ao vestibular, passando por um curso supletivo. O sonho de ser noviça durou dois anos e oito meses. Ela se digladiava com a polêmica entre freiras conservadoras e progressistas.
As primeiras tachavam de comunista quem era ligado às Cebs (Comunidades Eclesiais de Base), incluindo o bispo e o sindicalista Chico Mendes. "Aquilo me incomodava porque sabia que o que o bispo comunista e o Chico Mendes comunista faziam era defender os seringueiros e os índios", diz.
O discurso da igualdade exercia forte atração sobre ela, que conheceu a fome de perto. Quando o pai certa vez decidiu tentar a sorte em Manaus e, depois, em Belém, a família enfrentou muitas dificuldades. Marina lembra de uma noite de Natal em que havia apenas farinha e um ovo na casa. Só os mais novos comeram.
Ela conheceu Chico Mendes em um curso da ala progressista da Igreja Católica, em 1976. Começaram a ter contato e ele a apresentou a leituras clandestinas sobre direitos dos trabalhadores. "Eu entrei em conflito e saí do convento", conta ela.
A convivência com Chico a levou ao PRC (Partido Revolucionário Comunista), grupo semiclandestino que fazia oposição aos militares. Ali, conheceu José Genoino, também do PRC, em uma das muitas viagens dele ao Acre. "Ela era tímida, contida, ainda não se destacava muito", relembra o deputado petista.
Saiu do hospital e foi ao bispo pedir ajuda. Ele prometeu que, se ela conseguisse dinheiro para a passagem, cuidaria do tratamento em São Paulo. A família vendeu alguns animais e Marina foi encaminhada para o Hospital São Camilo.
Ao voltar a Rio Branco, entrou no curso de história da Universidade Federal do Acre. A ex-colega Bernardete Carioca da Silva, hoje diretora de escola, lembra das greves que faziam para melhorar a comida do restaurante universitário.
"Nós éramos todos matutos. Mas ela sabia o que queria e, se preciso, subia no banco para discursar." Entre os colegas de faculdade, a fragilidade física rendeu a Marina o apelido de "Maria doentinha".
O envolvimento político fez naufragar a união com o primeiro marido, Raimundo Souza, com quem havia casado pouco depois de sair do convento --com ele, teve dois filhos, Shalon, que é psicóloga, e Danilo, publicitário.
O casamento se desfez na época em que Marina ajudou Chico Mendes a fundar a CUT (Central Única dos Trabalhadores), em 1984. Comandava sindicalistas durante greves e enfrentamentos que renderam a ela a inimizade dos patrões.
As denúncias de destruição da Amazônia que Chico levava ao exterior deixaram o grupo numa situação difícil no Acre.
As críticas não eram muito diferentes das que ouviu como ministra, algumas vezes do próprio presidente Lula. Certa vez ele sugeriu que a área ambiental do governo se preocupava mais com a preservação de "bagrinhos" do que com a necessidade de construir hidrelétricas no rio Madeira
A ascensão meteórica fez dela a primeira vereadora de esquerda de Rio Branco, em 1988.
Dois anos depois, foi a deputada estadual mais votada. Em 1991, novamente se afastou para tratar da saúde. Viajou a São Paulo, onde contou com o apoio de Genoino e Lula.
Passou cerca de um ano na casa da sogra em Santos, no litoral paulista. A essa altura, já casada com o atual marido, Fábio Vaz de Lima, estava grávida de Mayara, filha mais nova da união -também tivera Moara.
Precisou esperar o nascimento para começar a se tratar.
A sensação, diz ela, era a de quem chupasse moedas. A contaminação por metais pesados era a fatura que pagava pelos tratamentos de leishmaniose, três hepatites e cinco malárias.
Aos 36 anos, em 1994, foi eleita a mais jovem senadora da República. Em seu primeiro mandato, concentrou a atuação em temas ambientais e indígenas. Mesmo na oposição, mantinha boa relação com o então presidente tucano Fernando Henrique Cardoso. Tanto que, mais tarde, ao assumir a pasta ambiental, avisou que não iria "desconsiderar" avanços e experiências do antecessor.
Retorno à fé
Sua saúde voltou a piorar.
Voltou a São Paulo, foi ao Chile e aos Estados Unidos em busca de tratamento. O sofrimento acabou levando-a de volta à religião. "Fiz um acerto de contas comigo mesma e retomei a minha fé", diz ela. Mais tarde, trocou o catolicismo pela Assembleia de Deus, na qual foi batizada em 1997. Marina diz que a mudança foi fruto de "um toque do espírito".
Para ela, a fé a ajudou a superar os problemas de saúde. Hoje, Marina segue uma estrita dieta, que exclui carne vermelha, laticínios e até café. Tem alergia a pó, carpetes e cheiro de tinta. Faz jejum pela manhã, quando reserva um momento para as leituras bíblicas.
A convicção religiosa já lhe rendeu a pecha de intransigente por ser contra pesquisas com células-tronco provindas de embriões e contra a descriminalização do aborto.
Curiosamente, alia a fé ao interesse por psicanálise -fez pós-graduação na área. Considera Freud "um dos monstros sagrados do pensamento ocidental". Para ela, religião e psicanálise têm "pontos de contato". "Não acho que essa visão possa desconstruir a fé, nem acho que a fé deva ter a pretensão de querer desconstruí-la."
Em 2002, com a eleição do amigo Lula, Marina, novamente senadora, era o nome natural para a pasta do Meio Ambiente.
Um manifesto de apoio foi subscrito por 160 ONGs da área e entregue ao presidente eleito.
Seu nome foi anunciado por Lula em Washington.
Quando estava no ministério, seu marido assumiu como assessor no gabinete do suplente no Senado, Sibá Machado.
Problemas no governo
De um começo pomposo na pasta, seu primeiro cargo executivo, Marina viu seu poder minguar nos cinco anos e meio que se seguiram. O primeiro embate que quase a fez deixar o ministério foi a decisão do governo de liberar o plantio de transgênicos. Radicalmente contra, chorou em público.
Depois vieram a transposição do rio São Francisco e as hidrelétricas. O discurso que pregava à exaustão, o da "transversalidade nas ações do governo", parecia não funcionar.
Ela também foi criticada por dar excessiva atenção a questões amazônicas e não dimensionar corretamente, no primeiro ano, a importância de uma reestruturação do licenciamento ambiental. Marina rebate -e cita o próprio Lula.
"Eu aprendi com ele que, quando você tem cinco telhas numa casa, você coloca no quarto das crianças. Naquele momento, o que estava sendo colocado como um desafio era diminuir o desmatamento."
A diminuição nos índices de desmatamento foi sua principal vitória. Segundo Marina, somente ela, vinda da floresta, poderia mexer nas questões amazônicas. "Duvido muito que alguém tivesse estatura pra propor acabar com a Secretaria da Amazônia, que era um ministério dentro do ministério.
Eu a descriei e propus que a Amazônia fosse uma política transversal", diz em seu discurso característico.
Com Lula reeleito, Marina quase não foi reconduzida. O amigo Jorge Viana chegou a ser convidado três vezes para substituí-la. Pressionada pelo PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) e a urgência de obras de infraestrutura, manteve suas posições e viu seu isolamento no governo aumentar.
Deixou a pasta sob o lamento das organizações ambientalistas. "Perco a cabeça mas não o juízo", disse à época.
"Meu sonho", diz ela, "era ver o governo apostar na visão de desenvolvimento sustentável como uma política transversal.
Mas não foi possível".
Do PT ao PV
Sua volta ao Senado deu início a um inevitável assédio de outros partidos e a novas costuras políticas. A decisão de sair do PT, depois de quase 30 anos, foi tomada em agosto de 2009.
Jorge Viana a resumiu como "um baita problema".
A filiação ao PV já estava engatilhada e foi formalizada dias depois de ela ter deixado o PT.
Marina crê que sua pré-candidatura pressionou as demais a dar mais ênfase à questão ambiental. "O tema passou a fazer parte da agenda política dos partidos, que anteriormente não o estavam colocando com esse nível de importância."
A pré-candidata do PV surpreendeu muitos ao encontrar alianças no meio empresarial -como seu provável vice, Guilherme Leal, da Natura- e formular um programa que também dá ênfase a questões como reforma tributária e do Estado.
Colaborou MARCOS AUGUSTO GONÇALVES, editor de Opinião
Folha: UOL. Noticias.com.br
domingo, 30 de maio de 2010
Uma conversa a mais...
Transcrevo abaixo o meu texto e a resposta ao mesmo.
Uma conversa a mais...
Bom dia, Denise
Sempre que recebo algo escrito por você venho conferir. Assim como você sou educadora e procuro estar atenta aos mandos e desmandos. Infelizmente o que mais ocorre em nosso dia a dia são os desmandos.
Tendo percorrido em meus 30 anos de trabalho várias metodologias, filosofias e politicagens educacionais e vejo que nada mais me surpreende.
O que ainda me inspira a escrever é ver que ainda existem pessoas lúcidas e portanto comprometidas com o fazer e pensar educacional democrático, que fica longe de ser uma desmoralização da nossa digna profissão.
Sendo adepta aos ensinamentos filosóficos democráticos, reconheço e compreendo a sua preocupação e indignação. Longe de qualquer pretensão de avaliação, vejo que mesmo morando em uma cidade pequena e próxima ao Rio, as suas dificuldades não diferem das minhas e provavelmente de muitos profissionais da educação. Acredito que a única mudança são os atores.
Temos em comum a falta de preparo daqueles que se colocam como porta vozes de uma política educacional, que foge a qualquer convergência de ideias produzidas coletivamente, pois o que sobressai é o individualismo e a preponderância de egos infláveis como balões em dia de festa.
Só reconhecem que pobre existe em catástrofe ou em época política. Só nesse momento eles se igualam, isto é, tornam-se cidadãos de "pena'.
Passamos por inúmeras filosofias de aprendizagens e vejo que ainda não encontramos respostas para quase nada, principalmente quando temos que resolver conflitos graves, como por exemplo:- o que faz com que o meu aluno aprenda de forma significativa e como ampliar a sua inserção no trabalho. Essas e muitas outras perguntas dessa ordem, ainda não se encontram respondidas em nenhum manual de qualquer secretaria de municípios ou estados.
E nós sabemos o porque. Mas eles insistem em nos julgar como incompetentes e irresponsáveis. O que não adimito o grave erro, principalmente quando vem por decreto.
Insisto ainda dizer que tudo que é ruim ( ideias,cartilhas, decretos) são aceitos rapidamente e passado de geração a geração como uma verdade e fico perplexa que são aceitos e implantados como a salvação. Só pode ser coisa de céticos ou de fundamentalistas que trabalham em causa própria.
Espero que essas ideias demorem aqui chegar, pois você não imagina que efeito catastrófico seria para uma cidade que não possui uma biblioteca pública decente, não possui cinema, teatro e livraria possa conviver com tamanho retrocesso.
Demoramos muito para sair do conteudismo, imagina o quanto ainda temos para construir e agora voltamos a estaca zero!?... Imagina o q será de nós?
A minha trajetória profissional foi árduamente construída e selecionada, pois muito me orgulho da mesma. Acredito que o respeito proprio e o alicerce que construi ao logo dos meus 55 anos, merecem melhor desfecho, visto que só terei essa vida para ser vivida e foi construída com dignidade.
Me orgulho do que tenho, pois se hoje penso foi porque fiz boas escolhas, tive a oportunidade de ter excelentes professores e excelentes amigos no trabalho.
Uma profissão só é bem sucedida quando conquistamos autoria no pensar, ser e agir. Nada mais importa do que ser fiel as suas habilidades e competências.
Espero que em breve você nos traga boas notícias.
Um grande abraço e continue em sua tarefa. Estarei sempre atenta!
Natalícia
Em resposta...
Ah, Natalícia
a sua mensagem me deixou profundamente emocionada.
Infelizmente, não tenho notícias boas aqui da capital... outros absurdos continuam ocorrendo e pretendo informar por aqui, brevemente.
Você falou coisas importantíssimas. Os desmandos, os egos inflados... é inadmissível que transformem a Educação numa corrida de quem aparece mais, né?
Ficamos à mercê de modismos, porque tudo o que nos impõem é feito de maneira superficial, as atualizações em serviço são raras e frágeis. E, pior, são contraditórias... Professores mergulhados numa "fazeção" sem fim, sem oportunidade de sequer de pensar sobre o seu cotidiano pedagógico.
E, pra mim, o crucial disso tudo, como você também comentou: o fato de nos tratarem como débeis, como pessoas que não pensam, que não produzem conhecimento.
Cada vez creio mais que precisamos nos mobilizar, sem medo, e começar a trabalhar coletivamente (que é outro nó na nossa classe...) com os sentidos atentos e a força da experiência, da competência e da ousadia, porque não tememos o novo, o que não aguentamos mais é a falta de respeito, de bom senso e a hipocrisia.
Um grande e afetuoso abraço
Denise
sexta-feira, 28 de maio de 2010
" A coragem do amor que dura"- Contardo Calligaris

Li este texto agora, após de ter escrito “ Quem gosta de perder” e me senti completa. Completa na essência do mesmo, das palavras escritas com maestria de quem conhece e fala do amor com propriedade.
Por isso, resolvi postá-lo na intenção de juntos refletirmos sobre o AMOR.
A coragem do amor que dura
Prolongando minhas observações da semana passada sobre "Quincas Berro d'Água", vários leitores e leitoras observaram que a literatura e o cinema, em geral, glorificam a coragem de quem, um belo dia, chuta o balde e vai embora.
E como ficam os que passam a vida inteira deslocando o balde para estancar as goteiras? Será que eles são todos covardes e acomodados?
É inegável: nossa cultura idealiza a ruptura, a aventura, a saída para o mar aberto. Em matéria amorosa, o momento que preferimos contar é a hora do apaixonamento.
Depois disso, gostamos de imaginar que "eles viveram felizes para sempre", mas sem entrar em detalhes que poderiam transformar a história numa farsa.
Uma boa solução, aliás, é que os amantes morram logo. O sumiço (de ambos ou de um dos dois) evita que a comédia da vida que levariam juntos contamine a apoteose do encontro inicial. Os amantes ideais são os que não duraram no tempo: Romeu e Julieta, o jovem Werther e Charlotte, Tristão e Isolda.
Concluir o quê? Que a coragem é sempre a de quem deixa a mornidão de seu conforto para se queimar num instante de paixão? Será que não pode haver coragem nos esforços para que o amor dure?
É óbvio que a duração não é um valor em si: uma relação pode durar a vida inteira e ser uma longa e insulsa experiência repetitiva, sem amor algum. Mas, inversamente, será que as paixões-relâmpago são amores? Enfim, seria útil dispor de uma definição do amor.
Justamente, li nestes dias um livro que me tocou, "Éloge de l'Amour" (elogio do amor, Flammarion 2009, ainda não traduzido para o português), de Alain Badiou; é a transcrição de uma breve entrevista do filósofo francês.
Nela, inevitavelmente, Badiou constata que, em nossa cultura, a visão dominante do amor é a de uma espécie de "heroísmo da fusão" dos amantes, que, uma vez consumidos por sua paixão, podem sair de cena (para não se tornar ridículos) ou sair do mundo e morrer (para se tornar sublimes).
Contra essa visão, Badiou define o amor mais como um percurso do que como um acontecimento: segundo ele, o amor precisa durar um tempo porque é "uma construção".
Confesso que fiquei com medo de que o filósofo nos propusesse amores tagarelas, em que os amantes não parariam de discutir a relação (claro, para construí-la). Por sorte, não se trata disso. Então, o que constroem os amantes?
Geralmente, explica Badiou, minha experiência do mundo é organizada por minha vontade de sobreviver e por meu interesse particular: vejo o mundo só de minha janela.
Certo, ao redor de mim, há muitos outros de quem gosto e aos quais reconheço o direito de também sobreviver e promover seus interesses.
Mas o fato de eu respeitar esses meus semelhantes não muda em nada meu ângulo de visão. É só quando amo que consigo olhar, ao mesmo tempo, por duas janelas que não se confundem, a minha e a de meu amado. A estranha experiência ótica faz com que os amantes reconstruam o mundo, enxergando coisas que ficam escondidas para quem só sabe olhar por uma janela.
Entende-se que o amor assim definido exija tempo. Quanto tempo? Um mês, um ano, uma vida, tanto faz. Consumir-se na paixão pode ser rápido, mas reinventar o mundo a dois é uma tarefa de fôlego.
O amor segundo Badiou, em suma, é uma aventura, mas que precisa ser obstinada: "Abandonar a empreitada ao primeiro obstáculo, à primeira divergência séria ou aos primeiros problemas é uma desfiguração do amor. Um amor verdadeiro é o que triunfa duravelmente, às vezes duramente, dos obstáculos que o espaço, o mundo e o tempo lhe propõem".
Você aprecia a definição, mas a acha um pouco abstrata? Gostaria da história de um amor que dura e se obstina sem se tornar pesadelo ou farsa? Pois bem, acabo de ler um texto comovedor, bonito e capaz de ilustrar e explicar perfeitamente as palavras de Badiou.
Em "Amar o Que É: Um Casamento Transformado" (Objetiva), Alix Kates Shulman conta como ela e Scott, o marido, reinventaram o mundo, a dois, obstinadamente, depois de um acidente que precipitou Scott numa forma de demência.
Há momentos difíceis, sacrifícios e durezas, mas, curiosamente, o relato não chega nunca a ser triste porque se trata de uma extraordinária história de amor.
Fonte: http://contardocalligaris.blogspot.
Quem gosta de perder?

Acabei de ler um poema. Este trata da perda material. Não me espanto diante de tal perda, afinal nesse mundo que vivemos, correndo de um lado para o outro, a perda já se tornou habitual.
Entretanto, existem perdas que deveriam ficar só na lembrança. Trata-se da perda de si mesmo, da consciência que devemos ter da nossa responsabilidade, diante dos nossos projetos de vida.
As pessoas passam em nossas vidas e pouco fazemos para compreendê-las, para ouvi-las e satisfazê-las. Enquanto a amamos parece-nos mais fácil sermos comprometidos com as nossas reais intenções. Mas... A vida se encarrega de mostrar-nos que o verdadeiro amor, vem da amizade. Não existe amor mais leal, que o amor com amizade.
Acredito que nem o amor de mãe, que construímos durante a vida toda, se não houver amor com responsabilidade, com cumplicidade, lealdade e amizade, não condiz ao que chamo de amor verdadeiro.
Aliás, só a palavra verdadeira, por si só demonstra uma sincronia entre o que seja significativo e efêmero. E verdadeiro é o amor com raízes, que carregamos a vida inteira. É aquele que trazemos os entes amados no coração.
Somos especiais para algumas pessoas, outras apenas nos tornamos referências e outras somos uma estrada da qual só a percorremos quando nos são úteis.
Transitamos o dia inteiro entre diferentes fronteiras, algumas bem definidas e algumas são separadas por uma linha muito tênue e assim sendo, não nos damos conta de registrar tudo o que acontece em nossas vidas.
Acredito que o papel da lembrança é este, filtrar o que nos comove, o que nos tira do sério, o que nos faz sentir vivas. A sensação indescritível de um belo campo bem verdinho, de uma praia bem azulzinha e um lindo por do sol. Três momentos de linda consciência que o pouco vale por muito.
Temos os mais variados sonhos. Eu já tive alguns. Alguns difíceis de serem realizados e outros nem tanto. Um dos mais fáceis é conhecer uma fábrica de chocolate. E para em outro momento finalizar, tomando um banho num grande tacho de chocolate. Não sei por que essa imagem me encanta. Acredito que seja o cheiro que o chocolate exala, o seu sabor e até o meu desprendimento nesse momento sensual.
Existem também sonhos inconfessáveis, me refiro daqueles que não encontramos palavras para defini-los, talvez pela sua própria falta de definição.
Somos assim, complexos, indefinidos quando falamos de sentimentos, principalmente envolvendo amor entre pessoas de outro gênero.
Às vezes nos sentimos tão desprotegidos que confundimos os amores que se revelam diante de nós. Amor este que só é significativo quando conseguimos ler um bom livro e lembrarmos-nos dele, quando viajamos e desejamos saúde e quando o coração bate forte ao toque de um telefonema.
E o que nos faz nos perdermos? Acredito que o excesso de autoconfiança ou a descrença da mesma. Como é sutil esse limiar de intenções! Entretanto, os poemas nos trazem de volta a vida, com referências de diferentes estilos de vida, para logo depois lembrarmos que cuidar-se não é uma tarefa fácil. Exige uma dose de tolerância, paciência e compreensão com o que somos.
Não é à toa que o homem criou o espelho, com a intenção de se olhar e de se admirar. Dele tiramos o que há de secreto, de forma a revelarmos em uma das estações do ano. E assim, concluir que ninguém é mais importante do que você mesma.
Natalicia Alfradique

.jpg)

