quinta-feira, 23 de julho de 2009

Marcelo Guerra e o seu Blog

Conheci o seu Blog. Fiquei muito contente com o que lá encontrei. Adorei o texto sobre “desapego” e fiquei perplexa com o seu histórico de vida.
Você que pensava em ter uma carreira médica dentro dos “padrões normais”, conseguiu dar forma e personalidade ao que faz. Quando lemos o seu currículo conseguimos ver um homem em formação, construindo a sua personalidade e o seu caráter. Nele há vida e vemos nitidamente a extensão do ser humano que você ajudou a construir.

Acredito que o ser humano se faz, ele não nasce pronto. Percebi nitidamente que o seu caminhar foi extenso, que você abraçou como uma oportunidade de viver e conhecer novas culturas e novos movimentos internos em “Ser”. E isso não é nada fácil. Sair do aconchego do lar e ir em busca de conhecimento em terras estranhas...

Quando estamos numa escola e influenciamos os nossos alunos em suas escolhas, não temos a dimensão do mesmo, a não ser quando ele sai da escola e se profissionaliza, aí sim... Conseguimos ver um pouquinho dessa pessoa e seus princípios e valores. Assim, vemos como somos portadores de sonhos e conservamos em nossa psique os sonhos vividos e compartilhados de muitas gerações.

Sinto falta de uma escola em minha vida. Ela se chamava- “Escola Viva”. Pelo nome você já percebe o seu projeto. Foi uma idéia brilhante de uma educadora Riobonitense. Retornei a minha terra natal em 1997. Conheci esse projeto porque necessitava colocar a minha filha em uma escola. Assim, busquei conhecer os projetos pedagógicos de minha cidade. A princípio fiquei encantada com as idéias propostas na “Escola Viva”. Era uma mistura de intenções que iriam desde os fundamentos de uma escola tradicional até uma escola interacionista. Passamos por diferentes intenções que naquele momento ainda eram mais subjetivas do que racionais. Mas havia a intenção de mudança, de procura do novo e um grande compromisso responsável que era compartilhado por um grupo de pessoas que dirigiam à escola. Nesse grupo havia médico, engenheiro, psicólogo, pedagogo, professores, comerciantes e pessoas do lar. A busca por novas possibilidades de trabalho percorreu territórios. Foi um vasto universo de conhecimentos em busca de um modelo de trabalho diferenciado. O que eu não imaginava, era que essa escola se tornaria o meu grande projeto de vida. E foi mesmo... Foram muitos anos de investimento.

Mas você sabe quando se é jovem percebemos a vida de um jeito muito peculiar, depois amadurecemos e damos formas ao que pensamos e vivemos; e mais tarde essa verdade passa a existir como algo que você necessita pra viver diariamente. A vocação nos é apresentada em diferentes formas e nos pega de surpresa.

Passei sete anos nessa escola, que eu considero que era um espaço de construção de saberes. Tínhamos crianças de 02 anos até o início da adolescência. Percorremos diferentes autores para sintetizarmos uma proposta viva, cheia de conhecimentos, sentimentos e emoções partilhados. Conflitos também existiam, pois o movimento de idéias era constante. Foi um sonho realizado e idealizado por um grupo de professores e profissionais liberais, um trabalho dinâmico e forte. Trabalhamos com crianças portadoras de diferentes necessidades especiais numa escola regular. Foi um projeto inovador em minha cidade. Sobre essa parte conversamos em um outro momento, pois só este fato daria um capítulo a parte.

O fato que me chama a atenção é o de vivermos diferentes histórias e olharmos que nelas contém um caminhar de vida, onde o ouvir, ver e cheirar é parte do objeto de estudo. Esse passeio diário pela vida e seus labirintos nos fortalece enquanto pessoas, que reverencia a vida e o supremo maior que é a ética do amor. Assim nós permanecemos humanos enquanto construímos um canteiro de possibilidades e que nela carregamos as alegrias e a beleza de se viver.

Percebo que se existe uma intenção de cura em meu ser, esse passa pela terapia do vínculo, onde a possibilidade de ser livre existe e nos torna desvinculado da censura do olhar do outro. Assim, rimos de nós mesmos, das nossas infantilidades e das nossas brincadeiras.

Nesse momento vivemos a indisciplina da violência. Vivemos momentos de mudança. Dar oportunidade ao outro de se expor sem julgamento de valores tem sido o grande desafio. Perceber no outro uma construção desafiadora e desequilibrada e lidar com esse desafio tem sido a nossa função.

E juntar os cacos da violência, fazer a reconstrução é o maior desafio. Perceber uma possibilidade de vida em quem desistiu de viver é o medo constante. Fazer o outro sair de uma profunda crise de identidade narcísica e violenta, é mostrar o seu verdadeiro poder, e que esse “poder” seja usado em benefício próprio, construindo um cidadão com virtudes.

Não cabe mais no espaço escolar ou terapêutico a omissão de sentimentos e emoções. Cabe a competência profissional em representar um universo de valores que vá além dos conceitos contemporâneos, em prol de uma construção de identidade. Não cabe mais a rebeldia, mas o orgulho do recomeçar, da postura da possibilidade de começar a aventura de um novo caminhar. Assim nasce um novo cidadão, que por ventura seja ecológico em seu agir / pensar e sustentável em seus valores.
* Blog: http://marceloguerra.com.br

Um comentário:

Marcelo Guerra disse...

Bom dia, Natalícia,
Tenho andado bem ausente das comunidades do NING e do Orkut, por falta de tempo. Acabei de ver uma postagem em seu blog, falando de mim, e fiquei emocionado! Muito obrigado!
Abração para vc!