terça-feira, 13 de outubro de 2009

A linguagem na infância


Falar bilu- bilu, falar parecendo bobo, como se dependesse disso, o entendimento da criança provoca uma reação contrária ao que se quer e diria: indesejável. A mania que tem os adultos e até mesmo os pais de falar com voz infantilizada ou com tom diferente prejudica o aprendizado e o desenvolvimento da fala na criança.
Os pais não devem falar nem fácil, nem difícil, quando nos referimos ao vocabulário, mas naturalmente para que a criança adquira tons e palavras corretas no desenvolvimento do próprio vocabulário.
Algumas crianças usam o mesmo som ou uma única palavra para coisas diferentes. Isso acontece por que o processo de aquisição da fala é gradativo. È importante saber que a criança aprende alguns fonemas com mais facilidade que outros. Aos três anos, a aquisição desses fonemas ainda está em desenvolvimento.
Portanto, é comum que ela ainda não fale todas as palavras corretamente. Durante a aquisição da linguagem e da fala, alguns problemas podem ocorrer, como por exemplo: atraso para a emissão de algumas palavras, troca de fonemas, omissão de fonemas, acréscimo de fonemas, “gagueira”, entre outros.
Em relação à gagueira e a fala rápida que as pessoas não entendem, isso pode ocorrer pela ansiedade da criança em se comunicar e não conseguir se expressar com a mesma velocidade em que pensa.
Cada criança deve ser avaliada a partir do seu contexto e das suas possibilidades. O profissional capacitado para fazer essa avaliação é o fonoaudiólogo. Ele saberá avaliar se esse processo está se desenvolvendo normalmente. Se necessário esse profissional estará encaminhando a criança para outras avaliações, como por exemplo, a avaliação audiológica ou até mesmo para um psicopedagogo, onde fará uma avaliação para ver o tipo de modalidade de aprendizagem que esta criança construiu.
O fonoaudiólogo ainda poderá orientar os pais a melhor forma de estimular a criança.
Aqui vão algumas orientações básicas:
- Não usar palavras no diminutivo quando estiver conversando com a criança.
- Se a criança falar alguma palavra errada, não repita essa palavra da forma como ela falou, mas da forma correta.
- Não se deve corrigir, brigar ou ridicularizar a criança quando fala alguma palavra errada. O melhor é repetir a palavra da maneira correta e fazer isso, de preferência, olhando para a criança de forma natural.
- Deve-se conversar com a criança nos momentos em que ela está prestando atenção, contar histórias, repetir frases simples.
- É importante também partilhar o assunto com as pessoas da casa ou com as pessoas que passam a maior parte do tempo com a criança. Todas devem ter a mesma atitude com a criança.
- Finalmente, lembrar que a estimulação e a atenção à criança são fundamentais para a aquisição da linguagem.

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Tempo de delicadeza



Quando eu era criança amava brincar na rua. Brinquei muito de pique esconde. Brinquei de roda, de soltar pipa, de comidinha e muitas outras coisas. Naquela época já havia certa preocupação em brincar na rua, mas com certeza ainda era tranqüilo. Eu me lembro do primeiro fogãozinho que ganhei. Era lindo! Brinquei tanto de fazer comidinha, que até hoje à culinária me fascina.
Mas houve um tempo em que tive que lutar muito. Nasci e tive que batalhar para viver. Lutei tanto que acredito que hoje a minha luta é pequena, os maiores desafios eu superei até um ano de vida.
Fui privilegiada, tive minhas irmãs ao meu lado o tempo todo. Para elas eu era uma boneca, afinal eu era tão pequena que cabia na palma da mão de minha irmã.
Fui batizada após ter alcançado o peso ideal, isso já com um ano e foi quando tirei a minha primeira foto. Na verdade esse dia foi celebrado em dobro, esse foi o meu real nascimento. A felicidade era total. Eu que nasci e fui colocada em uma caixa de sapato, cheia de algodão e com uma garrafa de água quente do lado para me aquecer, logo, logo, esperneei por um espaço maior.
Nasci em um dia onde se celebra o nascimento do menino Jesus, o Mestre dos mestres, imagina compartilhar essa data com os amigos e os inúmeros parentes. Era uma grande festa! A casa ficava quase que intransitável, de tanta gente se abraçando, pois era um momento onde todos podiam se reencontrar depois de um longo tempo sem se ver.
Falar de infância não é algo tão fácil assim. O esforço de ser fiel a um tempo que ficou para trás não é fácil.
O que me faz saber que estou sendo fiel ao que vivi, são as lembranças que ora me vêem a mente e os relatos amorosos que minha irmã conta com muito carinho e até com muita vaidade.
Tenho sonhado com bons momentos que vivi. Os amigos de infância são os amigos de rua também. Não havia distinção. Na verdade amigo era amigo. Não importava se era negro, pobre, rico, se gostava de batata frita ou não, eles eram presenças constantes.
O tempo passa e o que trazemos dessa época com certeza se traduz na pessoa que sou hoje. Acredito que amor de mãe acontece muito antes do nascimento e perdura para sempre com gestos e atitudes.
A responsabilidade que dividimos com a família, com os jovens e adultos que convivo diariamente, nos ajudam a reviver essas lembranças, que querendo ou não fazem parte de sua história de vida e que é única.
E eu sou única, na medida em que fiz as minhas escolhas e hoje traço os caminhos que percorri. Tenho família e junto dela passo os melhores momentos. Ainda não sou avó, mas acredito que em breve serei e com certeza começo um novo ciclo. Ciclo este que se renova a cada instante, pois a vida é um eterno desafio, onde não deve faltar: o amor, gestos delicados, dia de sol, natal, aniversários e chocolate! Ah! E o meu Amor...

sábado, 10 de outubro de 2009

A adoção de crianças

Num mundo onde o ato de ser criança, deixou de ser uma fase da infância dando lugar ao mundo precoce do trabalho e tem sido um momento onde o brincar tormou-se um privilégio de alguns, vejo o ato de adoção o mais generoso gesto, quando se pensa em ser solidário. Por isso, nesse mês ao qual comemoramos o dia das crianças, trago este assunto para que juntos possamos lembrar à todos que este é um meio digno de auto-ajuda e de ajuda ao próximo. Não solicito só atenção e nem piedade, solicito reflexão sobre um assunto que deveria ser dado pelos meios de comunicação mais prioridade, sendo aberto um canal de discussão constante que é: A Adoção de crianças independente do gênero, cor , raça ou idade.
Para o promotor de Justiça aposentado e especialista em adoção Wilson Donizeti Liberati, os pais precisam ficar atentos e pensar bem no porquê querem adotar.

“A criança tem o direito a uma família, não são os pais que têm direito a filhos. Uma adoção não vai resolver a situação de um casal com problemas conjugais, por exemplo”, afirma.

Quem quer adotar precisa saber que vai ter que passar e ser aprovado por uma série de análises de especialistas da Vara da Infância. Algumas pessoas têm uma dificuldade muito grande para serem avaliadas. Elas acham que o simples fato de quererem ser pais é suficiente, não aceitam as avaliações.

Se você pensou bem e está preparado, confira agora o que acontece em um processo normal de adoção:


Quem pode adotar: - Qualquer pessoa maior de 18 anos independente de seu estado civil. Os pais adotivos precisam ser no mínimo 16 anos mais velhos que o adotado.
10 passos para adotar:

1) O primeiro passo é procurar a Vara de Infância e Juventude mais perto de sua casa e entrar com um pedido de adoção. “Não é preciso advogado e é tudo de graça”, afirma o juiz Torres de Carvalho.

2) Após a entrada do pedido, você será encaminhado para o setor técnico da Vara, onde assistirá palestras de orientação sobre a documentação e os cuidados necessários.

3) Os futuros pais considerados aptos são encaminhados para entrevistas com psicólogos e assistentes sociais. Os considerados não-preparados recebem o contato de grupos de apoio para pretendentes à adoção.

4) Nas entrevistas, os pais são avaliados. Nessa fase, a casa dos adotantes também deve ser visitada por assistentes sociais.

5) O setor elabora um parecer técnico sobre as condições da futura família, que vai ao Ministério Público. O Ministério Público analisa o caso e faz o seu próprio parecer. O processo todo é encaminhado ao juiz da Vara.

6) O juiz decide se os pais estão habilitados para a adoção. Se estiverem, seu registro vai para o Cadastro Nacional de Adoção. Se não estiverem, eles podem recorrer à decisão.

7) Depois dos pais estarem devidamente cadastrados, o juiz vai ver quais crianças ele tem disponível para adoção que correspondem ao perfil especificado. “O principal cuidado é encontrar uma família que seja adequada à criança”, afirma Carvalho. Quanto menos exigências o casal fizer, mais rápida é essa fase.

8) Se os pais concordam com a sugestão do juiz, começa a fase de “aproximação”. A criança começa a ser preparada no abrigo para conhecer a família. A família são informados sobre a história da criança.

9) Os pais conhecem a criança gradativamente. Primeiro, vêem de longe. Depois, conhecem dentro de um grupo. Após algumas visitas, levam a criança para passear. Mais tarde, para dormir na casa da família. Assistentes sociais e psicólogos acompanham o processo.

10) Se tudo der certo, os pais recebem a guarda da criança por um "período de convivência”. A Vara e o abrigo acompanham tudo. Quando a nova família for considerada “estável”, a adoção é formalizada e a criança é considerada filha, com todos os direitos de um filho biológico. De acordo com o juiz, é impossível precisar o tempo que o processo leva. “Varia de casal para casal, de caso para caso”, afirma.

"A maioria quer uma criança de até três anos, branca, sem irmãos. Isso já elimina 90% do meu cadastro” "

“Mesmo entre as pessoas que têm um perfil mais aberto é difícil. Há casos de pais para quem não importa o sexo da criança, nem a idade, nem a cor e ainda assim eles têm que esperar por que geralmente ninguém quer uma criança com um histórico de violência”, afirma ele. “As crianças que vão para adoção não fizeram pré-Natal no Einstein. São crianças que foram abandonadas e estão traumatizadas.”
Para Liberati, os pais adotivos precisam estar preparados por que sua missão é “resolver o problema da criança”. “Essa criança provavelmente veio de um ambiente difícil. O trabalho dos pais será consertar isso. Não é fácil”, afirma.


Adoção dirigida

O juiz Reinaldo Cintra Torres de Carvalho explica também que é crime de falsidade ideológica “adotar” uma criança simplesmente a registrando como se fosse sua. “Essa é uma prática que diminuiu muito devido às medidas tomadas para inibir o registro fora das maternidades, mas ainda existe. É bom lembrar que isso é crime”, afirma.
Adotar uma criança já conhecida é possível, mas precisa obedecer algumas regras. A chamada “adoção dirigida” só é permitida pelo juiz caso seja comprovado um “vínculo afetivo” entre os pais biológicos e os potenciais pais adotivos. “Por exemplo, se for um parente, um padrinho ou um amigo comprovadamente de muitos anos”, afirma.
Entrega para adoção

Quem quer entregar uma criança para adoção, por qualquer motivo, também deve procurar a Vara da Infância. “Quem não tem condições ou não quer, por qualquer motivo, criar uma criança não só pode, como deve, procurar a Vara. Lá, essa mãe vai receber todo o apoio necessário. A Vara vai tentar ajudar a situação para que a família permaneça unida, mas se isso não for possível, vai receber a criança da melhor maneira possível”, explica.

Fonte:www.o globo.com.br


" Onde você coloca o sal"

Esse texto recebi de um grande amigo. Compartilho com vocês.
***
O velho monge pediu a um jovem triste que colocasse uma mão cheia de sal em um copo d'água e bebesse.
- Qual é o gosto? - perguntou o Mestre.
- Ruim - disse o aprendiz.
O monge sorriu e pediu ao jovem que pegasse outra mão cheia de sal e levasse a um lago.
Os dois caminharam em silêncio e o jovem jogou o sal no lago.
Então o velho disse:- Beba um pouco dessa água.
Enquanto a água escorria do queixo do jovem o Mestre perguntou:- Qual é o gosto?'
- Normal! disse o rapaz.
- Você sente o gosto do sal? perguntou o Mestre.
- Não... - disse o jovem.
O monge então sentou ao lado do jovem, pegou em suas mãos e disse:- A dor na vida de uma pessoa não muda, mas o sabor da dor depende de onde a colocamos.
Quando você sentir dor, a única coisa que você deve fazer é aumentar o sentido de tudo o que está a sua volta.
É dar mais valor ao que você tem do que ao que você perdeu.
Em outras palavras: É deixar de Ser copo para tornar-se um Lago.
(Pensamento Zen-Budista)

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Uma visita ao Blog “Administrando Pessoas”

Olha, acabei de ver um vídeo- “ Love for all”- da famosa marca Bjorn Borg, no blog Administrando Pessoas, que desafia a qualquer mentalidade. Para mim foi uma surpresa o final deste.
Não esperava uma atitude tão aberta e desafiadora. Bem, não vivo na Califórnia, vivo em uma cidade pequena, metida à cidade grande e ainda muito provinciana.
O desafio é lançado com originalidade, com certeza haverá muitas opiniões controversas, mas haverá também opiniões favoráveis. Não tenho conhecimento suficiente para ter uma orientação técnica sobre o assunto, isto é, será se o universo da ciência tem algo revelador para nos dizer a respeito do homossexualismo? A única coisa que tenho é o que sinto, percebo e vejo no meu pequeno mundo.
Sou contra o aborto. Sou contra a discriminação sexual. Sou contra o racismo. Sou contra a discriminação de gênero, cor e raça. Sou contra o uso de animais em laboratórios. Sou contra a injustiça. Sou contra a tourada e contra a qualquer ato desumano com os animais.
Sou preconceituosa, porque fui criada dessa forma. Mas luto todos os dias para vencer essa barreira. Sou conservadora, sou romântica, tenho opinião, sou centralizadora, sou favorável à união e sou principalmente família. E não sou hipócrita!
A nossa sociedade adora uma hipocrisia. Adora sorrir e fazer média. Adora ser deslumbrada!
Vejo o universo de forma a reconhecer que ele é muito maior do que a minha possibilidade de julgamento. Vejo que o homem cresce em busca de respostas. Mas não cresce tanto quanto deveria quando se restringe ao seu universo para julgar o “comportamento” do outro. Isso é perda de tempo.
Você já parou para pensar que o seu último desejo antes de morrer, será realizado por outra pessoa e que na verdade você não irá desfrutá-lo?
Você já parou para pensar que de repente, esse desejo represente tudo aquilo que você queria, mas não teve “peito” para assumir?
Eu tenho pensado sobre isso... Quantas pessoas detestam o seu trabalho e não saem por medo.
Quantas pessoas que só querem ter uma família, o seu projeto de vida é este, e não se realizam porque a sociedade te convence o tempo todo que o melhor indivíduo é aquele que se encontra no mercado de trabalho e de preferência no topo. “Essa afirmação “me fez lembrar tal programa chamado” O APRENDIZ”. Pior que o modelo deste é o apresentador ( esse é o tipo de perda de tempo nada recomendável e nada eficaz!) Eu fico a imaginar como uma pessoa inteligente (bem todos nós somos inteligentes!), pode se oferecer para tanto. Este é de uma arrogância e prepotência, que mesmo sendo de fachada me incomoda.
Bem, alguns dirão, então este cumpriu o seu papel. Não acredito! Ali há uma enorme exposição de ego, que só não é maior que os comerciais dos intervalos, porque não podem ser.
Eu sou avessa a comerciais. A maioria dele deveria ser banida. Para mim este é um meio promissor à apatia, a intolerância e ao desrespeito ao ser humano. Vende-se o tempo todo gato por lebre.
O meu universo ainda é poético. Preciso de livros. Necessito sempre com urgência da escrita para dizer o quanto posso ser melhor e de preferência estudando, criando e trabalhando. Fico satisfeita quando ouço um noticiário e fico sabendo que alguém descobriu a cura de uma doença grave e ou escreveu um novo livro. Como isso me faz feliz!
A vida é assim. Você vive por ela e com ela, criando, reinventando, fazendo e desfazendo os equívocos a todo tempo. Não existe a pergunta respondida, que não mereça ser revisitada. Nada é definitivo!
Tenho certeza que se fosse pra existir algo “definitivo”, este seria o homem, como não é...
Coloque-se sempre no presente. Coloque amor e originalidade em tudo. Se for possível, pense grande, mas com responsabilidade. Sonhe, sonhe muito... Não há nada melhor do que acreditar em si mesmo. Ame, ame muito, pois só assim a sua vida terá valido a pena. E nunca desista! Amanhã é um novo dia e tudo se renova.

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

" Eu carrego você comigo"...(Poema de E.E. Cummings)




Carrego seu coração comigo

Eu carrego no meu coração

Nunca estou sem ele

Onde quer que vá, você vai comigo

E o que quer que faça

Eu faço por você

Não temo meu destino

Você é meu destino meu doce

Eu não quero o mundo por mais belo que seja

Você é meu mundo, minha verdade.

Eis o grande segredo que ninguém sabe.

Aqui está a raiz da raiz

O broto do broto e o céu do céu

De uma árvore chamada VIDA

Que cresce mais que a alma pode esperar ou a mente pode esconder

E esse é o pródigo que mantém as estrelas á distancia

Eu carrego seu coração comigo

Eu o carrego no meu coração.



(Poema de E.E. Cummings)

" O Lixo" - Luis Fernando Veríssimo

Sou apreciadora das crônicas de Luis Fernando Veríssimo, eu as leio sempre com um sorriso no rosto, mesmo antes de começar. Na verdade já sei que tenho que me preparar para dar umas boas gargalhadas. Costumo acompanhá-las através de algumas idas e vindas pela NET e tenho alguns livros que reúnem diversas crônicas e histórias que satirizam o cotidiano. Julgo que o humor é uma forma sublime de entendimento.
Este texto nos faz refletir sobre o nosso lixo... Principalmente o lixo interior, que insistentemente lidamos no dia a dia, com o nosso e os dos outros. Quanto lixo carregamos sem necessidade, penso eu... Mas ainda há tempo para refletirmos. Então, compartilho com vocês essa crônica.
Texto retirado do livro: "O analista de Bagé".


O Lixo

Encontram-se na área de serviço. Cada um com seu pacote de lixo. É a primeira vez que se falam.
- Bom dia...
- Bom dia.
- A senhora é do 610.
- E o senhor do 612
- É.
- Eu ainda não lhe conhecia pessoalmente...
- Pois é...
- Desculpe a minha indiscrição, mas tenho visto o seu lixo...
- O meu quê?
- O seu lixo.
- Ah...
- Reparei que nunca é muito. Sua família deve ser pequena...
- Na verdade sou só eu.
- Mmmm. Notei também que o senhor usa muito comida em lata.
- É que eu tenho que fazer minha própria comida. E como não sei cozinhar...
- Entendo.
- A senhora também...
- Me chame de você.
- Você também perdoe a minha indiscrição, mas tenho visto alguns restos de comida em seu lixo. Champignons, coisas assim...
- É que eu gosto muito de cozinhar. Fazer pratos diferentes. Mas, como moro sozinha, às vezes sobra...
- A senhora... Você não tem família?
- Tenho, mas não aqui.
- No Espírito Santo.
- Como é que você sabe?
- Vejo uns envelopes no seu lixo. Do Espírito Santo.
- É. Mamãe escreve todas as semanas.
- Ela é professora?
- Isso é incrível! Como foi que você adivinhou?
- Pela letra no envelope. Achei que era letra de professora.
- O senhor não recebe muitas cartas. A julgar pelo seu lixo.
- Pois é...
- No outro dia tinha um envelope de telegrama amassado.
- É.- Más notícias?
- Meu pai. Morreu.
- Sinto muito.
- Ele já estava bem velhinho. Lá no Sul. Há tempos não nos víamos.
- Foi por isso que você recomeçou a fumar?
- Como é que você sabe?
- De um dia para o outro começaram a aparecer carteiras de cigarro amassadas no seu lixo.
- É verdade. Mas consegui parar outra vez.
- Eu, graças a Deus, nunca fumei.
- Eu sei. Mas tenho visto uns vidrinhos de comprimido no seu lixo...
- Tranqüilizantes. Foi uma fase. Já passou.
- Você brigou com o namorado, certo?
- Isso você também descobriu no lixo?
- Primeiro o buquê de flores, com o cartãozinho, jogado fora. Depois, muito lenço de papel.
- É, chorei bastante, mas já passou.
- Mas hoje ainda tem uns lencinhos...
- É que eu estou com um pouco de coriza.
- Ah.- Vejo muita revista de palavras cruzadas no seu lixo.
- É. Sim. Bem. Eu fico muito em casa. Não saio muito. Sabe como é.
- Namorada?
- Não.
- Mas há uns dias tinha uma fotografia de mulher no seu lixo. Até bonitinha.
- Eu estava limpando umas gavetas. Coisa antiga.
- Você não rasgou a fotografia. Isso significa que, no fundo, você quer que ela volte.
- Você já está analisando o meu lixo!
- Não posso negar que o seu lixo me interessou.
- Engraçado. Quando examinei o seu lixo, decidi que gostaria de conhecê-la. Acho que foi a poesia.
- Não! Você viu meus poemas?
- Vi e gostei muito.
- Mas são muito ruins!
- Se você achasse eles ruins mesmo, teria rasgado. Eles só estavam dobrados.
- Se eu soubesse que você ia ler...
- Só não fiquei com eles porque, afinal, estaria roubando. Se bem que, não sei: o lixo da pessoa ainda é propriedade dela?
- Acho que não. Lixo é domínio público.
- Você tem razão. Através do lixo, o particular se torna público. O que sobra da nossa vida privada se integra com a sobra dos outros. O lixo é comunitário. É a nossa parte mais social. Será isso?
- Bom, aí você já está indo fundo demais no lixo. Acho que...
- Ontem, no seu lixo...
- O quê?
- Me enganei, ou eram cascas de camarão?
- Acertou. Comprei uns camarões graúdos e descasquei.
- Eu adoro camarão.
- Descasquei, mas ainda não comi. Quem sabe a gente pode...
- Jantar juntos?
- É.
- Não quero dar trabalho.
- Trabalho nenhum.
- Vai sujar a sua cozinha?
- Nada. Num instante se limpa tudo e põe os restos fora.
- No seu lixo ou no meu?


Fonte: http://portalliteral.terra.com.br

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

" Enquanto houver um adulto lendo, haverá uma criança para imitá-lo"









Ela ocupa a cadeira de número 1 da Academia Brasileira de Letras, já vendeu 18 milhões de exemplares de seus livros e arrebatou inúmeros prêmios literários nacionais e internacionais. Compartilha o sobrenome com o ilustre Machado de Assis, mas rejeita a comparação simplista – “Maria Clara Machado é mais conhecida das crianças do que ele”.
Aos 68 anos de idade, 40 dos quais como escritora, Ana Maria Machado tornou-se um dos grandes nomes da literatura brasileira, mesmo que, quase sempre, escrevendo para pequenos leitores.

A carreira da escritora de “Bisa Bia, bisa Bel” em um bate-papo na XIV Bienal do Livro Rio com Ruth Rocha, outro ícone da literatura infantil no país que também comemora as suas quatro décadas de trabalho. Após o debate, Ana Maria irá autografar cópias da segunda edição de seu “Palavras, palavrinhas e palavrões”, no estande da editora FTD.

Presença indispensável nas bibliotecas escolares e listas de favoritos de leitores-mirins pelo menos desde a década de 1980, Ana Maria não é lembrada com a mesma intensidade nas páginas de resenhas de jornais e internet quanto poderia, mas tampouco se intimida com isso.

“Em todas as bienais, por exemplo, e grandes feiras de livros, o volume de vendas do setor supera (em muito) as vendas de livros para adultos. As tiragens médias de infantis são sempre mais altas do que as de adultos — e a vida editorial dos livros (seu tempo de permanência nos catálogos das editoras, sendo reimpressos e vendidos ou ganhando novas ilustrações e capas após alguns anos) também. Conseguir esse feito com muito menos espaço na imprensa só confirma o vigor do segmento e sua independência em relação à percepção ‘oficial’ adulta”, defende a escritora.

E, como uma boa professora de português, aproveita para puxar a orelha do jornalista: “O Brasil conhece seus autores de literatura infantil. Quem não os conhece são os chamados ‘formadores de opinião’. Um fenômeno interessante, capaz de fazer pensar no que aconteceria com ‘este país’ se ele fosse ajudado por quem tem poder para incentivá-lo”.

Em tempos de MSN, videogames e TVs a cabo, a escritora não engrossa o coro dos que acham que os livros são pobres-coitadinhos no embate com as novas tecnologias. A briga não é de hoje, lembra. Antes, “havia quintais (com árvore, cachorro etc.), brincadeiras na calçada, turmas de rua, todos a atrair a atenção das crianças”. E completa: “O mundo é mesmo muito atraente, para todas as idades. A literatura faz parte dele, é apenas um de seus encantos. Pode ser que os livros percam a disputa e daqui a pouco desapareçam. Pessoalmente, creio que é até mais provável que isso aconteça antes para os adultos e só depois para as crianças, a julgar pelas tendências do setor. E porque enquanto houver um adulto lendo, será um exemplo para a criança que o ama e o deseja imitar como modelo”.

Vão-se os livros, ficam as palavras.

Há pelo menos duas décadas, depois de abandonar o jornalismo e as aulas em colégios e universidades, Ana Maria vive dos livros – tem mais de 200 publicados, entre histórias infantis e adultas e traduções -, mas reforça que, no caso de um eventual desaparecimento dos impressos em papel, sobrarão certamente as palavras. “Há 2.800 anos, lá na Grécia, quando ainda nem se tinha inventado a escrita, Homero ou outros poetas cantavam e contavam ‘A Ilíada’ e a ‘Odisseia’ ao som da lira em palácios de pedra ou em praças diante de templos de mármore deslumbrantes.
Pouco depois, as tragédias de Sófocles, Ésquilo ou Eurípides eram representadas em anfiteatros ao ar livre, construídos para durar. Hoje, toda essa solidez de pedra se desmanchou e só restam ruínas. Mas as palavras continuaram, ainda que seus suportes fossem frágeis tripas de carneiro num instrumento musical, ou vozes de atores se perdendo no ar. Tenho certeza de que, no fim disso que você chama de ‘a disputa pela atenção’ a palavra tem seu lugar inexpugnável”, profetiza.

É por isso que ela acha “válido” – e não temerosas – iniciativas como as da Floresta de Livros da Bienal do Rio e do Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo, que usam recursos de áudio, vídeo e computação para tornar a literatura atraente para o público infantil. “As histórias podem ser contadas de várias maneiras. ‘Troia’ pode ser um filme com Brad Pitt. Ou um jogo de videogame. Ou um desfile de escola de samba, como as referências a ela que o Império Serrano fez ao contar a história de Zumbi dos Palmares. São coisas diferentes, ligadas a emoções distintas e produzem formas diversas de transmissão de conhecimentos. Quem se contentar com a mais pobre delas, tem o direito de escolher ficar só com ela. Ninguém precisa lhe enfiar livros pela goela abaixo.”

Fonte: Entrevista da escritora Ana Maria Machado A ruth Rocha na Bienal- " O Globo Notícias".


terça-feira, 29 de setembro de 2009

"Privacidade encarada"- Rosely Sayão




A frase "criança precisa de limites" escorre pela boca de muita gente. Tenha você filhos ou não, conviva com crianças ou viva bem longe delas, certamente já ouviu alguém pronunciá-la com ar de sabedoria ou teve vontade de dizê-la. Espero que tenha se contido porque ela não significa boa coisa. Dita assim, parece que consideramos os limites algo importante para os mais novos, mas que, infelizmente, não tivemos como lhes oferecer.

Pois essa pode ser uma parte da nossa realidade. Consideremos, por exemplo, a fronteira -o limite!- entre o público e o privado, entre o que é da ordem da intimidade e o que pode ser partilhado no convívio social. No mundo adulto, essa fronteira parece ter quase se dissipado e o modo como usamos o telefone celular evidencia isso.

Todo assunto é conversado na presença de qualquer pessoa e o tom de nossa voz não demonstra que queremos deixar nossos assuntos protegidos de estranhos. Brigas com cônjuges, comentários sobre um amigo, nossos percalços financeiros, tudo é tratado no trabalho, no restaurante, no bar. Além disso, não há distinção entre vida profissional e pessoal, já que ambas estão sempre se atravessando: fala-se com os filhos no trabalho, trata-se de trabalho no convívio familiar.

Pois bem: as crianças têm reproduzido muito bem essa falta de limites. Na escola, que é onde começam a aprender a viver a vida pública, consideram amigos os colegas com quem mais têm afinidade -sempre temporária, é bom lembrar. E toda sorte do que consideram segredo de suas vidas compartilham com os mesmos. Fatos que acontecem com os pais, o que pensam e sentem, atos que cometeram, eles contam tudo.

Na primeira oportunidade, arrependem-se fortemente do que fizeram porque os segredos passam a ser usados como moedas de troca para pequenas chantagens, são divulgados em atos de represália, servem de motivo para chacotas etc. Mesmo assim, sozinhas, as crianças não conseguem aprender a distinguir colega de amigo, assunto íntimo de assunto social.

Outra evidência de que não sabem nem conseguem proteger sua intimidade de estranhos é quando usam a internet. Confiam rapidamente nas pessoas com quem conversam, publicam experiências muito pessoais na ingênua crença de que apenas quem eles conhecem e querem bem terão acesso, distribuem comentários que deveriam ser feitos a poucos, escrevem seu diário, expõem-se.

Em geral, quando a criança usa a internet, sente-se segura e protegida porque está em sua casa, e isso ajuda a perder a noção de que um pequeno artefato tecnológico a conecta ao mundo todo. Assim, ela constrói a ilusão de que nada do que escreve ou nenhuma imagem que publica será acessada por quem não gosta ou mesmo para ser usada contra ela. Muitas já sofreram experiências dolorosas e pouco aprenderam. É principalmente por isso que as crianças precisam de tutela adulta quando usam a rede.

Se queremos que os mais novos tenham uma vida melhor do que a nossa, precisamos lhes ensinar que é possível e desejável construir uma intimidade e que amigos temos poucos, enquanto os colegas são muitos.


Fonte: Blog Rosely Sayão

" A Mulher Madura"- Affonso Romano de Sant'Ana


O rosto da mulher madura entrou na moldura de meus olhos.De repente, a surpreendo num banco olhando de soslaio, aguardando sua vez no balcão. Outras vezes ela passa por mim na rua entre os camelôs.
Vezes outras a entrevejo no espelho de uma joalheria. A mulher madura, com seu rosto denso esculpido como o de uma atriz grega, tem qualquer coisa de Melina Mercouri ou de Anouke Aimé.Há uma serenidade nos seus gestos, longe dos desperdícios da adolescência, quando se esbanjam pernas, braços e bocas ruidosamente.
A adolescente não sabe ainda os limites de seu corpo e vai florescendo estabanada. É como um nadador principiante, faz muito barulho, joga muita água para os lados.
Enfim, desborda.A mulher madura nada no tempo e flui com a serenidade de um peixe. O silêncio em torno de seus gestos tem algo do repouso da garça sobre o lago. Seu olhar sobre os objetos não é de gula ou de concupiscência.
Seus olhos não violam as coisas, mas as envolvem ternamente. Sabem a distância entre seu corpo e o mundo.A mulher madura é assim: tem algo de orquídea que brota exclusiva de um tronco, inteira.
Não é um canteiro de margaridas jovens tagarelando nas manhãs.A adolescente, com o brilho de seus cabelos, com essa irradiação que vem dos dentes e dos olhos, nos extasia. Mas a mulher madura tem um som de adágio em suas formas. E até no gozo ela soa com a profundidade de um violoncelo e a sutileza de um oboé sobre a campina do leito.
A boca da mulher madura tem uma indizível sabedoria. Ela chorou na madrugada e abriu-se em opaco espanto. Ela conheceu a traição e ela mesma saiu sozinha para se deixar invadir pela dimensão de outros corpos. Por isto as suas mãos são líricas no drama e repõem no seu corpo um aprendizado da macia paina de setembro e abril.
O corpo da mulher madura é um corpo que já tem história. Inscrições se fizeram em sua superfície. Seu corpo não é como na adolescência uma pura e agreste possibilidade. Ela conhece seus mecanismos, apalpa suas mensagens, decodifica as ameaças numa intimidade respeitosa.
Sei que falo de uma certa mulher madura localizada numa classe social, e os mais politizados têm que ter condescendência e me entender. A maturidade também vem à mulher pobre, mas vem com tal violência que o verde se perverte e sobre os casebres e corpos tudo se reveste de uma marrom tristeza.
Na verdade, talvez a mulher madura não se saiba assim inteira ante seu olho interior. Talvez a sua aura se inscreva melhor no olho exterior, que a maturidade é também algo que o outro nos confere, complementarmente. Maturidade é essa coisa dupla: um jogo de espelhos revelador.
Cada idade tem seu esplendor. É um equívoco pensá-lo apenas como um relâmpago de juventude, um brilho de raquetes e pernas sobre as praias do tempo. Cada idade tem seu brilho e é preciso que cada um descubra o fulgor do próprio corpo.
A mulher madura está pronta para algo definitivo.Merece, por exemplo, sentar-se naquela praça de Siena à tarde acompanhando com o complacente olhar o vôo das andorinhas e as crianças a brincar. A mulher madura tem esse ar de que, enfim, está pronta para ir à Grécia. Descolou-se da superfície das coisas. Merece profundidades.
Por isto, pode-se dizer que a mulher madura não ostenta jóias. As jóias brotaram de seu tronco, incorporaram-se naturalmente ao seu rosto, como se fossem prendas do tempo.A mulher madura é um ser luminoso é repousante às quatro horas da tarde, quando as sereias se banham e saem discretamente perfumadas com seus filhos pelos parques do dia. Pena que seu marido não note, perdido que está nos escritórios e mesquinhas ações nos múltiplos mercados dos gestos.
Ele não sabe, mas deveria voltar para casa tão maduro quanto Yves Montand e Paul Newman, quando nos seus filmes.Sobretudo, o primeiro namorado ou o primeiro marido não sabem o que perderam em não esperá-la madurar. Ali está uma mulher madura, mais que nunca pronta para quem a souber amar.
Fonte: O texto acima foi extraído do livro "A Mulher Madura", Editora Rocco