sexta-feira, 25 de setembro de 2009

"Ética para uma nova era"- Leonardo Boff

Nenhuma sociedade no passado ou no presente vive sem uma ética. Como seres sociais, precisamos elaborar certos consensos, coibir certas ações e criar projetos coletivos que dão sentido e rumo à história. Hoje, devido ao fato da globalização, constata-se o encontro de muitos projetos éticos nem todos compatíveis entre si. Face à nova era da humanidade, agora mundializada, sente-se a urgência de um patamar ético mínimo que possa ganhar o consentimento de todos e assim viabilizar a convivência dos povos. Vejamos, suscitamente, como na história se formularam as éticas.
Uma permanente fonte de ética são as religiões. Estas animam valores, ditam comportamentos e dão significado à vida de grande parte da humanidade que, a despeito do processo de secularização, se rege pela cosmovisão religiosa. Como as religiões são muitas e diferentes, variam também as normas éticas. Dificilmente se pode fundar um consenso ético, baseado somente no fator religioso. Qual religião tomar como referência? A ética fundada na religião possui, entretanto, um valor inestimável por referi-la a um último fundamento que é o Absoluto.
A segunda fonte é a razão. Foi mérito dos filósofos gregos terem construído uma arquitetônica ética fundada em algo universal, exatamente na razão, presente em todos os seres humanos. As normas que regem a vida pessoal chamaram de ética e as que presidem a vida social chamaram de politica.Por isso, para eles, politica é sempre ética. Não existe, como entre nós, politica sem ética.
Esta ética racional é irrenunciável mas não recobre toda a vida humana, pois existem outras dimensões que estão aquém da razão como a vida afetiva ou além como a estética e a experiência espiritual.
A terceira fonte é o desejo. Somos seres, por essência, desejantes. O desejo possui uma estrutura infinita. Não conhece limites e é indefinido por ser naturalmente difuso. Cabe ao ser humano dar-lhe forma. Na maneira de realizar, limitar e direcionar o desejo, surgem normas e valores. A ética do desejo se casa perfeitamente com a cultura moderna que surgiu do desejo de conquistar o mundo.
Ela ganhou uma forma particular no capitalismo no seu afã de realizar todos os desejos. E o faz excitando de forma exacerbada todos os desejos. Pertence à felicidade, a realização de desejos mas, atualmente, sem freios e controles, pode pôr em risco a espécie e devastar o planeta.
Precisamos incorporá-la em algo mais fundamental.
A quarta fonte é o cuidado, fundado na razão sensível e na sua expressão racional, a responsabilidade. O cuidado está ligado essencialmente à vida, pois esta, sem o cuidado, não persiste. Dai haver uma tradição filosófica que nos vem da antiguidade (a fábula-mito 220 de Higino) que define o ser humano como essencialmente um ser de cuidado. A ética do cuidado protege, potencia, preserva, cura e previne. Por sua natureza não é agressiva e quando intervem na realidade o faz tomando em consideração as consequências benéficas ou maléficas da intervenção. Vale dizer, se responsabiliza por todas as ações humanas. Cuidado e responsabilidade andam sempre juntos.
Essaa ética é hoje imperativa. O planeta, a natureza, a humanidade, os povos, o mundo da vida (Lebenswelt) estão demandando cuidado e responsabilidade. Se não transformarmos estas atitudes em valores normativos dificilmente evitaremos catástrofes em todos os níveis. Os problemas do aquecimento global e o complexo das varias crises, só serão equacionados no espírito de uma ética do cuidado e da responsabilidade coletiva. É a ética da nova era.
A ética do cuidado não invalida as demais éticas mas as obriga a servir à causa maior que é a salvaguarda da vida e a preservação da Casa Comum para que continue habitável.
Leonardo Boff é autor de Saber cuidar. Etica do humano, compaixão pela Terrra, Vozes.

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Teste de paternidade um direito de todos!


"Paraná deve ter teste gratuito de paternidade.
Governo assinou acordo para instalação de laboratório. Trabalhos devem começar em março de 2010.
O governo do Paraná assinou um acordo para instalação do Laboratório de Paternidade na Universidade Estadual de Londrina (UEL) e compra de equipamentos para testes de paternidade com análise de DNA. No estado, 2 mil exames de paternidade esperam julgamento, segundo nota divulgada pela Agência Estadual de Notícias, do governo paranaense.
Com a construção do Laboratório de Paternidade, quem está com o processo judicial na fila poderá receber gratuitamente o resultado do teste. A administração estadual informa que o exame feito na criança e no possível pai custa cerca de R$ 300. A previsão é que todos os processos parados sejam julgados.
Segundo Mário Mantovani, diretor do Centro de Ciências Biológicas da UEL, o início dos trabalhos está programado para março de 2010. “O maior investimento a ser feito será nos reagentes. Em cada caso podem ser feitos vários testes, como em duas possibilidades de pais. A meta será solucionar os 2 mil casos, independentemente do número de exames”, disse o diretor.
O investimento é superior a R$ 2 milhões. Da quantia total, R$ 1,9 milhão foi repassado pela Secretaria de Estado da Criança e da Juventude. Outros R$ 216 mil são aplicações da Secretaria de Ciência Tecnologia e Ensino Superior, que serão destinados para treinamento e contratação de pesquisadores para o novo laboratório.
Universidades:
Além da UEL, outras quatro universidades estão envolvidas no projeto. São elas: a Universidade Estadual do Centro-Oeste (Unicentro), Universidade Estadual de Maringá (UEM), Universidade Estadual do Norte do Paraná (Uenp) e Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG).
O papel das instituições será na capacitação de profissionais.
Para garantir que a aplicação dos recursos seja usada corretamente, o Conselho Estadual dos Direitos da Criança e do Adolescente e a Secretaria da Criança e Juventude vão fiscalizar o destino da verba".

(Fonte: g1.globo.com)

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

" Rifa-se um coração"




Rifa-se um coração
Rifase um coração quase novo.

Um coração idealista.Um coração como poucos.

Um coração à moda antiga.

Um coração moleque que insisteem pregar peças no seu usuário.

Rifa-se um coração que na realidade está umpouco usado, meio calejado, muito machucado e que teima em alimentar sonhos e, cultivar ilusões.

Um pouco inconseqüente que nunca desistede acreditar nas pessoas.Um leviano e precipitado coraçãoque acha que Tim Maiaestava certo quando escreveu...

"...não quero dinheiro, eu quero amor sincero,é isso que eu espero...".

Um idealista...Um verdadeiro sonhador...

Rifa-se um coração que nunca aprende.

Que não endurece, e mantém sempre viva aesperança de ser feliz, sendo simples e natural.

Um coração insensato que comanda o racionalsendo louco o suficiente para se apaixonar.

Um furioso suicida que vive procurandorelações e emoções verdadeiras.

Rifa-se um coração que insiste em cometersempre os mesmos erros.

Esse coração que erra, briga, se expõe.

Perde o juízo por completo em nomede causas e paixões.
Sai do sério e, às vezes revê suas posiçõesarrependido de palavras e gestos.

Este coração tantas vezes incompreendido.

Tantas vezes provocado.Tantas vezes impulsivo.Rifa-se este desequilibrado emocionalque abre sorrisos tão largos que quase dápra engolir as orelhas, mas quetambém arranca lágrimase faz murchar o rosto.

Um coração para ser alugado,ou mesmo utilizadopor quem gosta de emoções fortes.

Um órgão abestado indicado apenas paraquem quer viver intensamentecontra indicado para os que apenas pretendempassar pela vida matando o tempo,defendendo-se das emoções.

Rifa-se um coração tão inocenteque se mostra sem armadurase deixa louco o seu usuário.

Um coração que quando parar de baterouvirá o seu usuário dizerpara São Pedro na hora da prestação de contas:

"O Senhor pode conferir.

Eu fiz tudo certo,só errei quando coloquei sentimento.

Só fiz bobagens e me dei malquando ouvi este louco coração de criançaque insiste em não
endurecer e,se recusa a envelhecer"Rifa-se um coração, ou mesmo troca-se por

outro que tenha um pouco mais de juízo.

Um órgão mais fiel ao seu usuário.
Um amigo do peito que não maltratetanto o ser que o abriga.Um coração que não seja tão inconseqüente.

Rifa-se um coração cego, surdo e mudo,mas que incomoda um bocado.

Um verdadeiro caçador de aventuras que aindanão foi adotado, provavelmente, por se recusara cultivar ares selvagens ou racionais,por não querer perder o estilo.

Oferece-se um coração vadio,sem raça, sem pedigree.

Um simples coração humano.

Um impulsivo membro de comportamentoaté meio ultrapassado.

Um modelo cheio de defeitos que,mesmo estando fora do mercado,faz questão de não se modernizar,mas vez por outra,constrange o corpo que o domina.

Um velho coração que convenceseu usuário a publicar seus segredose a ter a petulância de se aventurar como poeta.


Clarice Lispector

terça-feira, 22 de setembro de 2009

" Jovens perdidos sem GPS"

Um jovem me disse que se considera um consumidor voraz e dependente da tecnologia portátil. Ele conta que aonde vai carrega seu arsenal: telefone celular com múltiplas funções, tocador de músicas, Gameboy, acessórios, diversos pen drives, GPS etc.

Está permanentemente conectado à internet e envia e recebe centenas de mensagens eletrônicas por dia, sem contar o uso de programas de comunicação por imagem e voz. Ao final, ele se perguntou se o uso de tanta tecnologia facilita sua vida ou se a torna mais complexa.

A presença da tecnologia em nossas vidas modificou nossa maneira de conduzir muitas questões. São poucas as pessoas que poderiam viver sem seu celular para falar várias vezes ao dia com a mesma pessoa.

As crianças e os adolescentes, por exemplo, não precisam ficar horas sem comunicação com os pais -que sempre atendem a seus telefonemas no celular. O motivo das ligações? Os filhos querem saber o horário em que os pais devem chegar, reclamar de seus cuidadores, saber o que comerão no jantar e outros assuntos corriqueiros.

Uma mãe reclamou do número enorme de telefonemas diários dos filhos e eu lhe perguntei por que os atendia. Ela disse que sempre temia que fosse algo urgente, só que isso nunca havia acontecido.

Mas a tecnologia se entranhou tanto em nossas vidas que agora não apenas a usamos como também, tão influenciados por ela, a imitamos.Vamos considerar a relação que os pais têm com os filhos.

Algumas décadas atrás, era consenso que educar significava mostrar aos filhos como é a vida e dar a eles algumas direções a serem seguidas, pelo menos temporariamente. Os pais eram a bússola dos filhos. Apontar sempre a direção a seguir -a do grupo familiar- era a função que exerciam.

Os valores, princípios morais, costumes, tradições e virtudes que a família priorizava eram a direção. Ao chegar à maturidade, com autonomia e conhecedores do norte familiar, os filhos poderiam escolher que direção seguir. Pois bem: o mundo mudou, e a relação dos pais com seus filhos também. Hoje, não basta ensinar a respeito da vida. Os pais querem ensinar aos filhos como eles devem viver. De bússola dos filhos, os pais passaram a ser seu GPS.

Esse aparelho, que hoje tanta gente usa, não fornece apenas orientação; é principalmente um sistema de navegação que informa trajetos ponto a ponto. E mais: também mostra como sair de um trânsito pesado, por exemplo, e como evitar determinadas vias. O GPS resolve todos os problemas de quem transita pelas caóticas cidades em que vivemos.

Se você pensar bem, tem sido essa a atuação dos pais. Não há dúvida de que, para os filhos, a situação é bem confortável. Entretanto, há um problema.

Quando o sistema deixa de funcionar ou é desligado, deixa seu usuário completamente desorientado se ele não conhecer o local onde está e aonde quer ir. Talvez essa seja uma das causas da adolescência estendida: os jovens ficam andando em círculos e perdidos sem o GPS.

Texto: Rosely Sayão
Categoria:
Folha Equilíbrio

domingo, 20 de setembro de 2009

"8 Passos para a Criatividade"

Em qualquer profissão você pode lançar mão desses passos para se orientar quanto ao desempenho de um trabalho. Leia com atenção e veja se o mesmo pode te auxiliar.
...
Quer você esteja criando uma obra de arte original, uma nova peça musical, um software único, ou uma resposta de cura para uma doença, a criatividade requer um salto na conscientização. Se você estiver melhorando algo que já existe, isso é inovação.A criatividade traz para a existência algo que nunca esteve lá antes.
SOLUÇÃO SIMPLES: Há oito passos básicos para a resposta criativa. Torne-se consciente desses passos e use a resposta criativa sempre que você estiver enfrentando uma questão ou desafio em sua vida. Você tem poder criativo ilimitado que pode se usado para resolver qualquer problema que estiver enfrentando.
1. Resultado pretendido: tenha uma visão clara do que é que você quer que seja desenvolvido. Evite definir suas intenções em termos do que você não quer.
2. Juntar informações: Aprenda tudo o que está disponível sobre a questão que você está enfrentando. Reconheça que sua variação particular é única. Preste atenção para as sensações no seu corpo conforme você aprende o que os outros têm a dizer sobre o assunto.
3. Rearranjar e analisar as informações: Conforme você junta as informações, sua mente irá digerir o que você está aprendendo, formatando as informações em formas que sejam úteis para você. Procure pelos padrões.
4. Incubação: na incubação, você permite que sua percepção se estabeleça em um estado mais expandido de consciência por meio da meditação. Incubação é um estágio de entrega.
5. Percepção: A percepção resulta do rearranjo dos relacionamentos anteriores e significados em contextos completamente novos, que então permitem uma interpretação completamente nova.
6. Inspiração: quando você realmente vê as coisas sob uma nova luz, toda sua mente / corpo se torna energizada. Você sabe em sua mente que sua percepção é verdadeira e sente em seu corpo que a percepção está correta.
7. Implementação, integração e encarnação: Conforme você integra e implementa a visão em seu pensamento e comportamento, você a encarna em seu corpo. Torna-se parte de você, e como resultado você é uma nova pessoa.
8. Arquimedes, a resposta criativa arquetípica: Estabeleça condições que permitam a você experimentar um salto quântico criativo e você irá acessar a energia da vida que estava anteriormente indisponível.


Fonte:Traduzido de http://www.care2.com/greenliving/8-steps-to-creativity.html

sábado, 19 de setembro de 2009

"Siga o Amor"

Quando o amor acenar, siga-o ainda que por caminhos ásperos e íngremes.
E quando suas asas o envolverem, renda-se a ele ainda que a lâmina escondida sob suas asas possa feri-lo.
Pois, se o amor coroa, ele também o crucifica.
E quando ele falar a você, acredite no que ele dizia ainda que sua voz possa destroçar seus sonhos, assim como o vento norte devasta o jardim.
Se o ajuda a crescer, também o diminui.
Se o faz subir às alturas e acaricia seus ramos mais tenros que tremem ao sol,também o faz descer às raízes e abala sua ligação com a terra.
Como os feixes de trigo, ele o mantém íntegro.
Debulha-o até deixá-lo nu.Transforma-o, livrando-o de sua palha.
Tritura-o, até torná-lo branco.
Amassa-o, até deixá-lo macio e, então, submeta-o ao fogo para que se transforme em pão no banquete sagrado de Deus.
Todas essas coisas pode o amor fazer para que você conheça os segredos de seu coração e, com esse conhecimento,se torne um fragmento do coração da vida.
Khalil Gibran

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

"Aprendo porque amo"

Recordo a Adélia Prado: “Não quero faca nem queijo; quero é fome”. Se estou com fome e gosto de queijo, eu como queijo… Mas e se eu não gostar de queijo? Procuro outra coisa de que goste: banana, pão com manteiga, chocolate… Mas as coisas mudam de figura se minha namorada for mineira, gostar de queijo e for da opinião que gostar de queijo é uma questão de caráter. Aí, por amor à minha namorada, eu trato de aprender a gostar de queijo.

Lembro-me do filme “Assédio”, de Bernardo Bertolucci. A história se passa numa cidade do norte da Itália ou da Suíça. Um pianista vivia sozinho numa casa imensa que havia recebido como herança. Ele não conseguia cuidar da casa sozinho nem tinha dinheiro para pagar uma faxineira. Aí ele propôs uma troca: ofereceu moradia para quem se dispusesse a fazer os serviços de limpeza.

Apresentou-se uma jovem negra, recém-vinda da África, estudante de medicina. Linda! A jovem fazia medicina ocidental com a cabeça, mas o seu coração estava na música da sua terra, os atabaques, o ritmo, a dança. Enquanto varria e limpava, sofria ouvindo o pianista tocando uma música horrível: Bach, Brahms, Debussy… Aconteceu que o pianista se apaixonou por ela. Mas ela não quis saber de namoro. Achou que se tratava de assédio sexual e despachou o pianista falando sobre o horror da música que ele tocava.

O pobre pianista, humilhado, recolheu-se à sua desilusão, mas uma grande transformação aconteceu: ele começou a frequentar os lugares onde se tocava música africana. Até que aquela música diferente entrou no seu corpo e deslizou para os seus dedos. De repente, a jovem de vassoura na mão começou a ouvir uma música diferente, música que mexia com o seu corpo e suas memórias… E foi assim que se iniciou uma estória de amor atravessado: ele, por causa do seu amor pela jovem, aprendendo a amar uma música de que nunca gostara, e a jovem, por causa do seu amor pela música africana, aprendendo a amar o pianista que não amara. Sabedoria da psicanálise: frequentemente, a gente aprende a gostar de queijo por meio do amor pela namorada que gosta de queijo…

Isso me remete a uma inesquecível experiência infantil. Eu estava no primeiro ano do grupo. A professora era a dona Clotilde. Ela fazia o seguinte: sentava-se numa cadeira bem no meio da sala, num lugar onde todos a viam — acho que fazia de propósito, por maldade —, desabotoava a blusa até o estômago, enfiava a mão dentro dela e puxava para fora um seio lindo, liso, branco, aquele mamilo atrevido… E nós, meninos, de boca aberta… Mas isso durava não mais que cinco segundos, porque ela logo pegava o nenezinho e o punha para mamar. E lá ficávamos nós, sentindo coisas estranhas que não entendíamos: o corpo sabe coisas que a cabeça não sabe.
Terminada a aula, os meninos faziam fila junto à dona Clotilde, pedindo para carregar sua pasta. Quem recebia a pasta era um felizardo, invejado. Como diz o velho ditado, “quem não tem seio carrega pasta”… Mas tem mais: o pai da dona Clotilde era dono de um botequim onde se vendia um doce chamado “mata-fome”, de que nunca gostei. Mas eu comprava um mata-fome e ia para casa comendo o mata-fome bem devagarzinho… Poeticamente, trata-se de uma metonímia: o “mata-fome” era o seio da dona Clotilde…


Ridendo dicere severum: rindo, dizer as coisas sérias… Pois rindo estou dizendo que frequentemente se aprende uma coisa de que não se gosta por se gostar da pessoa que a ensina. E isso porque — lição da psicanálise e da poesia — o amor faz a magia de ligar coisas separadas, até mesmo contraditórias. Pois a gente não guarda e agrada uma coisa que pertenceu à pessoa amada? Mas a “coisa” não é a pessoa amada! “É sim!”, dizem poesia, psicanálise e magia: a “coisa” ficou contagiada com a aura da pessoa amada.

Minha avó guardava uns bichinhos que haviam pertencido a um filho que morrera. Guardo um peso de papel, de vidro, que pertenceu ao meu pai. E os apaixonados guardam uma peça de roupa da pessoa amada e a colocam sobre o travesseiro, ao dormir… Mesmo depois de ela ter morrido. É como se, por meio daquela “coisa” que não é a pessoa amada, fosse possível tocar e acariciar a pessoa amada, ausente.

Pois o mesmo mecanismo acontece na educação. Quando se admira um mestre, o coração dá ordens à inteligência para aprender as coisas que o mestre sabe. Saber o que ele sabe passa a ser uma forma de estar com ele. Aprendo porque amo, aprendo porque admiro. Sabendo o que ele sabe eu carrego a sua pasta, como o “mata-fome”, faço amor com ele.

Lamento dizer isso: tive poucos mestres que admirasse. Lembro-me de um que admiro até hoje, embora já se tenham passado mais de 50 anos: Leônidas Sobrinho Porto. Professor de literatura, nunca nos atormentou com informações sobre nomes e escolas literárias. Ele sabia que não aprenderíamos. Mas quando ele se punha a falar, era como se estivesse possuído. Falava com tal paixão sobre as grandes obras literárias que era impossível não ser contagiado. Eu o admirava porque nele brilhava a beleza da literatura, “queijo” de que eu não gostava. Ele me fez amar a literatura.

A dona Clotilde nos dá a lição de pedagogia: quem deseja o seio, mas não pode prová-lo, realiza o seu amor poeticamente, por metonímia: carrega a pasta e come “mata-fome”…
Rubem Alves, 65, é educador, psicanalista e escritor. Está escrevendo uma história pedagógica: Pinóquio às avessas, que conta a história de um menininho que nasceu de carne e osso e, ao receber o diploma da universidade, virou um boneco de pau.



Rubem Alves
Site - www.rubemalves.com.br

" Educação enferruja por falta de uso"


Existe uma coisa difícil de ser ensinada e que, talvez por isso, esteja cada vez mais rara: a elegância do comportamento.É um dom que vai muito além do uso correto dos talheres e que abrange bem mais do que dizer um simples obrigado diante de uma gentileza.


É a elegância que nos acompanha da primeira hora da manhã até a hora de dormir e que se manifesta nas situações mais prosaicas, quando não há festa alguma nem fotógrafos por perto.É uma elegância desobrigada.É possível detectá-la nas pessoas que elogiam mais do que criticam.Nas pessoas que escutam mais do que falam.


E quando falam, passam longe da fofoca, das pequenas maldades ampliadas no boca a boca.É possível detectá-la nas pessoas que não usam um tom superior de voz ao se dirigir a frentistas, por exemplo.Nas pessoas que evitam assuntos constrangedores porque não sentem prazer em humilhar os outros.


É possível detectá-la em pessoas pontuais.Elegante é quem demonstra interesse por assuntos que desconhece, é quem presenteia fora das datas festivas, é quem cumpre o que promete e, ao receber uma ligação, não recomenda à secretária que pergunte antes quem está falando e só depois manda dizer se está ou não está.Oferecer flores é sempre elegante.


É elegante não ficar espaçoso demais.É elegante você fazer algo por alguém, e este alguém jamais saber o que você teve que se arrebentar para o fazer… porém, é elegante reconhecer o esforço, a amizade e as qualidades dos outros.É elegante não mudar seu estilo apenas para se adaptar ao outro.É muito elegante não falar de dinheiro em bate-papos informais.


É elegante retribuir carinho e solidariedade.É elegante o silêncio, diante de uma rejeição…Sobrenome, jóias e nariz empinado não substituem a elegância do gesto.Não há livro que ensine alguém a ter uma visão generosa do mundo, a estar nele de uma forma não arrogante.É elegante a gentileza.Atitudes gentis falam mais que mil imagens…


Abrir a porta para alguém é muito elegante…Dar o lugar para alguém sentar… é muito elegante…Sorrir, sempre é muito elegante e faz um bem danado para a alma…Oferecer ajuda… é muito elegante…Olhar nos olhos, ao conversar é essencialmente elegante…


Pode-se tentar capturar esta delicadeza natural pela observação, mas tentar imitá-la é improdutivo.A saída é desenvolver em si mesmo a arte de conviver, que independe de status social:Se os amigos não merecem uma certa cordialidade, os desafetos é que não irão desfrutá-la.



Adaptação de texto extraído do Livro: “Educação enferruja por falta de uso” do pintor francês, Henri Toulouse Lautrec (1864-1901).


Blog: ensinantes do presente

Clean Up the World


FONTE : (ClicRBS, 16/09/2009)

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

O medo não pode ser um estilo de vida por Roberto Shinyashiki

Viver preocupado e inseguro não pode ser uma opção de vida.

Você já notou como o mundo está repleto de medo? As angústias estão mais presentes na vida das pessoas do que sua própria sombra. Muita gente vive em um estado de apreensão constante, como se viver fosse um peso a ser carregado a cada dia.

A insegurança é, provavelmente, a pior das doenças da humanidade. Não estou falando daquele medo saudável, que nos leva a ser cautelosos e a proteger a nós mesmos. Mas, sim, daquele medo irracional que muitas vezes fica tão grande que nos paralisa.

O medo de amar e não ser amado, intensificado por fantasias derrotistas, impede que você se lance à mais bela de todas as aventuras do ser humano: viver um grande amor.

O medo de não suportar as dificuldades à sua frente o impede de viver plenamente a vida.

O medo de não conseguir aquele emprego nos faz nervosos durante os testes e as entrevistas, pondo tudo a perder.

O medo de não fechar um negócio faz com que você nem ao menos marque a reunião com um cliente potencial.

O medo de viajar de avião faz com que você não consiga comprar a passagem aérea enquanto seus amigos vão se divertir.

A cara feia de uma amiga na hora do almoço logo se torna um exercício de tortura, pois você fica tentando imaginar o que a teria levado a se comportar daquela maneira. ("Será que teria a ver com algo que eu tenha feito?")

Quando o medo está presente no seu coração, você fecha todas as suas portas para o amor, pois a insegurança faz com que a solidão seja mais suportável do que ver um novo amor terminando.

Muitas pessoas vão para seus encontros afetivos com tanta apreensão que qualquer coisa em seu caminho se transforma em motivo para desistência. Tem gente que, quando sai com alguém com quem está envolvida, tem de escutar sua mente repetir muitas vezes: "Eu sei que não dará certo".

Um vendedor vai para uma reunião de negócios com a mente repetindo muitas vezes: "Eu sei que não dará certo".

Um estudante vai para a prova com uma voz interior dizendo: "Eu sei que não dará certo".

E adivinha o que acontece: acaba não dando certo mesmo!

O medo, aquela emoção natural de cuidado, de proteção, de atenção com o que pode apresentar riscos reais, atualmente está se transformando em uma paranoia sem limites.

O medo da violência nas ruas transforma-se em assombrações grandiosas, e as pessoas portam-se como crianças assustadas. Já não distinguem a realidade da fantasia e tudo as assusta. Muitos adultos passam a ter medo de coisas tão imaginárias quanto o bicho-papão. São adultos agindo como crianças indefesas, apavorando-se em plena luz do dia, pensando que seus medos são verdadeiros.

Muitas vezes, vejo terapeutas atuando com o objetivo de tranquilizar adultos que agem como crianças com medo do escuro. Vejo adultos pedindo ajuda a esses profissionais para adquirir coragem de ir à festa da empresa porque têm medo de que algo dê errado.

Para muitas pessoas, o medo atua como um microscópio que amplifica as dificuldades e que, muitas vezes, distorce um acontecimento simples, dando-lhe o aspecto de uma desgraça de enormes proporções.

Um homem inseguro é capaz de imaginar a esposa fiel como a pior das adúlteras.

Um chefe assustado pode interpretar o interesse do funcionário em participar de um congresso como um sinal de que ele está procurando outro emprego - ou até mesmo de que queira tomar o seu lugar. Resumindo: o medo faz com que interpretemos fatos simples como se fossem inimigos monumentais.

Viver inseguro tornou-se um estilo de vida. Mas isso não tem necessariamente de acontecer.


Fonte: uol.com.br