quinta-feira, 5 de novembro de 2009

"Desaposentar" - Domingos Pellegrini



Ele chegou à praça com uma marreta. Endireitou a estaca de uma muda de árvore e firmou batendo com a marreta.
Amarrou a muda na estaca e se afastou como pra olhar uma obra de arte.
Não resisti a puxar conversa:
- O senhor é da prefeitura?
- Não, sou da Alice, faz quarenta e dois anos. Minha mulher.
- Ah… O senhor quem plantou essa muda?
- Não, foi a prefeitura.
Uma árvore velha caiu, plantaram essa nova de qualquer jeito, mas eu adubei, botei essa estaca aí.
Olha que beleza, já está toda enfolhada.
De tardezinha eu venho regar.
- Então o senhor gosta de plantas.
- De plantas, de bicho, até de gente eu gosto, filho.
- Obrigado pela parte que me cabe…
Ele sorriu, tirou um tesourão da cinta e começou a podar um arbusto.
- O senhor é aposentado?
- Não, sou desaposentado.
Foi podando e explicando:
- Quando me aposentei, já tinha visto muito colega aposentar e murchar, que nem árvore que você poda e rega com ácido de bateria…
Sabia que tem comerciante que rega árvore com ácido de bateria pra matar, pra árvore não encobrir a fachada da loja?
É… aí fica com a loja torrando no sol!
Picotou os galhos podados, formando um tapete de folhas em redor do arbusto.
- É bom pra terra… tudo que sai da terra deve voltar pra terra…
Mas então, eu já tinha visto muito colega aposentar e murchar.
Botando bermuda e chinelo e ficando em casa diante da televisão.
Bundando e engordando…
Até que acabaram com derrame ou infarto, de não fazer nada e ainda viver falando de doença.
Cortou umas flores, fez um ramalhete:
- Pra minha menina. A Alice. Ela é um ano mais velha que eu, mas fica uma menina quando levo flor.
Ela também é desaposentada.
Ajuda na escola da nossa neta, ensinando a merendeira a fazer doce com pouco açúcar e salgados com os restos dos legumes que antes eram jogados fora. E ajuda na creche também, no hospital.
Ihh… A Alice vive ajudando todo mundo, por isso não precisa de ajuda, nem tem tempo de pensar em doença.
Amarrou o ramalhete com um ramo de grama, depositou com cuidado sobre um banco.
- Pra aguar as mudas eu tenho que trazer o balde com água lá de casa.
Fui à prefeitura pedir pra botarem uma torneira aqui.
Disseram que não, senão o povo ia beber água e deixar vazando.
Falei pra botarem uma torneira com grade e cadeado que eu cuidaria.
Falaram que não.
Eu teria que ficar com o cadeado e então ia ser uma torneira pública com controle particular, e não pode.
Sorriu, olhando a praça.
- Aí falei: então posso cuidar da praça, mas não posso cuidar de uma torneira?
Perguntaram, veja só, perguntaram se tenho autorização pra cuidar da praça!
Nem falei mais nada. Vim embora antes que me proibissem de cuidar da praça…
Ou antes que me fizessem preencher formulários em três vias com taxa e firma reconhecida, pra fazer o que faço aqui desde que desaposentei…
Ta vendo aquele pinheiro fêmea ali?
A Alice que plantou.
Só tinha o pinheiro macho. Agora o macho vai polinizar a fêmea e ela vai dar pinhões.
- Eu nem sabia que existe pinheiro macho e pinheiro fêmea.
- Eu também não sabia, filho.
Ihh… aprendi tanta coisa cuidando dessa praça!
Hoje conheço os cantos dos passarinhos, as épocas de floração de cada planta, e vejo a passagem das estações como se fosse um filme!
- Mas ela vai demorar pra dar pinhões, hein? – falei, olhando a pinheirinha ainda da nossa altura.
Ele respondeu que não tinha pressa.
- Nossa neta é criança e eu já falei pra ela que é ela quem vai colher os pinhões.
Sem a prefeitura saber… e a Alice falou que, de cada pinha que ela colher, deve plantar pelo menos um pinhão em algum lugar.
Assim, no fim da vida, ela vai ter plantado um pinheiral espalhado por aí.
Sem a prefeitura saber, é claro, senão podem criar um imposto pra quem planta árvores…
- É admirável ver alguém com tanta idade e tanta esperança!
Ele riu:
- Se é admirável eu não sei, filho, sei que é gostoso.
E agora, com licença, que eu preciso pegar a Alice pra gente caminhar.
Vida de desaposentado é assim: o dinheiro é curto, mas o dia pode ser comprido, se a gente não perder tempo!


Domingos Pellegrini
Texto: Publicado na Gazeta do Povo, de 22/05/05, Fortaleza-CE

" Moacyr Scliar, ganha o Prêmio Jabuti de Livro do Ano de 2009"


Escritor gaúcho Moacyr Scliar recebe o troféu do Prêmio Jabuti de Livro do Ano de Ficção 2009
"Manual da Paixão Solitária" (Cia. das Letras), de Moacyr Scliar, foi escolhido o Livro do Ano de Ficção no Prêmio Jabuti de 2009. A obra rendeu ao escritor também o prêmio na categoria romance.
O escritor gaúcho já havia recebido o Jabuti na categoria contos, com "O Olho Enigmático", em 1988, e na categoria melhor romance em 1993, por "Sonhos Tropicais".
O escritor gaúcho já havia recebido o Jabuti na categoria contos, com "O Olho Enigmático", em 1988, e na categoria melhor romance em 1993, por "Sonhos Tropicais".
A categoria Livro do Ano Não-Ficção da 51ª edição da premiação ficou com "Monteiro Lobato: Livro a Livro" (Editora Unesp/Imprensa Oficial), de Marisa Lajolo e João Luís Ceccantini.
O concurso distribui prêmios de R$ 3 mil para os primeiros lugares de cada categoria, além de R$ 6 mil para o primeiro lugar da categoria "Tradução de obra literária Francês-Português". Os prêmios de Livro do Ano Ficção e Livro do Ano Não-Ficção pagam R$ 30 mil aos seus vencedores :
Durante o evento promovido pela Câmara Brasileira do Livro, foram entregues também os prêmios aos escolhidos nas outras 21 categorias do concurso, que elegeram "Canalha! - Crônicas", de Fabrício Carpinajar, o melhor livro de contos e crônicas, "Dois em Um", Alice Ruiz S., o melhor livro de poesia, "A Invenção do Mundo Pelo Deus-Curumim", de Braulio Tavares na categoria livro infantil, entre outros. A edição de 2009 do Jabuti recebeu a inscrição de 2.573 obras.
Veja a seguir a lista completa dos vencedores:
ROMANCE:
-1º lugar -"Manual da Paixão Solitária", Moacyr Scliar (Companhia das Letras)
2º lugar -"Orfãos do Eldorado", Milton Hatoum (Companhia das Letras).
3º lugar -"Cordilheira", Daniel Galera (Companhia das Letras) .
CONTOS E CRÔNICAS:
1º lugar -"Canalha! - crônicas", Fabricio Carpinejar (Editora Bertrand Brasil)
2º lugar -"Ostra feliz não faz pérola", Rubem Alves (Editora Planeta do Brasil)
3º lugar -"Os comes e bebes nos velórios das gerais e outras histórias", Déa Rodrigues da Cunha Rocha (Auana Editora)
REPORTAGEM:
- 1º lugar -"O Livro Amarelo do Terminal", Vanessa Bárbara (Cosac Naify)
2º lugar -"O Sequestro dos Uruguaios - uma Reportagem dos Tempos da Ditadura", Luiz Cláudio Cunha (L&P Editores)
3º lugar -"1968 - o que Fizemos de Nós", Zuenir Ventura (Editora Planeta do Brasil)
POESIA:
- 1º lugar -"Dois em um", Alice Ruiz S. (Editora Iluminuras)2º lugar -"Antigos e soltos: poemas e prosas da pasta rosa", Instituto Moreira Salles (Instituto Moreira Salles)
3º lugar -"Cinemateca", Eucanaã Ferraz (Companhia das Letras)3ºlugar - "Outros barulhos", Reynaldo Bessa (edição do autor)
INFANTIL:
- 1º lugar - "A Invenção do Mundo Pelo Deus-Curumim", Braulio Tavares (Editora 34)
2º lugar -"No Risco do Caracol", Maria Valéria Rezende e Marlette Menezes (Autêntica Editora) 3º lugar - "Era Outra Vez um Gato Xadrez", Leticia Wierzchowski (Editora Record)
JUVENIL:
- 1º lugar -"O fazedor de velhos", Rodrigo Lacerda (Cosac Naify)
2º lugar -"Cidade dos deitados", Heloisa Prieto (Cosac Naify)
3º lugar -"A distância das coisas", Flávio Carneiro (Edições SM)
ARQUITETURA E URBANISMO, FOTOGRAFIA, COMUNICAÇÃO E ARTES:
- 1º lugar - "Coleção Princesa Isabel - Fotografia do Século XIX", Bia e Pedro Corrêa Lago (Capivara Editora)
2º lugar - "Árvores Notáveis - 200 Anos do Jardim Botânico do Rio de Janeiro" (livro e guia de bolsa), Andréa Jakobsson Estúdio Editorial (Andréa Jakobsson Estúdio Editorial)
3º lugar - "Tarsila do Amaral", Lygia Eluf (Imprensa Oficial do Estado)
TEORIA/CRÍTICA LITERÁRIA:
- 1º lugar -"Monteiro Lobato: Livro a Livro", Marisa Lajolo e João Luís Ceccantini (Editora Unesp / Imprensa Oficial)
2º lugar -"Pensamento e 'Lirismo Puro' na Poesia de Cecília Meireles", Leila V. B. Gouvêa (Editora Universidade de São Paulo)
3º lugar -"Literatura da Urgência Lima Barreto no Domínio da Loucura", Luciana Hidalgo (Annablume Editora)
PROJETO GRÁFICO:
1º lugar -"Fazendas Mineiras", Marcelo Drummond & Marconi Drummond (Cemig)
2º lugar -"A História do Brazil de Frei Vicente de Salvador", Maria Lêda Oliveira (Versal Editores)
3º lugar -"Isay Weinfeld", Roberto Cipolla (Bei Editora)
ILUSTRAÇÃO DE LIVRO INFANTIL OU JUVENIL:
- 1º lugar -"O Matador", Odilon Moraes (Editora Leitura) - BH
2º lugar -"De Passagem", Marcelo Cipis (Companhia das Letras)
3º lugar - "Alfabeto de Histórias", Gilles Eduar (Editora Ática)
CIÊNCIAS EXATAS, TECNOLOGIA E INFORMÁTICA:
-1º lugar - "Introdução à Quimica da Atmosfera - Ciência, Vida e Sobrevivência", Ervim Lenzi e Luzia Otilia Bortotti Favero (LTC - Livros Técnicos e Científicos Editora)
2º lugar - "Fundamentos de Metrologia Científica e Industrial", Armando Albertazzi G. Jr. e André R. de Souza (Editora Manole)
3º lugar - "Mapa do Jogo", Lucia Santaella e Mirna Feitoza (Cengage Learning Edições)
EDUCAÇÃO, PSICOLOGIA E PSICANÁLISE:
1º lugar -"A Voz e o Tempo", Roberto Gambini (Ateliê Editorial)
2º lugar -"Religiosidade e Psicoterapia", Claudia Bruscagin, Adriana Sávio, Fátima Fontes e Denise Mendes Gomes (Editora Roca)
3º lugar - "Educação à distância: o Estado da Arte", Fredric Michael Litto (Pearson Education do Brasil)
DIDÁTICO E PARADIDÁTICO:-
1º lugar - "História e Cultura Africana e Afro-Brasileira", Nei Lopes (Barsa Planeta Internacional)
2º lugar - "Meu primeiro álbum de piano solo", Dulce Auriemo (D.A. Produções Artísticas)2º lugar - "Coleção cidade educadora - Diário de bordo do aluno 1 - Volume Amarelo", Áureo Gomes Monteiro Júnior, Célia Cris Silva e Júlia Scandiuci Figueiredo (Aymará Edições e Tecnologia)
3º lugar - "Literatura Infantil Brasileira: um Guia para Professores e Promotores de Leitura", Vera Maria Tietzmann Silva (Cânone Editorial)
ECONOMIA, ADMINISTRAÇÃO E NEGÓCIOS:
1º lugar - "Valores Humanos & Gestão. Novas Perspectivas", Maria Luisa Mendes Teixeira (organizadora) (Editora Senac São Paulo)
2º lugar -"Estratégia e Competitividade Empresarial - Inovação e Criação de Valor", Luiz Carlos Di Serio e Marcos Augusto de Vasconcelos (Saraiva)
3º lugar - "Meio Ambiente e Crescimento Econômico: Tensões Estruturais", Gilberto Dupas (Editora Unesp)
DIREITO:
1º lugar - "Introdução ao Pensamento Jurídico e à Teoria Geral do Direito Privado", Rosa Maria de Andrade Nery (Editora Revista dos Tribunais)
2º lugar -"Execução", José Miguel Garcia Medina (Editora Revista dos Tribunais)
3º lugar -"Código de Processo Civil - Comentado Artigo por Artigo", Daniel Mitidiero e Luiz Guilherme Marinoni (Editora Revista dos Tribunais) 3ºlugar - "Atual Panorama da Constituição Federal", Carlos Marcelo Gouveia (Saraiva)
BIOGRAFIA:
1º lugar - "O Sol do Brasil", Lilia Moritz Companhia das Letras (Companhia das Letras)
2º lugar -"José Olympio, o Editor e sua Casa", José Mario Pereira (GMT Editores)
3º lugar -"O Santo Sujo: a Vida de Jayme Ovalle", Humberto Werneck (Cosac Naify)
CAPA:
1º lugar - "Moby Dick", Luciana Facchini (Cosac Naify)
2º lugar -"Jovem Stálin", João Baptista da Costa Aguiar (Companhia das Letras)
3º lugar -"Introdução à filosofia", Rex Design (Editora WMF Martins Fontes)
CIÊNCIAS HUMANAS:
1º lugar - "História do Brasil - Uma Interpretação", Adriana Lopez e Carlos Guilherme Mota (Editora Senac São Paulo)
2º lugar - "Veneno Remédio", José Miguel Wisnik (Companhia das Letras)
3º lugar - "A Aparição do Demônio na Fábrica", José de Souza Martins (Editora 34)
CIÊNCIAS NATURAIS E CIÊNCIAS DA SAÚDE:
1º lugar - "Fundamentos de Dermatologia", Marcia Ramos-e-Silva e Maria Cristina Ribeiro de Castro (Editora Atheneu)
2º lugar -"Oftalmogeriatria", Marcela Cypel e Rubens Belfort Jr. (Editora Roca)
3º lugar - "Guia de Propágulos & Plântulas da Amazônia", José Luís Campana Camargo et al (Inpa)

TRADUÇÃO DE OBRA LITERÁRIA FRANCÊS-PORTUGUÊS:
1º lugar -"O Conde de Monte Cristo", André Telles e Rodrigo Lacerda (Jorge Zahar Editor)
2º lugar - "Topografia Ideal para uma Agressão Caracterizada", Flávia Nascimento (Editora Estação Liberdade)
3º lugar - "A Elegância do Ouriço", Rosa Freire D'aguiar (Companhia das Letras)
TRADUÇÃO:
1º lugar -"A Morte de Empédocles / Friedrich Hölderlin", Marise Moassaba Curioni (Iluminuras).
2º lugar -"Satíricon", Cláudio Aquati (Cosac Naify).
3º lugar -"Os Irmãos Karamázov - 2 Volumes", Paulo Bezerra (Editora 34)

Fonte:uol. notícias.com.br

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

" Gestos ajudam a desenvolver inteligência"




Ao entrar em um café movimentado, você provavelmente verá pessoas conversando e gesticulando. Um homem no balcão indica o café que deseja ─ xícara média, ─ e suas mãos assumem um formato familiar, mostrando o tamanho da xícara. Ao lado dele, duas irmãs riem. Enquanto uma delas conta uma história sobre sua viagem a Fernando de Noronha e todos os peixes que viu nos mergulhos que fez, suas mãos sacodem e se movem rapidamente no mar invisível à sua frente. O instinto de gesticular acompanhando a fala é fundamental para a natureza humana.

Se você já questionou o porquê dos gestos, provavelmente pensou que gesticulamos para auxiliar na compreensão do que estamos querendo dizer. Indicar o tamanho de uma xícara ou a dose de uma bebida pode ajudar o balconista a entender exatamente o que você deseja. Mostrar onde o peixe se escondeu ou a velocidade com que ele se movimentou pode ajudar a amiga a criar uma imagem mais exata da sua percepção dos recifes locais.

Mas, será que os gestos podem ter também outra finalidade? Muitos cientistas acreditam que os gestos podem ajudar o interlocutor e os movimentos das mãos ajudam a pensar. Cientistas se interessam cada vez mais pela relação corpo-pensamento, ou como nosso corpo dá forma a processos mentais abstratos. Os gestos estão no centro dessa questão. O debate se concentra no papel do movimento na aprendizagem, e nas pesquisas sobre como os alunos aprendem a resolver problemas de matemática na sala de aula.

A titulo de ilustração, considere o problema da soma: 3 + 2 + 8 = _ + 8. Um aluno pode criar uma forma de “v”, com o indicador e o dedo médio, entre os algarismos 2 e 3, enquanto tenta entender o conceito de “agrupamento”, somando os números adjacentes, técnica que pode ser usada para resolver o problema.

Pesquisas anteriores mostraram que quando foi solicitado aos alunos para gesticular enquanto conversassem sobre problemas, aprenderam a resolvê-los de forma mais eficiente. Isso foi verificado, independentemente de se dizer aos alunos quais gestos fazer ou se os gestos eram espontâneos.
Agora a questão é: como isso acontece? O novo estudo, conduzido por Susan Goldin-Meadow e Zachary Mitchell, da University of Chicago, e por Susan Wagner-Cook, da University of Iowa, teve como foco a resolução de problemas matemáticos por alunos de terceira e quarta séries do ensino básico. Os alunos treinados a utilizar a forma de “v”, ao resolver um problema como 3 + 2 + 8 = __ + 8, aprenderam a solucioná-lo com maior eficácia. Além disso, os alunos apresentaram melhor desempenho mesmo se treinados a empregar a forma de “v” em pares de números errados. Pelo simples ato de fazer o gesto o corpo sugere o conceito de “agrupamento”.

A questão então é: qual teria sido exatamente o procedimento que permitiu isso? Durante o estudo, todos os alunos memorizaram a frase “Quero deixar um lado igual ao outro”. Na ocasião, foi solicitado que os alunos dissessem a frase em voz alta quando fosse apresentado um problema a ser resolvido. Os autores sugerem que os alunos que gesticularam também tentaram criar uma correlação entre a fala e os gestos de forma a unir os dois significados. Esse procedimento poderia consolidar o novo conceito de “agrupamento” na mente dos alunos.
O mesmo processo poderia ocorrer em qualquer situação em que a pessoa que fala e gesticula tenta entender, seja relembrando detalhes de eventos passados ou imaginando como montar uma bicicleta recém retirada da embalagem.
O estudo tem implicações importantes para o campo da Psicologia Cognitiva.

Historicamente, esse campo entende conceitos (os elementos básicos do pensamento), como representações abstratas que não contam com a fisicalidade. Essa noção, conhecida como dualismo cartesiano, agora está sendo desafiada por outra linha de pensamento, chamada Cognição Corporal, que entende conceitos como representações corporais baseadas na percepção, ação e emoção. Embora muitas evidências sustentem a visão da Cognição Corporal, até agora nunca existiu um relato detalhado baseado em experimentos de como a incorporação dos gestos desempenha um papel na aprendizagem de novos conceitos.

O estudo também tem implicações práticas aos professores didáticas, que podem reformular sua didática para ensinar aos alunos novos conceitos utilizando gestos. Os resultados desse estudo podem não valer para os gestos feitos em bares e cafés que você costuma frequentar, no entanto, na próxima vez que conversar com uma amiga gesticuladora, pode ser interessante considerar como o movimento das mãos contribuem para dar forma aos pensamentos dela e aos seus.



Fonte: blog Amigos do Freud

UERJ - Seminário de Psicopedagogia

RIO - A Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) recebe estudantes e profissionais de Educação e áreas correlatas para o XIII Seminário de Psicopedagogia, dia 6, no auditório 91 do Pavilhão Reitor João Lyra Filho, campus Maracanã.


Diversas palestras serão ministradas, sempre visando à discussão dos fatores comprometedores da aprendizagem. Dentre os temas, estão: a violência na família e baixo rendimento escolar; a compreensão da linguagem escrita em crianças com síndrome de Asperger; práticas educacionais parentais, suas crenças, mitos e valores e a influência no desempenho escolar; a interação entre neurociências, déficit de atenção/hiperatividade e psicopedagogia; enfoque da intervenção, avaliação e diagnóstico psicopedagógico através do uso de jogos lúdicos.

A programação do evento está disponível no site do Centro de Produção da UERJ - www.cepuerj.uerj.br. Interessados podem se inscrever no Pavilhão Reitor João Lyra Filho, 1° andar, bloco A, sala 1.006. O valor da inscrição é de R$ 30,00 (comunidade interna da UERJ) ou R$ 35,00 (comunidade externa). Para informações adicionais, o telefone para contato é 2334-0639

terça-feira, 3 de novembro de 2009

A queixa escolar



Hoje os protagonistas das queixas escolares são muitos. Os pais reclamam da escola, os filhos reclamam e os professores também reclamam. Mas, a maior queixa é: por que os jovens não prestam atenção nas aulas dadas no colégio? Por que o conhecimento não é fácil? Por que para ensinar requer que o aluno veja a escola como algo prazeroso? Essas e muitas outras perguntas estão sempre em pauta. Elas vão desde a presença da falta de valores até a falta de conhecimento.

Mas, o que ocorre realmente nesse universo de aprendizagem? Afinal, quais são os atos mais profícuos no ato de ensinar? O que garante o ensinamento e aprendizagem (conhecimento)?
Antigamente, se podia dizer que ter um diploma era garantia de sucesso. Era uma possibilidade real de se ter trabalho garantido. Hoje o diploma não garante mais nada.

Porém, com a evolução do discurso que deixou de lado esse pragmatismo, hoje vemos que o conhecimento é construído através de uma ética onde as diferenças são aceitas à medida que elas representam à singularidade. Os projetos pedagógicos vêm contribuir para que o educador não se sinta isolado na construção do saber. Assim, os alunos ditos especiais são aceitos na escola, mas ainda não estão incluídos devido à falta de “preparo” para compreender como esses alunos pensam e constroem o seu conhecimento. Quando as escolas os submetem a se comportarem como os demais, começa aí o primeiro equívoco dos muitos que virão.

Se a escola ainda não consegue responder as queixas dos alunos considerados “normais”, imagina lidar com esse complexo universo de crianças especiais.

Hoje se tenta responder os equívocos da escola tradicional e pagamos um preço muito alto ao admitirmos que pouco se aprendeu com eles, que aliás, só sabem decorar os conteúdos dados.

Verificamos que as escolas avançaram, pelo menos no discurso, mas ainda não conseguimos fazer com que os alunos compreendam a importância de ser criativo e empreendedor.

Talvez seja porque a escola ainda forneça aos alunos uma escola sem desafios, sem criticidade ou até mesmo reprodutora dos velhos conhecimentos. É por isso que os alunos vivem perguntando o porquê de aprender determinados assuntos, pois não vêem utilidade em sua prática, isto é, voltamos ao pragmatismo.

Percebo que a queixa escolar vai além dos muros da escola. Hoje só se pensa em saber algo para ser utilizado daqui a meia hora. O problema de aprendizagem é tão extenso como o fazer de dentro da escola. Passa por inúmeros repertórios, muitos ambientes, com dissonâncias de discursos até se tornar algo concebível e viável.

O que entendo é que o discurso ainda difere do espaço real escolar, do que se pode realmente realizar nesse espaço. A escola é um espaço de idéias, intenções subjetivas, que querendo ou não interferem no desejo de construção. Não se pode negar que o diálogo ainda permanece aberto para uma melhor compreensão dessas queixas. Não se pode apenas inferir e dar um testemunho. É necessário se realizar um discurso mais próximo do educando, refletindo o desejo de ressignificar as dissonâncias ou as queixas escolares. Não se constrói uma muralha sem tijolos. A educação vive se contradizendo. Vive começando sempre do zero. Talvez este seja um dos graves equívocos.

Está na hora da escola ser verdadeira. Parar de prometer o que não pode oferecer. Vivemos em uma sociedade competitiva, mas não somos a solução de todos os problemas. Se a escola conseguir superar as suas próprias contradições já será um grande êxito.

O que podemos garantir aos nossos alunos é que para ser uma pessoa de sucesso, sem dúvida nenhuma essa pessoa tem que se esforçar e muito para ter um bom desempenho. O ensino e a aprendizagem não possuem nenhum compromisso com o “brincar”, portanto o ensino não é um ato prazeroso como muitos nos fazem crer.

Temos que desmistificar que a vida fácil acontece de forma espontânea. Temos que mostrar aos nossos alunos que tudo na vida requer esforço e saber. Não existe facilidade para quem quer ser criativo e empreendedor. E esses são os valores que a escola deve construir.

Para se tornar um cidadão emancipado deve-se estar consciente de seu valor, e que a autoridade é conquistada com exemplos dos adultos. É chegada a hora de crescer. Não dá mais para sermos infantilizados. A maturidade do escolar vem com a mudança de atitude. E esta sempre está atrelada a um bom convívio social.

sábado, 31 de outubro de 2009

Recente estudo sobre o Autismo


Pesquisadores norte-americanos estudam a possível relação entre a concentração de mercúrio no organismo e o diagnóstico de autismo em crianças de 2 a 5 anos de idade.

O autismo ainda é uma doença de difícil compreensão. As crianças apresentam dificuldade de relacionamento interpessoal, comportamentos repetitivos e interesses limitados.
Não existe diferença entre os níveis de mercúrio no organismo das crianças autistas quando comparadas com as crianças normais.

A doença tem várias formas de manifestação, desde a mais completa até outras gradações. Uma delas é a síndrome de Asperger, em que as dificuldades podem se apresentar parcialmente ou de forma muito leve.

Os fatores de risco conhecidos até hoje são: crianças do sexo masculino predominam entre os autistas, filhos de pai ou mãe mais velhos e uma série de alterações em vários genes.

O papel do fator genético está sendo mais conhecido a partir dos estudos do genoma humano e os cientistas avaliam a força da interação entre a genética e os fatores ambientais no aparecimento do autismo.
Para conhecer melhor essa interação, um grande estudo populacional está em curso na Califórnia, nos Estados Unidos.

Um grupo de mais de 400 crianças, com idades entre 2 e 5 anos e com diagnóstico de autismo clássico, manifestações leves e crianças normais foi analisado.

Os cientistas mediram os níveis de mercúrio no sangue dessas crianças para descobrir se existe associação entre esse metal e o autismo. As fontes possíveis de mercúrio são várias, mas as mais importantes são o consumo de peixe, a presença de obturações dentárias à base de amálgama e as vacinas e medicamentos de uso comum contendo timerosal.

Como a maior fonte de mercúrio é o consumo de peixes como atum e outros peixes de oceano, o consumo de peixes pelas crianças foi alvo de um análise específica.

Após dosarem os níveis de mercúrio no sangue das crianças, uma primeira conclusão foi possível. Não existe diferença entre os níveis de mercúrio no organismo das crianças autistas quando comparadas com as crianças normais.

A aplicação de vacinas contendo timerosal, como agente preservante, não modificava esses resultados, não havendo relação entre sua aplicação e os níveis de mercúrio no organismo das crianças autistas e normais.

As crianças com autismo apresentaram um padrão de consumo de peixe menor do que a média do grupo das crianças normais. Esse dado foi atribuído a reações ao sabor e odor do peixe como componente da dieta.

Fonte:G1.globo.noticia.com/saude



sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Bullying


Quando eu era criança brincava muito na rua. Sempre com muitas amigas. A noite parecia muito pequena diante de tanta vontade de brincar. Noites essas de verão, onde as famílias se dispunham há passar algumas horas a conversar em suas calçadas.

Essas amigas eram as que iam pra escola comigo. Terrível era agüentar os seus irmãos. Era um grupinho de crianças mais velhas, portanto se achavam. Eles eram brincalhões. Adoravam acordar cedo só pra mexer com as meninas.

Quando eu me atrasava, ia sozinha. Aí, tudo mudava. Alguns deles adoravam implicar. Só que havia um que era terrível, chegava a ser cruel. E quanto mais ele percebia que me incomodava, mais ele fazia. Tinham mania de colocar apelido, zombavam de tudo, inclusive adoravam humilhar as pessoas, não importava a sua idade. Nessa época, achava-se “normal” esse tipo de comportamento. Na verdade acreditava-se que era um comportamento inadequado, coisa de adolescente, um comportamento anti-social que logo, logo iria passar.

Lembro-me que uma vez fui a casa desse adolescente, brincar com a sua irmã. E esperei a mesma na sala. Ele teve a coragem de fazer-me levantar da onde eu estava sentada, porque aquele era o seu lugar. Ele adorava agir dessa forma. Ficava claro o quanto ele se satisfazia com essa atitude agressiva e antipática. Normalmente, ele não aceitava as repreensões como algo natural. Caso essas o acontecessem ameaçava as suas vítimas com gestos e palavrões.

A ansiedade que os jovens sentem com as mudanças que ocorrem no corpo, nessa fase, não é coisa pequena e caso ele não tenha bons valores incutidos, poderá nesse momento interpretar essas mudanças como um ponto fraco. Os pais são os espelhos da criança, já que tudo o que ela faz passa por eles. Perder esse apoio e referências tão fortes nessa idade torna-os vulneráveis. É nessa fase que os adolescentes procuram se identificar com aqueles que para eles será um modelo de “vida”. Isso supõe testar a capacidade, aprender a reconhecer limites e riscos, organizando a sua relação com o grupo, seja o familiar ou social.

Hoje esse tipo de violência é um fenômeno conhecido como bullying, que apresenta conseqüências preocupantes para a saúde física e principalmente emocional de seus atores- tanto faz se são os agressores, as vítimas ou as testemunhas. E o que é pior: a intimidação, o medo e a vergonha tornam-se um pacto de silêncio entre os jovens.

A forma de agredir varia muito: acontece desde agressões físicas, moral, material e até sexual. O motivo que justifica o ato violento, em geral é apenas um pretexto, qualquer coisa que diferencie a vítima: peso, altura, cor do cabelo, religião, classe social ou outras características que sirva ao preconceito.
Atualmente a internet tem sido usada também para esse fim.
O ambiente escolar está cada vez mais sendo palco para essas agressões. E o pior, ouço depoimentos de pais que não sabem o que fazer. Entregam, ou melhor, delegam o poder de repreensão à escola. Desistem literalmente de educar os seus filhos, tamanha a falta de controle sobre a situação.

Por isso, muitas dessas crianças ou adolescentes chegam à escola tendo que aprender a se comunicar, a falar com os seus pares e com os adultos.

O bullying é o exemplo dessa comunicação atrapalhada. Hoje se considera que faz muito mal à saúde, principalmente quando a vítima fica exposta a esses acontecimentos com freqüência, podendo acarretar conseqüências como: fobias, depressão e outros traumas. Além de tornar as suas vítimas pessoas inseguras e de baixa estima.

O que se verifica é que o quanto antes esse quadro for identificado, mais cedo à situação fica neutralizada.

Assim, os casos mais sérios, em geral acontecem com adolescentes, à ajuda médica ou terapêutica será necessária. Portanto, não veja tudo como uma brincadeira, fique mais atenta, infelizmente o ser humano ainda necessita de bons exemplos, seja na família, na escola ou socialmente falando pra ter uma boa convivência.
Essas palavras da Bárbara Freitag ( socióloga brasileira), são muito atuais:
" Os gregos diferenciavam, como sabemos, entre dois conceitos distintos de tempo: cronos e cairós. O primeiro refere-se à passagem contínua do tempo ( donde, cronologia) e o segundo conceito refere-se ao momento certo, maduro, para certos eventos. Há também, no caso da psicogênese infantil, momentos certos ( cairós) para promover o pensamento lógico, a modalidade autônoma e a competência linguística. Sociedades que se omitem e não fornecem as condições materiais e sociais adequadas para as novas gerações nos momentos certos, perdem a oportunidade de criar cidadãos maduros, capazes de assumir com responsabilidade e autonomia suas funções na sociedade".

Ironicamente o tempo de maturação, está precocemente sendo abolida. Não é à toa que as crianças começaram a ter enfermidades de adultos, mais cedo. Enfermidades essas como dores de cabeça, por inesperadas pressões precoces, vindas sempre como forma de superação de um obstáculo.

Os seus direitos de criança estão sendo cada vez mais esquecidos em nome de uma maturidade precoce. A imposição cultural é autoritária e permanente objeto de alienação na cabeça de todos. Quando queremos que nossos filhos se vistam como adultos, estamos sendo tão irresponsáveis quanto a atitude de uma criança. Portanto, ainda há tempo de devolvermos as nossas crianças a possibilidade de vivenciar a infância com alegria, sem preocupações não condizentes a essa etapa de vida, com chances de amadurecer no tempo certo.



terça-feira, 27 de outubro de 2009

Mudanças Climáticas- um problema global




Muitas das atividades dos seres humanos produzem esses gases que aumentam o efeito estufa e isso começou a se acelerar quanto às tecnologias foram ficando mais sofisticadas. Por volta de 1750, com a chamada Revolução Industrial passamos a produzir e a consumir mais coisas e a produzi-las de modo diferente, substituindo o trabalho humano e animal pelo maior consumo de combustíveis fósseis como petróleo e carvão mineral.

Na década de 1970, os cientistas passaram estudar esse problema mais de perto e, embora alguns acreditem que o planeta não corre o risco de ficar superaquecido, existe uma preocupação muito grande de que, se continuarmos a produzir esses gases, poderá haver uma alteração climática séria num futuro próximo.

Os países devem adotar políticas e incentivar o uso de tecnologias limpas na indústria e no setor agrícola, apoiarem as pesquisas sobre o tema-cooperar com outros países que sofrem com o problema, facilitar o acesso às informações para todos os cidadãos e cidadãs e abrir um debate com a sociedade sobre isso. Os países industrializados que mais emitem os gases de efeito estufa devem estabelecer metas de redução ou limitação desses gases.

Os Estados e municípios devem examinar a realidade regional e local e diminuir a emissão dos gases de efeito estufa tratando os resíduos, melhorando seus sistemas de transporte, adaptando as edificações ao clima local, com aquecimento, iluminação e ventilação vindas de fontes de energia renováveis e limpas, evitando queimadas, incentivando o reflorestamento e outras atividades que mantenham florestas em pé.

As pessoas devem pensar nas suas responsabilidades e nas ações do dia a dia o que consomem, como usam transportes e energia, como o trabalho e a moradia de cada um estão relacionados à alteração climática.

O Brasil é também emissor de gases de efeito estufa e isso é resultado, principalmente, do uso que fazemos do solo com os desmatamentos e queimadas. Desmatar é retirar totalmente a vegetação nativa de uma área para utilização do solo em atividades como pecuária, agricultura, produção de carvão vegetal, produção madeira, instalação de usinas hidrelétricas, mineração e especulação imobiliária.

O modo como geramos energia também é preocupante, mas nesse caso o Brasil tem contribuições positivas. Nós usamos muitos recursos naturais renováveis de origem hídrica (utilização da água para geração de energia) solar, eólica (produzido pela ação ou força do vento). Além disso, utilizamos a biomassa-a energia que os organismos biológicos produzem e que pode ser transformado em eletricidade, combustível ou calor a partir de matérias primas como a cana de açúcar (álcool), lixo orgânico (biogás), lenha e o carvão vegetal, e alguns óleos vegetais (mamona babaçu).

Durante o Rio 92, os representantes dos países ali reunidos fizeram um documento sobre as Mudanças Climáticas, porque esse passou a ser um problema ambiental muito sério. Assim, foi escrita a Convenção - Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima, na qual a comunidade internacional formalizou:
- reconheceu que as mudanças climáticas são problemas reais e planetários;
- reconheceu também que as atividades humanas têm um papel importante nas mudanças climáticas e que é preciso que todos os países façam um esforço para diminuir o problema.
- colocou como objetivo para os países a redução e a estabilização dos gases de efeito estufa. Assim, as atividades econômicas e a produção de alimentos devem ser feitas de uma maneira diferente.

Para transformar essa Convenção em propostas objetivas de responsabilidades e ações nos países, foi criado em 1997, o Protocolo de Quioto, que só entrou em vigor em 16 de fevereiro de 2005. A partir dessa data, os países que assinaram devem desenvolver projetos para diminuir a taxa de emissão de gases de efeito estufa até 2012.

Reconheço que as escolas devem trabalhar de forma sistemática esse tema. Alguns currículos já são formatados para discutir o tema de forma objetiva e construtiva. Hoje o assunto é recorrente, porém as soluções ainda são primárias, diante do agravamento constante. Ainda presenciamos muito desrespeito a natureza. Só no Brasil são milhares de áreas queimadas por dia. São milhares de litros de água sendo desperdiçado. São quilos de alimentos sendo jogados fora por falta de "conservação" adequada. Enfim, o desrespeito ao que a natureza nos dá é imenso.

Assim, proponho que pensemos a respito do que faz ou possa ser feito para diminuir tamanho desperdício. O que você como educador ( pois todos somos educadores), faz por tudo aquilo que conquistou, pelo o que se acredite que seja necessário para uma vida saudável, não se torne um exagero e acabe indo para o lixo. Isso nas mais diferentes esferas, tome ciência e consciência do seu "resíduo"... O seu resíduo não tem que ser além do necessário, para que ele não se torne um problema maior, que se chama: culpa. A falta de consciência, de moderação e respeito nos leva a certas atitudes que nem sempre nos orgulhamos.

Fonte: uol.com.br



segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Eleições Municipais para os candidatos ao cargo de Conselheiro Tutelar- ECA

Por ser assunto em pauta, converso com vocês o que tem sido dito nos grandes jornais sobre o ECA. Coloco também um pouco as minhas impressões, impressões estas de quem vive em cidade pequena, mas sofre tanto quanto como quem vive em cidade grande. Os problemas são os mesmos, talvez a diferença fique na frequência dos fatos.

Para alguns juristas o estatuto ainda é uma legislação avançada e as políticas públicas devem melhorar para que o texto seja cumprido.
“Há um consenso de que a legislação (o ECA) é avançada porque traz para o interior do panorama legal brasileiro o que existe de melhor nas normas internacionais. Mas tem um dissenso. De que é uma lei que o Brasil não tem condições de cumprir. Alguns acham que é preferível ter uma lei exequível, que possa ser cumprida. Mas tem outro lado que acha que lei é realidade, e o estatuto é a lei. E sabe que há uma diferença entre a lei e a realidade, ninguém nega. Uma parte acha que precisamos piorar a lei para ficar mais próxima. A outra facção, acha que a realidade é que tem que melhorar."

Sancionado em 13 de julho de 1990, o ECA é a regulamentação dos artigos 227 e 228 da Constituição que estabelece como "dever da família, da sociedade e do Estado assegurar, com absoluta prioridade, o direito à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária".

Muitos que acompanham de perto a atuação do ECA , afirmaram que o estatuto é uma legislação avançada e criticaram a falta de "estrutura" e de políticas públicas para a garantia dos direitos das crianças.


"Precisaria ter uma política nacional que tratasse do assunto para que esses menores tivessem acesso à educação. Para que não fique preso como os adultos, que é o que acaba acontecendo." Para o magistrado, no entanto, o Estado "não tem cumprido suas obrigações para dar a prioridade que a criança precisa".

"Continua faltando escola, creche, atendimento especializado. É uma legislação atual, que satisfaz de forma plena os operadores do direito. Mas ainda falta a implementação de políticas públicas. Falta moradia, emprego para os pais, saúde para família. O Judiciário também não se equipou para priorizar os processos da criança e do adolescente."

Avaliam que o Judiciário deveria ter mais varas da infância e da juventude. "Além disso o corpo técnico de assistentes sociais, psicólogos e pedagogos é reduzido. Existem estudos dentro do Judiciário para ampliar, mas geralmente os orçamentos não comportam."
O governo federal, no entanto, diz que as políticas públicas voltadas para as crianças e os adolescentes existem, mas a aplicação cabe a cada prefeitura.


Na época da Constituinte, foi criada uma frente parlamentar para introduzir o direito da criança nas leis. Nós brasileiros sabíamos o que não queríamos porque o filme 'Pixote - A lei do mais fraco', deixou claro o que não queríamos mais. O filme foi lançado em 1981 e se baseou no livro "A Infância dos Mortos", de José Loureiro, que conta a história de um menino, abandonado pelos pais, que sobrevive em meio ao crime e às drogas.

A história conta que o ECA foi uma regulamentação da Constituição. Mas para o direito da criança ser inserido na Constituição, foi necessária uma emenda constitucional de iniciativa popular. Um grupo formado por várias entidades, como a Unicef, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), a Sociedade Brasileira de Pediatria), o movimento em defesa dos meninos de rua, entre outros, participou da coleta de assinaturas.

"Conseguiram mais de 30 mil assinaturas para uma emenda chamada Criança Prioridade Nacional' e mais de 2 milhões de assinaturas que não tinham valor legal, mas sim político, de crianças e adolescentes de programas e escolas públicas. E puseram essas assinaturas em carrinhos de supermercado e levaram no Congresso para Ulisses Guimarães (que presidiu a Assembleia Constituinte)."

Em seguida, começaram as discussões para aprovação do ECA, criou-se um grupo de redação do estatuto, formado por juristas e entidades, e o texto foi enviado para a Câmara dos Deputados e para o Senado, na intenção de agilizar a aprovação. O motivo para a pressa,era uma conferência da ONU em 1990 que o Brasil participaria e precisaria, até lá, ter a legislação regulamentada.

O mesmo aconteceu com as Prefeituras que tiveram que implantar todos os procedimentos para constituir uma comissão do ECA no Município em um curto prazo, prejudicando assim a compreensão do documento. Lembro-me que as escolas e as comunidades foram convocadas para ler e conhecer o ECA, mas o fato de ter sido tudo muito corrido, os equívocos foram inúmeros.
Vejo que hoje este material é conhecido por muitos, mas ainda é mal interpretado. Para alguns virou apenas mais um livro onde o conteúdo pouco surte efeito. Acredito, que por falta de infraestrutura, o manual perdeu o crédito, por falta de sua execução na hora certa e no momento certo. Pouco se faz, muito se discute e a burocracia começa a tomar conta em nome de uma eficiência.


Essa é a realidade em muitas cidades. O papel dos Conselheiros têm sido disputar com os parceiros de trabalho ( professores, diretores, comunidades envolvidas), quem tem o poder pra resolver a problemática. Na verdade se tornou um jogo de disputa entre quem manda e quem executa as tarefas. Por falta de estratégias eficazes e/ou falta de estrutura de serviço, mais estrutura de metas de trabalho, muito se discute e pouco se concretiza. O que passa acontecer é que a criança volta a ficar "abandonada" por aqueles que poderiam fazer algo por elas.

Os locais de abrigo para essas crianças são precários em sua grande maioria. Muitos dessas crianças- são crianças que praticaram pequenos delitos, mal comportamento social, o que exige uma equipe de conselheiros bem estruturados e formados, mais uma equipe multidisciplinar para acompanhar o desenvolvimento dessas crianças. Na verdade, estas continuam a freqüentar à escola e muitas das vezes não há nenhum acompanhamento, porque na escola também não há especialistas.

Hoje, ser Conselheiro Tutelar, infelizmente virou um cabide de emprego ou um trampolim para uma futura carreira política. Para conter um pouco o tamanho despropósito, formalizaram uma “seleção” para o cargo de Conselheiro Tutelar. Uma das exigências é que o candidato saiba o Manual do ECA, algumas noções sobre infância e adolescência (isto é, sem menor conteúdo pedagógico acadêmico). Infelizmente, acredito que estamos longe de um critério plauzível para tamanha responsabilidade.

Parece-me que deveria haver mais rigor nessa seleção e um dos quesitos era que todos os Conselheiros fossem acompanhados por psicólogos ou um terapeuta. Pessoas que não possuem o processo de auto-cura ou de autoconhecimento não tem nenhuma condição de atuar nessa tarefa de "resgate de vida".

Alguns Conselheiros são tão despreparados para assumirem o seu papel, que alguns desistem em pouco tempo, após assumir o cargo. E aí, tudo recomeça. Essa é a tônica de trabalho, um eterno recomeço, onde as equipes tem data prevista para entrar, com prazo pra sair e assim mesmo não agüentam o rojão.



Fonte: Uol.com.br

domingo, 25 de outubro de 2009

" Como o poeta vê a favela"- Carlos Drummond de Andrade



À memória de Alceu Amoroso Lima,que me convidou a olhar para as favelas do Rio de Janeiro.

Favelário Nacional


1. Prosopopéia

Quem sou eu para te cantar, favela,
que cantas em mim e para ninguém a noite inteira de sexta
e a noite inteira de sábado
e nos desconheces, como igualmente não te conhecemos?

Sei apenas do teu mau cheiro: baixou a mim, na vibração,
direto, rápido, telegrama nasal
anunciando morte... melhor, tua vida.

Decoro teus nomes. Eles
jorram na enxurrada entre detritos
da grande chuva de janeiro de 1966
em noites e dias e pesadelos consecutivos.

Sinto, de lembrar, essas feridas descascadas na perna esquerda
chamadas Portão Vermelho, Tucano, Morro do Nheco,
Sacopã, Cabritos, Guararapes, Barreira do Vasco,
Catacumba catacumbal tonitruante no passado,
e vem logo Urubus e vem logo Esqueleto,
Tabajaras estronda tambores de guerra,
Cantagalo e Pavão soberbos na miséria,
a suculenta Mangueira escorrendo caldo de samba,
Sacramento... Acorda, Caracol. Atenção, Pretos Forros!

O mundo pode acabar esta noite, não como nas Escrituras se estatui.
Vai desabar, grampiola por grampiola,
trapizonga por trapizonga,
tamanco, violão, trempe, carteira profissional, essas drogas todas,
esses tesouros teus, altas alfaias.
Vai desabar, vai desabar
o teto de zinco marchetado de estrelas naturais
e todos, ó ainda inocentes, ó marginais estabelecidos, morrereis
pela ira de Deus, mal governada.

Padecemos este pânico, mas
o que se passa no morro é um passar diferente,
dor própria, código fechado: Não se meta,
paisano dos baixos da Zona Sul.
Tua dignidade é teu isolamento por cima da gente.
Não sei subir teus caminhos de rato, de cobra e baseado,
tuas perambeiras, templos de Mamalapunam
em suspensão carioca.

Tenho medo. Medo de ti, sem te conhecer,
medo só de te sentir, encravada
favela, erisipela, mal-do-monte
na coxa flava do Rio de Janeiro.

Medo: não de tua lâmina nem de teu revólver.
Nem de tua manha nem de teu olhar.
Medo de que sintas como sou culpado
e culpados somos de pouca ou nenhuma irmandade.

Custa ser irmão,
custa abandonar nossos privilégiose
traçar a planta
da justa igualdade.

Somos desiguais
e queremos ser
sempre desiguais.
E queremos ser
bonzinhos benévolos
comedidamente
sociologicamente
mui bem comportados.

Mas favela, ciao,
que este nosso papo
está ficando tão desagradável.
Vês que perdi o tom e a empáfia do começo?


Carlos Drummond de Andrade