quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Dando uma olhada em diferentes blogs encontrei na rede social DIHITT, essa campanha que acredito seja de interesse de todos nós.
Esta está sendo promovida pela Igreja Adventista do Sétimo Dia, intitulada “Quebrando o Silêncio", no qual defendem a quebra do silêncio em prol da denuncia de casos de abuso sexual e violência sexual contra crianças.
Este bolg é inspirado através da pessoa do Pastor Adolfino e seus companheiros de trabalho.
Acredito que esta que seja uma das formas de ajuda e que com certeza em muito contribuirá.
Infelizmente estamos diante de um problema sério e que pode ocorrer em qual ambiente e com qualquer pessoa, independente de sua classe social. O que percebo em meu trabalho é o aumento de crianças vítimas desses predadores. Os relatos são crescentes e muito pouco ainda é possível de se resolver, seja em apoio social, psicológico e moral. Por isso, destaco abaixo um documento onde explica de forma clara, o que seja esse transtorno , que hoje em dia é tão divulgado pela mídia.
Pedofilia é um transtorno parafílico, onde a pessoa apresenta fantasia e excitação sexual intensa com crianças pré-púberes, efetivando na prática tais urgências, com sentimentos de angústia e sofrimento.

O abusador tem no mínimo 16 anos de idade e é pelo menos 5 anos mais velho que a vítima.O abuso ocorre em todas as classes sociais, raças e níveis educacionais.A grande maioria de abusadores é de homens, mas suspeita-se que os casos de mães abusadoras sejam sub-diagnosticados.
Existem faixas etárias de abusadores:
jovens até 18 anos de idade, que aprendem sexo com suas vítimas adultos de 35 a 45 anos de idade que molestam seus filhos ou os de seus amigos ou vizinhos pessoas com mais de 55 anos de idade que sofreram algum estresse ou alguma perda por morte ou separação, ou mesmo com alguma doença que afete o Sistema Nervoso Central
e aqueles que não importa a idade, ou seja, aqueles que sempre foram abusadores por toda uma vida.
O sexo praticado com crianças geralmente é oro-genital, sendo menos freqüente o contato gênito-genital ou gênito-anal.As causas do abuso são variáveis. O molestador geralmente justifica seus atos, racionalizando que está ofertando oportunidades à criança de desenvolver-se no sexo, ser especial e saudável, inclusive praticando sexo com a permissão desta.
Pode envolver-se afetivamente e não ter qualquer noção de limites entre papéis ou de diferenças de idade.Quando ocorre dentro do seio familiar (o abusador é o pai ou padrasto, por exemplo), o processo é bastante complicado. Normalmente interna-se a criança para sua proteção, e toda uma equipe trabalha com o clareamento da situação.
Por vezes, a criança é também espancada e deve ser tratada fisicamente. A família se divide entre os que acusam o abusador e os que acusam a vítima, culpando esta última pela participação e provocação do abuso.
O tratamento, então, é inicialmente direcionado para a intervenção em crise.Depois, tanto a criança, quanto o abusador e a família devem ser tratados a longo prazo.Devido ao fato de abuso de menores ser um crime, o tratamento do abusador torna-se mais difícil.
As conseqüências emocionais para a criança são bastante graves, tornando-as inseguras, culpadas, deprimidas, com problemas sexuais e problemas nos relacionamentos íntimos na vida adulta.

Fonte: ABC da Saude


















" Se não puderes ser um pinheiro, no topo de uma colina,
Sê um arbusto no vale mas sê
O melhor arbusto à margem do regato.
Sê um ramo, se não puderes ser uma árvore.
Se não puderes ser um ramo, sê um pouco de relva
E dá alegria a algum caminho.

Se não puderes ser uma estrada,
Sê apenas uma senda,
Se não puderes ser o Sol, sê uma estrela.
Não é pelo tamanho que terás êxito ou fracasso...
Mas sê o melhor no que quer que sejas."


Pablo Neruda

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Se tiveres alguma dúvida, apenas seja você mesmo. Já é especial e único por si só...



segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Câmara aprova nova regulamentação para a profissão de pedagogo

Ao ler esta regulamentação para a profissão de Pedagogos, fico perplexa como alguém pode dizer que as mudanças foram poucas.
Entendo que a regulamentação da profissão de pedagogo venha perdendo o status há muito tempo e que o Estado já percebeu que em muito breve não haverá pessoas concluindo o curso de pedagogia. Assim, abre uma exceção para que os graduados de outra área,façam uma pós na área de pegagogia e concorra com o pessoal da área. Conclusão: Para se ter alguma habilitação recorre-se aos cursos de pós, que na verdade nada ensinam. Interessante como o Estado quando quer arranja solução pra tudo. Menos pagar o que deveria e que diz que paga.
Por experiência própria digo que tudo não passa de desvio de “função”, pois assim continua não pagando o que deveria.
Passei no concurso do Estado em 1995, em 1º lugar. Já possuía duas pós graduações. Hoje atuo como orientadora educacional e se quer sou reconhecida em minha função. O meu salário, ao qual irei me aposentar é de professor docente II. Que atualmente para 40h de serviço não passa de 1.500,00-( salário bruto) pode? E ainda querem pagar menos?
Sinto informá-los que em minha opinião muito em breve qualquer pessoa estará habilitada a ser pedagogo e aqueles que olharem a profissão com respeito e dignidade não estarão em sala de aula. É triste e sério, mas será o que irá acontecer!
Desculpem o desabafo!!!

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Câmara aprova nova regulamentação para a profissão de pedagogo- Da Redação em São Paulo
A Câmara aprovou nesta quarta-feira (19) a regulamentação da profissão de pedagogo.

O texto prevê que apenas quem tiver graduação em pedagogia poderá exercer a profissão. A medida passou na CCJ (Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania), em caráter conclusivo e deve seguir para análise do Senado, caso não haja recurso para votação em plenário. O texto diz ainda que quem tiver pós-graduação na área, porém, sem o curso de graduação, poderá exercer funções de administração, planejamento, inspeção, supervisão e orientação educacional na educação básica. O relator da matéria na CCJ, deputado Jefferson Campos (PTB-SP) afirma que "a profissão já está regulamentada" e que a proposta "apenas atualizou e complementou a regra vigente sobre essa matéria". O deputado referia-se a dispositivos da LDB (Lei de Diretrizes e Bases da Educação), especialmente ao que determina que "a formação de profissionais de educação para administração, planejamento, inspeção, supervisão e orientação educacional para a educação básica, será feita em cursos de graduação em pedagogia ou em nível de pós-graduação".

A principal inovação do texto aprovado em relação ao original é a supressão da previsão de um órgão de fiscalização da profissão. Entendeu-se que a fiscalização feita pelo Ministério da Educação e pelas secretarias estaduais e municipais de educação é suficiente para coibir os desvios. Atividades exclusivas - Entre as atividades que passam a ser exclusivas do pedagogo estão:

•a elaboração e o acompanhamento de estudos, planos, programas e projetos da área de educação, ainda que não escolares; •gestão educacional nas escolas e nas empresas de qualquer setor econômico; •a administração, o planejamento, a inspeção, a supervisão e a orientação educacional nas escolas; •o recrutamento, a seleção e a elaboração de programas de treinamento e projetos técnico-educacionais em instituições de diversas naturezas.

domingo, 23 de agosto de 2009

Mudança de comportamento escolar

Toda criança em idade escolar deve freqüentar a escola. Mas nem todos recebem orientação em casa de quais são os seus compromissos diários.

Quando se é criança vive correndo de lá pra cá e de vez em quando nos comportamos mal. Algumas crianças não se adaptam à turma ou a escola que freqüenta e muitas vezes necessitam de orientação.

Algumas orientações são bem rígidas, isso sob o olhar da criança, mas para o adulto nem sempre. Acredita-se que uma punição será melhor resposta para aquele momento. Entretanto, houve uma época em que essas crianças eram na escola, colocadas na “cadeira do pensamento” ou “a cadeira quente” (denominações usadas em muitas escolas), onde a intenção era fazer com que a criança parasse para pensar sobre o seu erro. É comum acontecer que alguns professores até trazem suas preocupações com essas crianças difíceis para as reuniões com os especialistas.

Tentar se evitar ao máximo soluções como essa, é o desejo de todo professor, na medida do possível, pois uma vez que o aluno ia ao setor de orientação, voltava de lá desanimado, acreditando que nada na instituição escolar o favorecia. Acontece também que crianças com mau comportamento sofrem com os rótulos. Isso além de prejudicá-lo perante os colegas de turma, se espalhando na comunidade escolar como uma imagem negativa, reforçando o comportamento indesejado diante do equívoco de como a questão foi tratada. Este aluno passa a não ter confiança na sua possibilidade de mudança. Infelizmente isso é muito comum.

Uma vez foi relatado em uma supervisão que um aluno tinha perturbado a aula da professora o tempo todo. Ele chutava a canela de seus companheiros, xingava muito e exigia que as meninas sempre que saíam da escola, lhe pagasse uma “taxa de proteção”, o que significava que recebia dinheiro por este “serviço prestado”. Ele raramente fazia seu dever de casa, apesar de um bom desempenho escolar em algumas áreas do conhecimento. Mas necessitava mostrar o tempo todo o quanto era forte e poderoso. Logo essa situação ficou insustentável. A equipe escolar se reuniu e resolveu dar um basta nessa situação.

Os responsáveis foram convidados a vir à escola, quando o aluno representante da turma veio até mim e exigiu que o aluno devesse ser colocado na cadeira do pensamento, para que pudessem dizer a ele como ele os tinha provocado e ofendido. Além disso, ele deveria devolver a grana que havia tirado das crianças. Eu salientei a eles que dessem um tempo a mais a essa criança para que fosse conversado com ele sobre o que estava acontecendo.

Eu comecei a dizer que iríamos expressar os nossos sentimentos com freqüência na sala de aula. Que todos falariam um de cada vez e que essa dinâmica passaria a fazer parte do nosso trabalho diário. Todos teriam um tempo para falar de sua família, suas preferências e gostos. Que todos receberiam uma frase e que esta deveria ser complementada por uma idéia sua, que fosse significativa para cada um deles. A frase era: - Você é um de nós... E assim todos relataram como se sentiam fazendo parte daquele grupo. Em poucos meses o comportamento de todos na sala de aula mudou. Não teve mais aquela competição que a todo o momento era motivo de conflito. Todos passaram a respeitar os limites do outro e seus erros, como algo que faz parte de um processo de crescimento. Não riam mais de seus colegas e nem muito menos usavam a cadeira do pensamento.

Era necessário se trabalhar a turma toda. O que ficou desse trabalho foi o crescimento pessoal de cada criança que ao ser valorizado enquanto pessoa passa a ser a personagem principal dessa história. Quando damos oportunidade à criança de construir a sua história e descontruir os mitos que a envolve, tudo passa a ser um desafio a mais e não um incômodo.

As crianças constroem ao longo do seu percurso escolar, desde muito cedo a internalizar os conceitos do certo e do errado. Apenas o que falta a elas é a dosagem do quanto elas podem usar esses recursos a seu favor. O limite de uma má atitude vem dessa censura interna que num primeiro momento se apresenta como um estranhamento, indo para uma atitude de vergonha, para mais adiante haver a censura moral. O que se deve reforçar numa criança, no início de um aprendizado é a atitude de arrependimento, sem haver nenhuma ação constrangedora.

Este trabalho rendeu muito na escola enquanto crescimento emocional. Os alunos entenderam que o erro é algo que pode ser corrigido e ser substituído por outra ação. Aquela criança melhorou o seu comportamento não mais prejudicando a ninguém, devolveu o dinheiro cobrado aos colegas e voltou a fazer parte do grupo. Esse pertencimento foi à consciência de que ele fazia parte do grupo e que mais vale uma boa ação do que o erro e a marginalização.

Em pouco tempo ele retornou ao grupo e voltou a suas atividades escolares sem prejuízo nenhum. Isso só foi possível devido à compreensão de sua professora, que estava pronta a ouvi-lo e principalmente pronta a mudar as regras do jogo.

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Um Certo Ivan Illich

Neste mês de dezembro, cheio de emoções para os brasileiros, passou despercebida a morte na Alemanha de um certo Ivan Illich. Para os jovens, esse nome talvez não queira dizer nada ou, no máximo, uma vaga referência ao personagem de Tolstoi. No entanto, o homem real, personagem de si mesmo, peregrino, cosmopolita e rebelde insolente, que alimentou tantas lendas, foi quem melhor entendeu as arapucas em que entrava nossa civilização.

Para quem o conheceu e teve a chance de debater com ele idéias insólitas e subversivas, é impossível enfrentar um engarrafamento sem lembrar-se que ele, já nos anos sessenta, dizia do absurdo que é consagrar uma parte dos seus dias a trabalhar para comprar e manter um automóvel, que supostamente nos faz andar mais rápido, e acabar por deslocar-se na velocidade de um jumento da Idade Média. Esse um de seus primeiros insights sobre os problemas sem solução que estamos vivendo, e que podem ser sintetizados no sentimento de perda de poder diante da tecnologia.
Aquela que deveria libertar os homens da servidão do trabalho e que acabou, cumprindo a profecia de Illich, por nos escravizar a todos, não só pela dependência que cria, mas sobretudo por nos algemar a um mundo produtivo cada vez mais invasivo e exigente, onde ganhamos duramente o necessário para comprar os novos produtos que a sociedade de consumo impõe como indispensáveis. Inverteu-se o projeto: a relação dos humanos com a tecnologia virou a relação da tecnologia com os humanos.

Amigo e debatedor de Paulo Freire, Illich substituiu a proposta de uma “pedagogia dos oprimidos” pela crítica à “opressão da pedagogia”. Hoje, uma reunião de educadores, em que todos se queixam do fracasso da escola, ecoa quem primeiro percebeu que a educação se transformara em um bem de consumo, um produto como qualquer outro, fabricado, garantido e vendido pela instituição escola, embora seja fora dos seus muros que aprendemos a maior parte do que sabemos.

É assim porque a escola é parte integrante de uma sociedade que acredita no consumo ilimitado. A corrida aos diplomas e a acumulação de títulos avalizam o bom funcionamento intelectual e são condição prévia do êxito social. Enquanto isso, toda iniciativa pessoal no sentido da auto-educação ou de uma educação entre pares carece do selo de garantia que só os diplomas são capazes de fornecer. Concluir a escolaridade por que meios for passa a ser sinônimo de competência, o que, pelo avesso, desqualifica os que não têm diplomas. Illich investiu na criação de instituições educativas diferentes que, dizia, pertenciam a uma sociedade que ainda não existia, mas que essas instituições ajudariam a criar.
As “redes de saber” que propunha deveriam dar acesso aos recursos existentes a todos que quisessem aprender em qualquer época da vida; permitir que os que desejavam partilhar seus conhecimentos o fizessem, encontrando quem quisesse partilhá-los ou trocá-los por outros conhecimentos; os portadores de idéias novas deveriam poder se fazer ouvir. Illich escreveu antes da internet, mas quem hoje troca conhecimentos na rede tem um parentesco certo com essas idéias que, na época, eram acusadas de utópicas e sem apoio na realidade. Mas a realidade foi ao encontro de suas idéias, como acontece com todos os pioneiros.
No debate sobre meio ambiente, a humanidade, confrontada com o xeque-mate da limitação de recursos naturais, descobriu que o problema não é escassez, mas o desperdício, o modelo de civilização que ele tanto criticava: o crescimento ilimitado, o consumo demencial de energia, a criação incessante de novas necessidades. Esbanjamento que desequilibra o acesso à energia entre ricos e pobres, reproduzindo no consumo de bens naturais a desigualdade de sempre que marca a relação entre os países desenvolvidos e o resto do mundo.

Frenético, insaciável, destituído de sentido outro que a acumulação de bens, esse modelo de civilização adoece o planeta, esgotado, como esgota os nervos de cada um. As pessoas doentes voltam-se, então, para mais uma instituição, a que distribui saúde, como a escola distribui educação. O hospital, a medicina, são os novos alvos de um pensamento ferino, rigorosamente coerente: é preciso devolver aos indivíduos a capacidade criativa de que foram expropriados, permitindo-lhes educar-se no convívio e na experiência, cuidar da sua própria saúde, vivendo uma vida física e mentalmente saudável, encontrando sentido na existência.
A grande descoberta de Ivan Illich foi a natureza tragicômica de um modelo de desenvolvimento empenhado em resolver problemas que ele mesmo cria. No início deste ano, a Unesco convocou um encontro com título instigante: “Desfazer o desenvolvimento, refazer o mundo.” Lá estava Illich, o pioneiro Illich, que acaba, este mês, de cumprir o seu destino. “Tentei viver como um peregrino, um passo depois do outro, adentrando meu tempo, vivendo no meu horizonte, que espero alcançar com o passo, o surpreendente passo que darei ao morrer."

Por: Rosiska Darcy ( do Centro de Liderança da Mulher).

terça-feira, 18 de agosto de 2009

Para que serve o professor?

Ao ler a respeito de casos de violências nas escolas, deparei-me com
uma esfera da violência que não definiria precisamente como o máximo da
impertinência... porém, sem dúvida, de uma impertinência muito significativa.
Era o relato de um estudante que, para provocar seu professor, lhe disse:
---“ Desculpe-me, mas, na época da internet... você professor.... para que
serve ?

O estudante disse uma meia verdade que , mesmo entre os próprios
professores, é dita há pelo menos vinte anos, qual seja a de que antigamente a
escola transmitia formação e também conteúdos, desde a tabuada nas séries
iniciais, qual é a capital da Espanha nas séries seguintes até os fatos da guerra
dos trinta anos no ensino médio. Com o surgimento, não apenas da internet,
mas da televisão, do rádio, assim como do cinema, grande parte destes
conteúdos começaram a ser absorvidas pelas crianças na esfera extra-escolar.

Quando era pequeno, meu pai não sabia que Hiroshima ficava no Japão,
que Guadalcanal existia, tinha uma idéia muito imprecisa de Dresde e somente
sabia da Índia o que havia lido am Salgari. Eu, que sou da época da guerra,
aprendi essas coisas pelo rádio, nas notícias diárias, enquanto que meus filhos
viram na televisão os fiordes noruegueses, o deserto de Gobi, como as abelhas
polinizam as flores, como era um tiranossauro rex e, hoje em dia, uma criança
sabe tudo sobre o ozônio, sobre os Coalas, sobre o Iraque e o Afeganistão.

Talvez uma criança de hoje não saiba o que sejam exatamente as células
tronco, mas já ouviu falar disso enquanto que, em minha época, nem mesmo a
professora de ciências naturais sabia algo a este respeito. Então... para que
servem os professores hoje em dia ?

Eu disse que o estudante falava uma meia verdade porque, antes de
tudo, todo docente além de informar, deve formar. O que leva uma turma a ser
uma boa classe não é que sejam transmitidas datas e nomes, mas que se
estabeleça um diálogo constante, um confronto de opiniões, uma discussão
sobre o que se aprende na escola e o que aprende fora dela. É certo que o que
acontece no Iraque é dito pela televisão. Porém, porque isso acontece ali desde
a época da civilização mesopotâmica e não no Alaska, é algo que só pode ser
dito na escola. E se alguém objetasse que, às vezes, também existem pessoas
que aprendem no “ Porta a Porta” ( programa televisivo italiano que discute
temas da atualidade), é a escola que deve discutir o “ Porta a Porta”.

Os meios de comunicação de massa informam sobre muitas coisas e
também transmitem valores, mas a escola deve saber discutir a maneira como
estas informações são transmitidas e avaliar o tom e a força da argumentação
do que aparece em jornais,revistas e televisão. Além disso, a escola deve
verificar a informação veiculada por estes meios. Por exemplo: quem, senão
um professor, pode corrigir a pronúncia errada do inglês que os alunos
acreditam ter aprendido pela televisão ?

Aquele estudante não estava dizendo ao professor que já não
necessitava dele porque agora existem o rádio e a televisão para lhe dizerem
onde fica a Groenlândia ou o que é discutido sobre a fusão a frio. Ou seja, não
estava lhe dizendo que seu papel era questionado por discursos isolados que
circulam de maneira casual e desordenada a cada dia em diversos veículos de
informação - que saibamos muito sobre o Iraque e pouco sobre a Síria,
depende da boa ou má vontade de Bush. O estudante estava dizendo ao
professor que hoje existe internet, a grande mãe de todas as enciclopédias,
onde se pode encontrar a Síria, a fusão a frio, a guerra dos trinta anos e a
discussão infinita sobre o maior dos números ímpares. Estava lhe dizendo que
a informação que a Internet coloca à sua disposição é imensamente maior e
inclusive mais profunda do que aquela de que dispõe o professor. E omitia um
ponto importante: que a Internet lhe dá “ quase tudo”, exceto como pesquisar,
filtrar, selecionar, aceitar ou descartar toda essa informação.

Armazenar uma nova informação quando se tem boa memória, é algo de
que todo mundo é capaz. Porém, decidir o que é que vale ou não a pena
relembrar, é uma arte sutil. Esta é a diferença entre aqueles que cursaram
estudos regulares( mesmo que mal) e os autodidatas( mesmo que geniais).

O mais dramático é que , muitas vezes, nem mesmo o professor sabe
ensinar a arte da seleção. Ao menos, não em cada capítulo do saber. Porém,
pelo menos sabe que deveria sabê-lo e, se não sabe dar instruções precisas a
respeito de como selecionar a informação, pelo menos deve oferecer-se como
exemplo mostrando ao aluno que se esforça por comparar e julgar tudo aquilo
que a Internet coloca à sua disposição. Pode também colocar em cena , em seu
cotidiano, a intenção de reorganizar sistematicamente o que a Internet lhe
transmite em ordem alfabética, dizendo-lhe que existe Tamerlão e
monocotiledoneas sem apresentar a relação sistemática entre estas duas
noções.

O sentido desta relação somente pode ser oferecida pela escola e se
esta não sabe como fazê-lo, terá que equipar-se para tal. Se não, os três Is de
Internet, Inglês e Instrução continuarão sendo somente a primeira parte de um
zurro de asno que não ascende ao céu.
Por Umberto Eco
Tradução do espanhol, por Júlia Eugênia Gonçalves

sábado, 15 de agosto de 2009

Dignidade no ato de Alfabetizar



Li certa vez um comentário do escritor Rubem Alves sobre um livro e ele citou: “O primeiro ato de domínio exige que o dominado esqueça o seu nome, perca a memória do seu passado, não mais se lembre de sua dignidade, e aceite os nomes que o senhor impõe. A perda da memória é um evento escravizador.” Fiquei por muitas horas com esse pensamento na cabeça.

Percebi o quanto essa afirmativa me incomodava, ao ponto de tentar refletir sobre ela.
Fui durante um bom tempo professora de alfabetização, do Colégio Andrews no Rio de Janeiro. Lá aprendi muito com a minha supervisora e lembro-me dela falando com um imenso prazer à importância de ser alfabetizador. Através dela conheci vários métodos e uma das premissas que levo comigo na minha prática, é a autoria de se construir um trabalho voltado para a dignidade da pessoa e respeito pela autoria do que se pensa e faz.

Assim fui construindo a minha prática. Lógico que hoje posso falar com mais propriedade do que naquela época. Mas nem por isso o trabalho foi menor.

Naquela época iniciávamos a alfabetização com a escrita do nome. Inventávamos todos os tipos de brincadeiras para ser o elo motivador, para que as crianças se envolvessem com a proposta e falassem de suas vidas.

Era um espaço único. Tínhamos tapete vermelho perto de uma estante cheia de livros infantis, onde ficava a disposição pra quem quisesse ler no devido momento. Éramos muito organizados, tudo tinha o momento certo. Lógico que nada era rígido, mas pra nos entendermos sempre tínhamos os combinados que só mudavam conforme a necessidade. Lembrei-me agora do teatro que fizemos: com o roteiro criado por uma aluna, as personagens criadas por eles e com eles (os atores) construíam o cenário. Parecia mais uma fábrica de idéias do que uma escola convencional. E bota convencional (leia-se tradicional) nisso... Portanto, quando era necessário subvertíamos a ordem.

Ao trabalhar o nome das crianças lançávamos a ideia do quanto àquela história era única. O quanto ele era importante pra ser ouvido por todos. Portanto, o nosso tamanho era igual, mesmo quando a fita métrica insistia em dizer que não era verdade. Com isso o companheirismo, a solidariedade, a cumplicidade na construção de um conhecimento acontecia naturalmente.

Éramos tão próximos que a minha autoridade se fazia presente sem maiores esforços. Líamos todos os dias, com freqüência havia um relator de histórias ou um escritor. Aliás, tive vários escritores e que hoje em dia confesso a vocês que são jornalistas.
E para completar a história, digo que são ótimos jornalistas e escritores, vivem da leitura até hoje.

Se a intenção de ter na sala de aula, um espaço de leitura, a convivência diária com os livros e uma boa dose de autoconhecimento, que os ajudaram a escolher a futura profissão, eu não tenho certeza, mas tudo me indica que em muito ajudou.

Portanto, ter uma escola é muito mais do que se ter prédio, carteira e computador. É ser cidadão de sua história, é ter uma história pessoal bem construída e bem resolvida. Se conhecer deve ser uma das condições do ato de ensinar. Não se pode ser adulto sem conhecer a criança que existe em você. A responsabilidade de tornar a sua vida profissional expressiva depende exclusivamente da imagem que você possui de você mesmo.

A criança recupera facilmente um erro, mas uma frustração é algo doloroso e que não deve fazer parte do repertório de atividades da escola.

Quando vejo algum professor falar de seu aluno de forma a diminuí-lo, sinto revolta da falta de clareza do mesmo. Não nascemos “estrelas”, nos tornamos “estrelas”. Cada professor tem por finalidade em sua educação, torná-lo um cidadão, completo no seu desejo de se tornar um indivíduo único e introduzir na pauta de trabalho a consciência que todas as pessoas, estão aptas a exercerem sua cidadania. O que se tem a fazer é ajudá-lo a recuperar o verdadeiro sentido da vida. Essa é a condição indispensável para que a criança possa reconhecer a paisagem social em que está inserida e possa ser capaz de fazer a sua leitura e principalmente, possa situar-se nela como alguém que tem deveres e direitos, como alguém que pode atuar sobre essa realidade, contribuindo para mantê-la ou transformá-la.

Nessa sala havia autonomia. Havia muita felicidade pelo que éramos. Sinto saudades das histórias, talvez por não ouvir mais as verdades que elas continham. E podem acreditar que são muitas...

Mas... Sinto-me também confortável aos vê-los doutores de palavras e dignos do que pensam e fazem.
A eles a minha eterna gratidão por fazer parte de suas vidas

terça-feira, 11 de agosto de 2009

A escola pode ser legal


Hoje vamos conversar sobre uma escola legal... Antes, procuro refletir o que significa na língua portuguesa a palavra “legal” que é muito utilizada por todos nós.
Esta representa em nosso cotidiano, algo interessante, bom, bonito... “Legal” passou a ser um adjetivo que tenta expressar sempre algo positivo.
Ao buscar o significado da palavra legal no dicionário, encontramos muitas definições e algumas delas são: legal - amável, compreensivo (uma professora legal), interessante, curioso (uma dica legal), justo (uma decisão justa).

Assim, lembro-me de quando criança sempre me referir à escola de meus sonhos como sendo uma escola legal. Não me surpreendo quando vejo que em minha vida e provavelmente na de muitos que conheço; de se referir a uma escola legal, declarando alto e em bom som que passaram por uma “professora legal”. Essa para mim é a melhor definição!

E o quadro que vejo dessa época são as lembranças dos incentivos que tive, e por incrível que pareça eles sempre vieram dos professores vinculados a artes plásticas e outras tantas lembranças eram da merenda, lembrança agradável ao sentir os sabores. Parece que tudo era mais gostoso. E mais tarde lembro-me daqueles que trabalhavam na cantina. Sempre gostei de ouvi-los, eles possuíam as melhores histórias. Conheciam a escola de uma forma lúdica e muito criativa.

Mas, afinal o que significa uma escola legal? Com certeza significa que na vivência escolar os dois significados da palavra legal caminham juntos. Esta se reporta a uma educação de qualidade e amparada pela lei (legal) nacional.

A educação no espaço escolar deve discutir qual a concepção de escola em que acreditam. Essa concepção está refletida em seu projeto político pedagógico, como construção de uma filosofia de trabalho. Esta definição de educação traz um grande avanço para a cidadania, quando a educação passa a ser um direito de todos. A atual Constituição também chamada de “Constituição Cidadã”, pelos seus avanços nos direitos do cidadão, dispõe de um capítulo intitulado “Da Educação, da Cultura e do Desporto” no qual a seção I é destinada à educação (art. 205 ao art. 213)”.

Nela educação é definida como “(...) dever da família e do Estado, inspirada nos princípios de liberdade e nos ideais de solidariedade humana, tendo por finalidade o pleno desenvolvimento do educando, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho” (art. 2º).

Assim, percebemos que legalmente educação é responsabilidade de todos e que é necessária à estreita relação entre Estado, sendo representado pela escola pública e a família.

Mas, compreender os avanços educacionais passa pela percepção que tenho do que seja uma escola “legal”. Parece que temos que unir esforços para ampliar essa concepção, que passa pelos diferentes atores: pais, alunos, professores e comunidade. Um dos principais componente desse cenário, os pais necessita ser ouvido, para atendermos o que eles esperam da escola e quais os princípios e valores que norteiam a educação que se quer implantar.

Hoje, entendemos que muitos professores acreditam que é fundamental a participação da família na construção de uma escola de qualidade e com muita responsabilidade construir o melhor currículo para essa comunidade.

Só assim compreendo que uma escola legal, tem o compromisso no Amor e na escolha de todos que assumiram essa profissão, construindo com os seus parceiros uma sociedade democrática.

Com certeza o caminho é longo, percorrer os caminhos viáveis, independente que uma legislação venha nos autorizar e sim de vontade política. E com certeza entender melhor a infância e suas etapas de desenvolvimento humano, vem contribuir em um maior compromisso e responsabilidade de todos que participam desse processo.

Vejo que no cenário educacional quando relatamos uma escola legal, sempre nos vem à mente uma sala de aula confortável, com uma aula agradável e bons professores. É inegável que o conforto nos trás um bem enorme, porém nenhum avanço "tecnológico" irá substituir o contato humano entre professor x aluno. O maior conforto e segurança que um professor consegue construir no seu trabalho diário; é o de conhecer e reconhecer o seu aluno como um indivíduo único. É daí que nasce a verdadeira escola legal, esta se vê em construção e com uma identidade própria.

Por mais que avancemos a escola guarda em si o mistério, a curiosidade de ser um espaço de idéias e ideais, onde guardamos o nosso maior patrimônio- o conhecimento. Ainda não existe um lugar mais confortável que este, que democraticamente evolui o pensamento educacional. Portanto, a escola permanece a despeito de tudo e de todos, no rol dos livros técnicos, sendo descoberta e construída por diferentes pensadores o que seja uma escola legal.

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

A escola e a diversidade ambiental


Tenho lido diferentes assuntos, mas sempre leio assuntos relativos ao Meio-Ambiente. Como trabalho em educação, este tema é discutido no ambiente escolar, mesmo que seja por um período, volta e meia recebemos orientações de como trabalhar assuntos como: mudanças climáticas, biodiversidade, segurança alimentar e diversidade étnico-racial, que em 2003 reconheceu a importância da Lei 10.639, que torna obrigatória o ensino sobre História e Cultura Afro-Brasileira em todas as escolas do Brasil, no ensino fundamental e médio. Apesar da obrigatoriedade, ressalvo que ainda estamos longe de tratar o assunto com a importância que merece.

O Brasil possui um perfil que demonstra que a nossa sociedade é plural, composta por uma grande diversidade de povos e culturas, mas também é marcada por uma enorme desigualdade social, entre brancos, negros e indígenas. Uma grande parte da população brasileira está às margens da sociedade, sem direito ao pleno acesso à cidadania.

Mas existem movimentos sociais, como o movimento negro e o indígena, que têm exigido o reconhecimento e a valorização de sua identidade, da sua história e cultura. O grande desafio que o Brasil apresenta hoje é a garantia de condições para que a diversidade étnico-racial e a igualdade social sejam partes cotidianas de toda uma sociedade emergente.

Existem hoje no Brasil por volta de 440 mil indígenas, organizados em 220 etnias, que falam cerca de 180 diferentes línguas. Eles representam agora apenas 0,24% da população brasileira. É importante que seja assegurado, que os povos indígenas possam manter o seu modo de vida, tradições, formas de organização, que possam falar a sua própria língua, administrar suas terras e decidir de que maneira querem educar suas crianças e jovens. E é importante que participem do desenvolvimento político, social, econômico e cultural do Brasil.

Isto tudo depende, principalmente, de que cada comunidade indígena tenha o seu território tradicionalmente ocupado demarcado como seu. São reconhecidas que terras cultivadas, terras que são ocupadas e os recursos naturais, são territórios indígenas, estas terras são reconhecidas pela Constituição Brasileira, portanto ninguém pode usá-la a não ser os próprios. Para se ter uma idéia, existem 2.228 escolas indígenas cadastradas pelo Censo de 2004, fora outras não cadastradas.

O que se pode tirar dessa realidade é que o Brasil é um País que as cidades cresceram muito, mas ainda 1/5 da população mora fora das zonas urbanas. São os povos da floresta, da pecuária, das minas, da agricultura, os pesqueiros, caipiras, caiçaras, ribeirinhos e extrativistas entre outros. A educação nessas comunidades deve ser diferenciada e deve ajudar a preservar a memória, atender às necessidades do presente e ajudar a construir o futuro que cada uma deseja.
Hoje em dia sabemos que as teorias sobre as raças estavam erradas e que os seres humanos pertencem todos à mesma espécie- a raça humana.

O que percebo é que poucos sabem e pouco é debatido nas escolas é o acordo internacional que orienta os estudos e debates sobre a diversidade étnico-racial, que é a Declaração de Durban, assinada durante a III Conferência Mundial de Combate ao Racismo, Discriminação Racial, Xenofobia e Intolerância Correlata, realizada pela ONU, na áfrica do Sul, em 2001.
Nessa Conferência participaram diversos movimentos sociais defensores da igualdade étnico-racial, como o movimento negro. O Brasil apresentou um programa de ação afirmativa, que tem o propósito de diminuir a desigualdade social existente entre os grupos étnico- raciais.
Para se ter idéia a Declaração de Durban teve enorme repercussão e a mesma deve fazer parte de leitura obrigatória nas escolas quando se quiser falar sobre diversidade étnico-racial. Esta é uma das afirmativas em seu documento: “Todos os povos e indivíduos constituem uma única família humana, rica em sua diversidade”.

Muito daquilo que sabemos do mundo chega até nós pelos meios de comunicação, seja revistas ou outros instrumentos. Então, é importante observar de que modo as minorias estão sendo retratadas na mídia. Esse olhar muda e muito a nossa avaliação.

Por outro lado, podemos usar esses meios para mostrar a nossa realidade, o jeito como vivemos, pois é assim que a gente conhece e reconhece a diversidade, e passa a entender e respeitar outros modos de vida.

A responsabilidade de tratarmos desses assuntos no espaço escolar passa pelo respeito à diversidade que deve compartilhar o permanente diálogo na comunidade e na sociedade.
Existem organizações sociais e governamentais que tratam desse tema e a presença da criança, do jovem e do adolescente ajuda a pensar e definir como será futuro que queremos.

Outro assunto muito relevante e complementar trata das questões referentes a segurança alimentar e nutricional que em breve iremos conversar.




domingo, 9 de agosto de 2009

O que há de errado com seu pai?


Alguém já disse: “é importante gastar menos tempo
com a nossa aparência e mais tempo com como nós vemos”?
Se não, alguém deveria.

Carmen Richardson Rutlen


Eu estava no ginásio antes de perceber que meu pai tinha um defeito de nascença. Ele tinha lábio leporino e fenda palatina, mas, para mim, continuava com a mesma aparência que tinha no dia em que nasci. Lembro-me de dar-lhe um beijo de boa noite certa vez, quando eu era pequena, e perguntar se meu nariz ficaria chato depois de uma vida inteira dando beijos. Ele me assegurou que isso não aconteceria, mas me recordo de um tremor em seus olhos. Tenho certeza de que ele estava assombrado por ter uma filha que o amava tanto, que pensava que seus beijos, não trinta e três cirurgias, haviam remodelado seu rosto.

Meu pai era gentil, paciente, atencioso e amoroso. Ele nunca encontrou uma pessoa na qual não pudesse vislumbrar qualidades. Sabia o primeiro nome de serventes, secretárias e diretores. Na verdade, acho que ele gostava mais dos serventes. Sempre perguntava sobre suas famílias, sobre quem eles achavam que iria ganhar o campeonato de futebol e sobre como andava a vida. Preocupava-se o suficiente para escutar suas respostas e lembrar-se delas.

Papai nunca deixou que sua deformação comandasse sua vida. Quando foi considerado muito feio para trabalhar com vendas, começou a fazer entregas de bicicleta e criou sua própria clientela. Quando o exército não permitiu que ele se alistasse, ele se ofereceu como voluntário. Chegou até mesmo a convidar uma Miss América para sair, uma vez.
- Se você não perguntar, nunca vai saber- disse-me mais tarde.

Raramente falava ao telefone, pois as pessoas tinham dificuldades para entendê-lo. Quando o encontravam pessoalmente, com sua atitude positiva e sorriso fácil, pareciam não levar sua deficiência em consideração. Casou-se com uma linda mulher e tiveram sete crianças saudáveis, que achavam, todas, que o sol e a lua nasciam em seu rosto.

Quando eu era uma “adolescente sofisticada”, entretanto, mal tolerava estar no mesmo aposento com este homem que, durante uma década, me aturou enquanto eu o observava fazendo a barba todas as manhãs. Meus amigos eram chiques, na moda e populares; meu pai era velho e ultrapassado.

Numa noite eu cheguei com o carro cheio de amigos e paramos na minha casa para fazer um lanche de madrugada. Meu pai saiu de seu quarto e cumprimentou meus amigos, servindo refrigerantes e fazendo pipoca. Um de meus amigos me puxou para o lado e me perguntou:
- O que há de errado com seu pai?

De repente, olhei através da cozinha e o vi pela primeira vez com olhos imparciais. Fiquei chocada. Meu pai era um monstro! Fiz com que todos saíssem imediatamente e levei-os para casa. Senti-me tão idiota. Como podia ter deixado de ver?
Mais tarde, naquela noite, eu chorei, não porque percebi que meu pai era diferente, mas porque percebi que pessoa fútil e patética eu estava me tornando. Ali estava a pessoa mais doce e carinhosa que você poderia pedir e eu o havia julgado por sua aparência.

Naquela noite eu aprendi que, quando você ama totalmente alguém e então a vê através dos olhos da ignorância, do medo ou do desprezo, começa a entender a profundidade do preconceito.Eu havia visto meu pai como os estranhos o viam, como alguém diferente, deformado e anormal. Sem me lembrar que ele era uma boa pessoa que amava sua esposa, seus filhos e seus semelhantes. Ele tinha alegrias e tristezas e já vivera uma vida inteira sendo julgado pelas pessoas por sua aparência. Fiquei grata por tê-lo conhecido primeiro, antes que as pessoas me mostrassem seus defeitos.

Papai já se foi. Empatia, compaixão e preocupação pelo próximo são o legado que ele me deixou. São os maiores presentes que os pais podem dar a um filho- a capacidade de amar os outros sem considerar sua posição social, raça, religião ou incapacidades físicas, mas os dons da perseverança positiva e do otimismo. O sublime objetivo de ser tão amorosa em minha vida que receba beijos o bastante para que meu nariz fique chato.


Carol Darnell

Fonte: Histórias para Aquecer o Coração